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Projecto de Resolução n.º 617/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que defenda junto da Organização das Nações Unidas a imediata
exoneração de Francesca Albanese do cargo de Relatora Especial da ONU para os
Territórios Palestinianos Ocupados
Exposição de Motivos
Nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, os
Relatores Especiais da ONU estão entre os mais importantes cargos da instituição. Pela sua
natureza específica, chamados que são a tratar matéria sensível sobre violaç ões graves de
direitos humanos, o cargo exige absoluta independência, imparcialidade e rigor factual, assim
como um respeito escrupuloso pelos princípios fundadores da ordem internacional plasmada
na Carta da ONU. Entre eles, destacadamente, contam-se a igualdade entre povos, a rejeição
de todas as formas de sectarismo étnico ou nacional e a condenação inequívoca do terrorismo
e da violência sobre populações civis.
É justamente a alta responsabilidade do cargo que impõe o escrutínio exigente dos seus
titulares. A credibilidade da ONU e da sua capacidade em defender os direitos humanos
depende, em primeiro lugar, da confiança que Estados e povos depositam na isenção dos seus
mecanismos. Esmorecendo essa confiança, decai igualmente a eficácia das próprias
instituições internacionais.
É neste sentido que só pode ser motivadora da máxima inquietação a conduta da actual
Relatora Especial para os Territórios Palestinianos Ocupados, Francesca Albanese. Com efeito,
têm produzido preocupação grave entre governos, parl amentos, organizações da sociedade
civil e académicos de diversos países as declarações gravosas, falsas, parciais e mesmo
antissemitas proferidas por Albanese a propósito do conflito israelo -palestiniano.
Compreensivelmente, estas declarações têm sido cri ticadas por conterem formulações
inaceitáveis, recorrerem a analogias históricas profundamente ofensivas e por revelarem uma
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insensibilidade total quanto ao sofrimento imposto ao povo de Israel pelo ataque terrorista
de 7 de Outubro de 2023, o maior massacre de judeus desde o Holocausto.
Foi, de facto, excepcionalmente grave a reacção da Relatora Albanese aos terríveis
acontecimentos de 7 de Outubro de 2023. Perpetrada pela organização terrorista “Hamas”
contra o Estado de Israel, a ofensiva provocou a mort e de centenas de civis, incluindo
mulheres, crianças e idosos, assim como o rapto de centenas de reféns. Em diversas
intervenções públicas, a Relatora relativizou e justificou aquele ataque premeditado,
unilateral e selvagem. Antes da ofensiva do Hamas, Albanese tinha-se dirigido ao grupo para
dizer que “Vocês têm o direito de resistir”.1
Há ainda a referir, a este respeito, comentários em que a Relatora reproduziu estereótipos
racistas sobre o povo judeu, bem como afirmações que relativizaram ou minimizar am actos
terroristas perpetrados contra civis israelitas. Nisto se incluem declarações tão chocantes
como “A América encontra-se subjugada pelo lóbi judaico”, “O lóbi judaico está-vos nas veias”
— acusação que fez à estação de televisão britânica BBC —, comparações entre o Estado de
Israel e o “Terceiro Reich” e entre os acontecimentos em Gaza e o Holocausto, a negação do
carácter generalizado da violência sexual exercida pelo Hamas contra mulheres e raparigas
israelitas no 7 de Outubro e outros comentários gravíssimos e inteiramente incompatíveis
com a importante função que se desempenha.
Em 7 de Fevereiro de 2026, Albanese foi ainda mais longe ao dizer em discurso, referindo -se
a Israel, que “nós, enquanto Humanidade, temos um inimigo comum”. 2 Estas posiç ões
causaram escândalo e foram alvo de condenação pública por representantes eleitos de
diferentes países, por organizações judaicas internacionais e, naturalmente, por diversos
especialistas em direitos humanos preocupados com o descrédito em que Albanese está a
deixar cair a ONU.
Pois bem, o terrorismo contra civis é sempre inaceitável. Nada pode justificá-lo, contextualizá-
lo ou legitimá-lo. Se a bússola moral da Relatora Albanese lhe falha nesta matéria, claro fica
que Albanese não pode manter-se como Relatora Especial da ONU.
1 https://unwatch.org/u-n-bans-reading-out-francesca-albaneses-own-words/
2 https://x.com/HillelNeuer/status/2020454512356376911
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Pela sensibilidade do tema que aborda, a posição de Relatora Especial para os Territórios
Palestinianos Ocupados exige especial prudência, moderação e capacidade de resistência à
tentação do sectarismo. O conflito israelopalestiniano é um dos mais complexos e dolorosos
do nosso tempo. Precisamente por isso, o Relator deve actuar com equilíbrio e sobriedade
modelares, evitando declarações que possam inflamar tensões ou reforçar preconceitos. Não
é, visivelmente, o que hoje acontece.
O recurso a linguagem discriminatória e a relativização de actos terroristas pelos titulares de
tão importantes cargos internacionais origina consequências que vão bem além da perda de
prestígio pelos próprios ou pelas organizações que servem. As comuni dades judaicas, em
particular as residentes na Europa, enfrentam desde há anos um forte e assustador
recrudescimento de incidentes antisemitas. Qualquer sinal ambíguo sobre o antisemitismo
contribui e agrava um clima internacional já de si preocupante.
País de forte tradição humanista, firme compromisso com os direitos humanos e amizade
histórica com o Estado de Israel, Portugal não pode permanecer indiferente neste tema.
Como outras nações europeias e ocidentais que incluem já os Estados Unidos da América, a
França, a Alemanha, a Itália, a Áustria e a República Checa, também Lisboa deve exibir
rigorosa firmeza e exigir o afastamento de Albanese.
Assim, diante dos motivos expostos e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais
aplicáveis, recomendam os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA ao Governo que:
1. Defenda junto da Organização das Nações Unidas a imediata exoneração de Francesca
Albanese do cargo de Relatora Especial para os Territórios Palestinianos Ocupados em
função de declarações antissemitas reiteradas, parciais e, pois, inaceitáveis no
exercício da sua alta função.
2. Alerte para o tema os parceiros diplomáticos de Portugal, mormente na esfera da
Organização do Tratado do Atlântico Norte, da União Europeia e da Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa, contribuindo para que mais países defendam o
abandono do cargo de Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinianos
Ocupados por Francesca Albanese.
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3. Continue a afirmar, em todos os fóruns multilaterais em que Portugal parti cipa, a
condenação inequívoca do terrorismo e de todas as formas de antisemitismo.
Palácio de São Bento, 19 de Fevereiro de 2026.
Os Deputados do Grupo Parlamentar do Partido CHEGA,
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