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Projeto de Resolução n.º 557/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que crie um Plano Nacional de Apoio à Saída de Mulheres da
Prostituição
Exposição de motivos
A prostituição em Portugal permanece, para inúmeras pessoas, uma realidade marcada
por vulnerabilidade, instabilidade e ausência de alternativas de uma vida condigna.
A maioria das pessoas em situação de prostituição continuam, esmagadoramente, a ser
mulheres1, que permanecem no mundo da prostituição não por escolha, mas por falta
de alternativas económicas, ausência de redes de apoio sociais, histórico de violência ou
coação, precariedade habitacional, dependências emocionais ou financeiras e contextos
sociais que as encaram com desconfiança e preconceito. Em muitos casos, a prostituição
aparece como resultado de desigualdades cumulativas, carências económicas, tráfico
humano, violência e abandono social, e não como um percurso livre e esclarecido2.
Portugal está vinculado a diversos instrumentos internacionais de direitos humanos,
nomeadamente a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra as Mulheres (CEDAW) e a Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e
o Combate à Viol ência contra as Mulheres e a Violência Doméstica (Convenção de
Istambul), que exigem a adoção de políticas integradas de prevenção e combate à
violência e exploração de mulheres, incluindo medidas de apoio, proteção e reintegração
social e económica das vítimas. Mas, na realidade portuguesa, múltiplos testemunhos de
mulheres em situação de prostituição revelam trajetórias marcadas por pobreza,
violência na infância e na vida adulta, ausência de alternativas de emprego digno e
1 Mais concretamente, cerca de 87 % a nível europeu, de acordo com o estudo “ A mapping of the
prostitution scene in 25 European countries”, disponível em https://tampep.eu/wp-
content/uploads/2017/11/TAMPEP-2009-European-Mapping-Report.pdf
2 Vide https://plataformamulheres.org.pt/projectos/exit/
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independência económica, proble mas de saúde física e mental 3, toxicodependência e
dificuldades acrescidas no acesso à habitação e à proteção social4.
Para colmatar estes fatores de risco, existem atualmente projetos, pontuais e
territorialmente limitados, frequentemente promovidos por o rganizações da sociedade
civil e cofinanciados pelo Estado, que atuam junto de pessoas em situação de
prostituição. Entre estes contam -se, por exemplo, o projeto EXIT, da Plataforma
Portuguesa para os Direitos das Mulheres e o Projeto Red Light, da Associação Positivo,
com enfoque em pessoas em situação de prostituição na área de Lisboa. A este propósito,
um estudo académico recente de serviços dirigidos a pessoas em situação de prostituição
em Portugal identificou 23 instituições que prestam algum tipo de resposta aos
problemas enfrentados por aqueles que tentam sair da prostituição – mas o estudo
evidenciou também a sua dispersão territorial, a fragilidade, a dependência de
financiamento de curto prazo e a ausência de uma estratégia nacional coerente de apoio
e programas de saída5.
A inexistência de um Plano Nacional único dificulta o acesso a apoios por parte de quem
quer sair da prostituição: a qualidade e a continuidade do apoio disponível dependem
do distrito onde a mulher se encontre, da existência ou não de uma organização ativa
naquele território, da estabilidade financeira dessa organização e da capacidade local de
articular serviços de saúde, habitação, formação ou emprego.
A criação de um Plano Nacional dedicado a apoiar a saída da prostituição re presenta,
assim, uma resposta necessária à luz da informação já existente e das necessidades
identificadas6. Trata-se de assegurar que as mulheres que pretendem abandonar esta
3 Estudo sobre ideação suicida, disponível em https://repositorio-
aberto.up.pt/bitstream/10216/26870/3/Tese%20Mestrado%20Alexandre%20Teixeira.pdf
4 Vide https://plataformamulheres.org.pt/prostituicao-o-embriao-de-uma-politica-publica-de-
programas-de-saida/
5 Vide “Serviços dirigidos a trabalhadores(as) do sexo em Portugal: ideologias e práticas”,
disponível em https://www.scielosp.org/article/physis/2015.v25n2/547-570/
6 A este propósito, veja-se a inclusão, no Orçamento de Estado de 2021, da Proposta de Lei n.º
61/XIV/2.ª, disponível em https://plataformamulheres.org.pt/site/wp-
content/ficheiros/2021/04/415-C-1Subst.pdf, e que tinha por objetivo a criação de um projeto
piloto de estudo e de ajuda à saída da prostituição. Todavia, quase seis anos volvidos, permanece
por implementar uma política pública nacional e concertada que concretize este objetivo, apesar
das propostas do partido Chega no âmbito dos Orçamentos de Estado 2024 e 2025.
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realidade possam fazê -lo com segurança e acesso a acompanhamento psicossocial
continuado, condições habitacionais dignas, apoio económico transitório, formação
profissional, apoio jurídico e de saúde, e meios que lhes permitam alcançar a autonomia
social e económica.
Embora o Plano Nacional deva almejar ser universalmente acessível , centrando -se no
apoio a todas as pessoas que se encontrem em situação de prostituição, justifica -se que
tenha foco prioritário nas mulheres, dado que a prostituição constitui, em Portugal e na
Europa, um fenómeno profundamente feminizado, marcado por des igualdades
estruturais entre homens e mulheres, vulnerabilidades económicas e sociais específicas
das mulheres e padrões de violência e exploração que recaem desproporcionalmente
sobre elas. A universalidade do acesso não impede, mas exige, a existência de medidas
diferenciadas que respondam de forma eficaz às necessidades específicas destas
pessoas.
Desta forma, impõe-se que o Estado assuma a responsabilidade de garantir esse apoio,
não apenas de modo pontual, mas mediante a criação de um Plano Nacional, c om
dotação orçamental própria, articulação institucional e mecanismos claros de
monitorização.
Assim, nos termos constitucionais e regimentalmente aplicáveis, os Deputados do Grupo
Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
– Designe a entidade respo nsável pela coordenação, monitorização e avaliação das
políticas e respostas destinadas a pessoas em situação de prostituição, em particular as
mulheres, garantindo articulação entre ministérios, autarquias, serviços públicos e
organizações da sociedade ci vil, assim como responsável por implementar o Plano
Nacional de Apoio à Saída da Prostituição, assegurando cobertura nacional, continuidade
temporal e financiamento próprio;
– Garanta que o Plano Nacional inclua respostas de apoio social, psicológico, jurí dico,
habitacional, de saúde física e mental, de formação, qualificação e inserção profissional,
com equipas multidisciplinares concebidas especificamente para apoiar mulheres que
pretendem abandonar a prostituição, garantindo -lhes condições de segurança e
autonomia financeira e habitacional, bem como medidas especializadas dirigidas a
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vítimas de violência sexual, coação sexual ou outras formas de exploração associadas à
prostituição;
– Promova a produção e recolha sistemática de dados, investigações, diagn ósticos
periódicos e estudos sobre prostituição e vulnerabilidades associadas, assegurando a
criação de uma base empírica sólida para a conceção, revisão e aperfeiçoamento do
Plano Nacional;
– Diligencie a execução de ações de formação e sensibilização destinadas a profissionais
de saúde, serviços sociais, forças de segurança e justiça, garantindo que os profissionais
estão capacitados para uma abordagem informada e isenta, aquando do contacto com
as pessoas em situação de prostituição.
Palácio de São Bento, 9 de Fevereiro de 2026.
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
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