Documento integral
Projeto de Resolução n.º 553/XVII/1ª
Recomenda ao Governo a revisão da estratégia nacional de literacia financeira
Exposição de motivos
A literacia financeira é uma competência estrutural para o exercício responsável da
cidadania, para a autonomia económica dos indivíduos e para a sustentabilidade do
próprio sistema social e financeiro do país.
Trata-se de uma ferramenta útil para os cidadãos portugueses, que, com ela, conseguem
ter maior liberdade para agir e prevenir-se ao interagir com matérias financeiras, através
da compreensão dos incentivos e estruturas vigentes que os afetam no quotidiano.
Num contexto marcado pelo recurso ao crédito, pela complexificação dos produtos
financeiros, pela digitalização dos meios de pagamento e por fenómenos recorrentes de
endividamento excessivo, a insuficiente preparação financeira de uma população
representa um problema público com impactos económicos e sociais mensuráveis.
No caso de Portugal, em 2023, um estudo levado a cabo pela Comissão Europeia1
evidenciou que os portugueses são, em comparação com as demais populações dos
Estados-Membros, dos que menos entendem como funciona a inflação.
Em estudos mais recentes, como o relatório “O Valor de Aprender - Perspetivas Globais
sobre Educação Financeira ”, 63% dos portugueses afirmam ter conhecimentos sólidos
sobre finanças, mas apenas 36% conseguem responder corretamente a uma questão
simples sobre inflação.2
Esta fragilidade resulta de uma falha estrutural do sistema de ensino nacional , que
continua a tratar a educação financeira de forma residual, fragmentada e dependente de
1 https://eco.sapo.pt/2023/07/18/portugueses-sao-dos-que-menos-entendem-na-ue-como-funciona-a-inflacao/
2 https://eco.sapo.pt/2025/12/04/literacia-financeira-portugueses-brilham-na-confianca-mas-falham-no-teste-ao-
dinheiro/
iniciativas avulsas, sem continuidade curricular, avaliação sistemática ou formação
adequada dos docentes.
Apesar da existência do Referencial de Educação Financeira e do Plano Naci onal de
Formação Financeira, a sua implementação revelou -se desigual, limitada no tempo e
excessivamente dependente da boa vontade das escolas, sem mecanismos robustos de
monitorização, avaliação de resultados ou integração efetiva nos currículos obrigatórios.
A ausência de uma disciplina autónoma nos ciclos de ensino mais críticos para a formação
de hábitos económicos impediu a consolidação de competências práticas essenciais
numa fase determinante do desenvolvimento dos alunos, e é fundamental que se mude
tal sistema.
Acresce que a abordagem atualmente dominante privilegia conteúdos teóricos dispersos,
frequentemente desligados da realidade quotidiana das famílias, negligenciando a
aplicação prática da matemática às finanças pessoais, à gestão de rendimentos, despesas,
impostos, crédito e poupança. Esta lacuna compromete a capacidade dos jovens para
compreenderem o impacto das suas decisões financeiras ao longo do ciclo de vida, dada
a ausência de prática desde cedo.
A título de exemplo, vejamos que na Dinamarca, no 1º ciclo, as crianças já trabalham com
conceitos de orçamento familiar através de jogos digitais interativos e simulações
práticas, em matemática aplicada. Existem plataformas digitais educativas nacionais 3 e
parcerias públicas que permitem apren dizagem prática desde cedo. Atividades como a
elaboração de um orçamento pessoal ou familiar e a compreensão de formas de
aplicação da poupança4 são incluídas no 2º e 3º ciclo português, quando na Finlândia já
constam no 1º ciclo5.
As crianças portuguesas partem em desvantagem.
A proximidade do termo do Plano Nacional de Formação Financeira 2021 –2025 é uma
oportunidade para a revisão estrutural da estratégia nacional de educação financeira. O
3 https://pengeuge.dk/
4 https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/cidadania_desenvolvimento_-_aprendizagens_essenciais_-_consulta_publica.pdf
5 https://www.oph.fi/en/education-and-qualifications/national-core-curriculum-primary-and-lower-secondary-basic-education
Referencial de Educação Financeira atualmente em vigor foi aprov ado em 2013, num
contexto económico, tecnológico e social profundamente distinto do atual, revelando
sinais claros de desatualização face à realidade vivida por alunos e famílias. A inexistência
de um novo ciclo definido compromete a continuidade das polít icas públicas nesta
matéria, criando um vazio estratégico que importa suprir de forma planeada, coerente e
orientada para resultados.
Neste quadro, o CHEGA entende ser necessário propor a atualização do Referencial de
Educação Financeira e a definição de u m novo ciclo do Plano Nacional de Formação
Financeira para o período 2026 -2030, em articulação com o Ministério da Educação e
com as entidades supervisoras do sistema financeiro, designadamente o Banco de
Portugal, a Autoridade de Supervisão de Seguros e F undos de Pensões e a Comissão do
Mercado de Valores Mobiliários. É necessário adotar uma estratégia nacional coerente,
exigente e mensurável de promoção da literacia financeira.
Por fim, nenhuma reforma educativa é sustentável sem investimento sério na fo rmação
dos docentes. A certificação prévia, única e reconhecida a nível nacional garante rigor
técnico, neutralidade institucional e qualidade pedagógica, evitando a proliferação de
conteúdos inconsistentes ou influenciados por interesses externos ao sistema educativo,
é necessária.
A presente recomendação visa, assim, colmatar uma falha estrutural do sistema de
ensino português, dotando os alunos das ferramentas necessárias para decisões
financeiras informadas, responsáveis e autónomas, com impacto direto na estabilidade
económica das famílias, na redução do sobre -endividamento e no fortalecimento da
economia nacional. Trata-se de uma opção de política pública orientada para resultados,
alinhada com o interesse estratégico do país.
Assim, nos termos constitucionais e regimentalmente aplicáveis, os Deputados do Grupo
Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1 - Proceda à atualização do Referencial de Educação Financeira, bem como à definição
de um novo ciclo do Plano Nacional de Formação Financeira para o período 2026–2030,
em articulação com o Ministério da Educação e com entidades supervisoras do sistema
financeiro.
2 - Desenvolva uma plataforma digital nacional de literacia financeira, de acesso universal
aos alunos do ensino obrigatório, destinada à simulação de situações reais de gestão
orçamental, poupança, crédito, investimento e planeamento financeiro, em ambiente
pedagógico controlado, assegurando a disponibilização de conteúdos, exercícios
interativos, testes de avaliação e mecanismos de reconhecimento do mérito académico,
em moldes análogos aos já utilizados noutras plataformas educativas nacionais.
3 - Promova a formação prévia e certificada dos docentes responsáveis pela lecionação
da literacia financeira, garantindo que essa formação seja m inistrada por entidades
devidamente acreditadas, com certificação única e reconhecimento nacional, de modo a
assegurar rigor técnico, qualidade pedagógica e uniformidade na aplicação dos
conteúdos.
Palácio de São Bento, 4 de janeiro de 2026
Os deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
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