Documento integral
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Projeto de Resolução n.º 905/XVII/1.ª
Medidas de reforço da estabilidade contratual na investigação científica e de
valorização das carreiras de investigação
Exposição de Motivos
O funcionamento do Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN) tem assentado,
de forma persistente, na fragilidade dos vínculos de milhares dos seus investigadores
com recurso extensivo a bolsas e contratos a termo, o que compromete a estabilidade
e o desenvolvimento da investigação científica em Portugal.
Nos últimos meses, tornou-se particularmente evidente o crescente descontentamento
no setor relativamente às condições de exercício da atividade de investigação. Um
abaixo-assinado recente, promovido por investigadores e que reuniu mais de quatro mil
subscritores, veio reforçar a dimensão do problema e a urgência de uma resposta. No
centro desta mobilização está o atual modelo de enquadramento dos investigadores,
assente de forma significativa em bolsas de investigação, que continuam a substituir,
em muitos casos, relações laborais estáveis. Os subscritores defendem a necessidade de
revisão deste modelo, designadamente através da aplicação efetiva do Estatuto da
Carreira de Investigação Científica (ECIC) e da substituição progressiva das bolsas por
contratos de trabalho.
A realidade descrita evidencia um conjunto de fragilidades estruturais para o exercício
da investigação científica como a ausência de direitos laborais plenos, inexistência de
proteção social adequada e dificuldades na previsibilidade das carreiras. Muitos destes
profissionais desempenham funções permanentes e essenciais ao funcionamento das
instituições científicas, sem o correspondente enquadramento jurídico-laboral.
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Esta situação tem impactos diretos na capacidade de retenção de talento qualificado,
contribuindo para fenómenos de abandono da carreira científica e de emigração de
quadros altamente especializados contribuindo, por isso, para uma perda crítica de
capital humano num setor de particular exigência e rigor. Ao mesmo tempo, levanta
questões relevantes sobre a eficiência do investimento público na ciência, quando este
não se traduz em estabilidade e valorização dos recursos humanos.
Neste contexto, importa reconhecer que a sustentabilidade do sistema científico
nacional depende, em larga medida, da existência de carreiras estruturadas, previsíveis
e valorizadas, compatíveis com o nível de exigência e responsabilidade inerente à
atividade de investigação.
A resposta a este desafio deve ser equilibrada, assegurando simultaneamente a
estabilidade contratual, a valorização do mérito e a racionalidade na gestão dos recursos
públicos, evitando soluções conjunturais que não resolvam os problemas de fundo do
setor.
Assim, nos termos constitucionais e regimentalmente aplicáveis, os deputados do Grupo
Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1 – Proceda à definição de um plano plurianual de reforço da estabilidade contratual na
investigação científica, com metas claras de integração progressiva de investigadores
com vínculos sucessivos e funções permanentes.
2 – Estabeleça critérios transparentes e objetivos para o ingresso, progressão e avaliação
nas carreiras de investigação, assegurando a valorização do mérito, da produtividade
científica e da relevância social da investigação desenvolvida.
3 – Proceda à harmonização dos regimes jurídicos das carreiras de investigação
científica, eliminando assimetrias injustificadas entre investigadores em diferentes
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entidades públicas, designadamente entre universidades, laboratórios do Estado e
organismos financiadores.
4 – Reforce a articulação entre instituições de ensino superior, laboratórios do Estado e
tecido económico, promovendo a transferência de conhecimento e a aplicação prática
da investigação em benefício da economia nacional.
5 – Assegure uma g estão eficiente e estratégica do financiamento público à ciência,
orientada para a estabilidade das equipas, a continuidade de projetos relevantes e a
maximização do retorno económico e social do investimento público.
Palácio de São Bento,5 Maio de 2026
Os deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
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