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Projeto de Resolução n.º 641/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo promover a recuperação e utilização dos imóveis devolutos do
Estado como resposta estruturante à crise habitacional
Exposição de Motivos
Portugal enfrenta uma crise habitacional profunda e persistente, que se manifesta na
dificuldade crescente de acesso à habitação por parte das famílias portuguesas, no aumento
generalizado dos preços de venda e arrendamento e na incapacidade do Estado em assegurar
respostas eficazes, justas e estruturalment e sustentáveis. Esta realidade afeta de forma
particularmente severa os jovens, as famílias de rendimentos médios e baixos e aqueles que,
apesar de trabalharem, veem a habitação afastar-se progressivamente do seu alcance.
Paralelamente, têm sido divulgados estudos de âmbito nacional e internacional que colocam
Portugal entre os países europeus onde o imobiliário se encontra mais sobrevalorizado, com
preços claramente dissociados dos rendimentos médios das famílias e da realidade económica
do país. Esta sobr evalorização não resulta apenas de dinâmicas de mercado, mas também da
escassez artificial de oferta, da pressão especulativa e da ausência de uma política pública eficaz
que coloque o interesse nacional e social acima da inércia administrativa.
Neste contexto, torna-se particularmente grave constatar que o Estado português é proprietário
de milhares de imóveis devolutos, abandonados, subutilizados ou em avançado estado de
degradação, dispersos por todo o território nacional. Estes edifícios, muitos deles localizados em
zonas urbanas consolidadas ou com potencial habitacional relevante, representam um
desperdício de recursos públicos e um símbolo da incapacidade do Estado em gerir o seu próprio
património de forma responsável.
A manutenção prolongada destes imóveis devolutos não apenas contribui para a degradação
urbana e para a insegurança, como constitui uma afronta direta às famílias portuguesas que
enfrentam dificuldades reais para encontrar habitação digna a preços comportáveis. Num país
onde o esforço f iscal sobre os cidadãos é elevado, não é aceitável que o património público
permaneça improdutivo, enquanto o Estado recorre sistematicamente a soluções avulsas,
dispendiosas e pouco eficazes.
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A recuperação e utilização dos imóveis devolutos do Estado deve , por isso, assumir -se como
uma prioridade estratégica, orientada para a colocação desse património ao serviço dos
portugueses, sem alimentar distorções de mercado, dependências permanentes ou modelos
assistencialistas. Trata-se de uma resposta que conjugaresponsabilidade financeira, valorização
do património público e defesa do interesse nacional, em linha com uma visão que exige um
Estado eficiente, rigoroso e focado nas suas funções essenciais.
Aliás, recuperar o património devoluto do Estado não é apen as uma opção política sensata, é
uma exigência moral e económica, que permite aumentar a oferta habitacional, reduzir a
pressão sobre os preços, combater a especulação indireta e reafirmar que os recursos públicos
devem servir, em primeiro lugar, os cidadãos portugueses.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os deputados do grupo
parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
1. Proceda a um levantamento rigoroso, completo e atualizado de todos os imóveis
devolutos pertencentes ao Estado, identificando o seu estado de conservação,
localização e potencial de reconversão habitacional, com vista à sua recuperação e
colocação efetiva ao serviço da habitação.
2. Implemente um programa nacional de recuperação do património imobiliário devoluto
do Estado, orientado para a captação de investimento, estímulo à iniciativa privada,
viabilização de linhas bancárias e criação de soluções habitacionais acessíveis destinadas
prioritariamente a cidadãos portugueses, garantindo uma gest ão eficiente,
financeiramente responsável e livre de práticas especulativas.
3. Assegure que a utilização dos imóveis públicos recuperados contribua para o aumento
real da oferta habitacional, para a contenção da sobrevalorização do mercado
imobiliário e par a a redução da dependência de soluções temporárias ou onerosas,
afirmando um modelo de política habitacional assente no aproveitamento dos recursos
existentes e no interesse nacional.
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Palácio de São Bento, 27 de fevereiro de 2025
Os deputados do grupo parlamentar do CHEGA
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