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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução Nº 287/XVII/1ª
Recomenda ao Governo que rejeite a proposta de Regulamento da
Comissão Europeia (COM/2022/209), conhecido por “Chat Control”
Exposição de motivos
A Comissão Europeia, no dia 11 de mario de 2025, apresentou uma proposta de
Regulamento que apresenta como base o combate ao abuso sexual de crianças, mas vai
muito além do mote com o qual foi apresentado.
O que a proposta de Regulamento pretende implementar consiste na criação de um
algoritmo de análise, desenvolvido pelas empresas detentoras das aplicações, que
examinaria todo o conteúdo partilhado: mensagens, fotografias e vídeos,
independentemente de estarem encriptados ou não. Caso o sistema, através de
inteligência artificial e reconhecimento de padrões, classifique o conteúdo como ilegal é
automaticamente enviado um relatório a um novo serviço europeu que o encaminharia
para as autoridades de justiça competentes para a investigação.
A aplicação deste sistema exigiria alterações profundas nos mecanismos atuais de
encriptação. Para que os conteúdos pudessem ser analisados, seria necessário fazê-lo
antes de serem encriptados, comprometendo a segurança ponto a ponto e criando
vulnerabilidades suscetíveis de exploração por terceiros. A própria perceção destes riscos
por parte das autoridades torna-se evidente quando se constata que os funcionários
estatais estariam isentos desta vigilância, uma medida aplicável apenas aos cidadãos
comuns.
Esta proposta põe em causa direitos fundamentais como o direito à privacidade, à reserva
da vida privada e à liberdade de expressão e entra em contradição com o disposto em
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várias normas constantes de legislação europeia, como o disposto no artigo 8.º da
Convenção Europeia dos Direitos Humanos, o artigo 12.º da Carta dos Direitos
Fundamentais e ainda o Regulamento Geral de Proteção de Dados.
Os alertas já foram dados repetidamente por várias entidades. Pela terceira vez desde
2023, cerca de 400 investigadores de vários centros de investigação na Europa dirigiram
uma carta aberta à Comissão Europeia e ao Parlamento Europeu alertando para as graves
consequências que o “Chat Control” representa a segurança e direitos fundamentais.
Também a Comissão do Parlamento Europeu – Liberdade Cívicas, Justiça e Assuntos
Internos – que se debruçou sobre esta matéria colocou em causa esta proposta e concluiu
que quaisquer medidas têm de ser determinadas por um tribunal e apenas relativas a
pessoas sobre as quais incida uma suspeita da prática destes crimes.
Em Portugal, a Associação D3 (Defesa dos Direitos Digitais) já questionou o Governo sobre
a constitucionalidade desta proposta, recordando que "a ordem jurídica constitucional
portuguesa garante a inviolabilidade das comunicações privadas dos cidadãos, proibindo
expressamente toda a ingerência das autoridades públicas”, nos termos do artigo 34.º da
Constituição da República Portuguesa.
Também a ANSOL (Associação Nacional para o Software Livre) critica o regulamento: "O
Child Sexual Abuse Regulation (CSAR) tem um objetivo inequivocamente crítico e
importante, no entanto a iniciativa Chat Control é inequivocamente a opção errada para
atingir este objetivo. A iniciativa traduz-se numa mutilação dos direitos fundamentais à
privacidade, o que além de comprometer gravemente a segurança e a privacidade de toda
a sociedade, demonstra uma fraca resposta ao problema que pretende resolver.".
O Bloco de Esquerda rejeita liminarmente este Regulamento – e tem manifestado essa
posição também no Parlamento Europeu -, porque pretende substituir o Estado de Direito
por um sistema de vigilância automatizada que inverte a lógica da presunção de inocência
e coloca em causa o exercício de direitos fundamentais ao impor limitações totalmente
desproporcionais.
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O combate a conteúdos ilegais nas redes sociais deve ser feito através dos meios judiciais
já existentes, com supervisão adequada e com base em suspeitas fundamentadas.
alternativas concretas que protejam as crianças sem pôr em causa os direitos
fundamentais.
Este combate passa pelo investimento em meios e formação especializada, a plena
aplicação da Diretiva 2011/93/EU que já obriga os Estados-Membros a combater o abuso
sexual infantil, e o investimento em educação e consciencialização para a segurança
digital. Importa enfrentar as causas estruturais como a pobreza e fortalecer as linhas de
apoio e proteção às vítimas, construindo assim uma resposta sólida ao problema, sem
recorrer à vigilância indiscriminada da população.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Deputada do
Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo que:
Rejeite, através da Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, a
proposta de Regulamento da Comissão Europeia (COM/2022/209) – “Chat Control” -, na
medida em que coloca em causa direitos fundamentais, como o direito à privacidade, à
reserva da vida privada e à liberdade de expressão, e entra em contradição com o disposto
em várias normas constantes de legislação europeia, como o disposto no artigo 8.º da
Convenção Europeia dos Direitos Humanos, o artigo 12.º da Carta dos Direitos
Fundamentais e ainda o Regulamento Geral de Proteção de Dados.
Assembleia da República, 12 de setembro de 2025
A Deputada do Bloco de Esquerda,
Mariana Mortágua
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