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PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 883/XVII/1ª
Recomenda, no âmbito do próximo Quadro Financeiro
Plurianual 2028-2034, a manutenção e o reforço das dotações da
Política de Coesão e da Política Agrícola Comum, bem como a
salvaguarda de um tratamento específico e reforçado para as
regiões ultraperiféricas dos Açores e da Madeira
EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS
O próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP) 2028 -2034 constitui
uma das decisões políticas mais relevantes para o futuro da União
Europeia na próxima década.
Num contexto marcado pela guerra na Ucrânia, pela intensificação
da concorrência geopolítica, pelas transições digital e climática e pela
necessidade de reforçar a autonomia estratégica europeia, o
orçamento da União não pode limitar -se a um exercício de
redistribuição, devendo afirmar-se como um verdadeiro instrumento
de crescimento, competitividade e coesão.
A proposta apresentada pela Comissão Europeia introduz alterações
relevantes, nomeadamente ao nível da flexibilidade, da simplificação
e da criação de planos nacionais inspirados no modelo do
NextGenerationEU (que em Portugal tem a sua materialização no
PRR – Plano de Recuperação e Resiliência). Contudo, subsistem
riscos significativos que não podem ser ignorados, designadamente
a potencial diluição das políticas estruturais e a tendência para a
renacionalização de instrumentos que devem manter uma forte
dimensão europeia.
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Para o Partido Social
Democrata, a modernização do
orçamento europeu é
necessária, mas não pode ser feita à custa das políticas que
garantem a convergência entre Estados -Membros. A Política de
Coesão e a Política Agrícola Comum são pilares estruturantes da
União Europeia e devem manter financiam ento próprio, estável,
previsível e adequado.
Qualquer redução destas políticas comprometeria não apenas a
coesão económica, social e territorial, mas também a competitividade
global da União Europeia, na medida em que esta depende de um
desenvolvimento equilibrado entre regiões e setores.
Para Portugal, país de coesão, o QFP continua a ser determinante
para o investimento público, para o desenvolvimento regional e para
a convergência real com os parceiros europeus. Um quadro
financeiro que fragilize a po lítica de coesão ou a política agrícola
comum não serve os interesses nacionais.
Simultaneamente, o reforço da competitividade europeia deve
assentar numa estratégia clara de apoio à inovação, à
reindustrialização, à transição energética sustentável e à r edução
dos encargos administrativos sobre as empresas, em particular as
pequenas e médias empresas. A competitividade e a coesão não são
objetivos contraditórios — são dimensões complementares de uma
mesma estratégia de crescimento sustentável.
O PSD rejeita, por isso, abordagens que promovam a fragmentação
do mercado único ou a substituição das políticas estruturais por
modelos assentes em planos nacionais de natureza casuística, que
fragilizam a previsibilidade, a transparência e o valor acrescentado
europeu das políticas comuns.
Importa igualmente assegurar, nos termos do artigo 349.º do Tratado
sobre o Funcionamento da União Europeia, um tratamento específico
e reforçado para as regiões ultraperiféricas. As especificidades dos
Açores e da Madeira — marcadas pela insularidade, ultraperiferia e
vulnerabilidades estruturais — justificam a manutenção de um regime
diferenciado, essencial para garantir a coesão territorial e o
desenvolvimento sustentável destas regiões.
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Acresce que estas regiões
desempenham um papel
estratégico relevante para a União Europeia, designadamente nas
áreas da economia do mar, da biodiversidade e da presença
geopolítica em diferentes espaços do globo.
O próximo QFP deve, assim, afirmar -se como um verdadeiro
instrumento de investimento europeu, orientado para o crescimento,
a convergência e a competitividade, assegurando simultaneamente
a simplificação dos instrumentos, a estabilidade das regras e o
reforço da capacidade de execução por parte dos Estados-Membros.
Num co ntexto de maiores exigências financeiras, incluindo o
reembolso do NextGenerationEU, torna -se ainda mais importante
garantir um orçamento europeu suficientemente ambicioso, que
esteja à altura dos desafios estratégicos que a União enfrenta.
Este é, por is so, um momento decisivo para o futuro da União
Europeia — não apenas quanto à dimensão do orçamento, mas
sobretudo quanto às escolhas políticas que o estruturam e ao modelo
de integração que se pretende prosseguir.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais
aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata
propõe à Assembleia da República que recomende ao Governo
que:
1 — Continue a defender, no âmbito das negociações do Quadro
Financeiro Plurianual 2028-2034, a manutenção e o reforço real dos
níveis de financiamento da Política de Coesão e da Política Agrícola
Comum, rejeitando quaisquer reduções, nominais ou reais, que
comprometam os seus objetivos estruturais;
2 — Garanta que o reforço da competitividade europeia se articula
de forma complementar com a Política de Coesão e a Política
Agrícola Comum, assegurando que a reorientação para novas
prioridades não é feita à custa da convergência económica, social e
territorial;
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3 — Continue a defender a
manutenção de um regime
específico e reforçado para as regiões ultraperiféricas, em
conformidade com o artigo 349.º do Tratado sobre o Funcionamento
da União Europeia, promovendo simultaneamente o reconhecimento
do seu contributo estratégico para a União Europeia;
4 — Rejeite soluções que conduzam à renacionalização das políticas
europeias ou à substituição dos instrumentos estruturais por modelos
assentes predominantemente em planos nacionais, salvaguardando
o método comunitário e a coerência da ação europeia;
5 — Reforce de forma determinada a capacidade administrativa
nacional para a gestão dos fundos europeus, assegurando a
simplificação dos procedimentos, a estabilidad e dos modelos de
governação e a qualificação dos recursos humanos, de modo a
maximizar a execução e o impacto dos investimentos.
Palácio de S. Bento, 27 de abril de 2026
As/Os Deputadas/os,
Hugo Soares
Dulcineia Moura
Regina Bastos
Ricardo Carvalho
Francisco Figueira
Paulo Moniz
Ricardo Carlos
Adriana Rodrigues
Andreia Neto
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