Documento integral
Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/ PAGE1
0
Representação Parlamentar
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 6/XVII/1.ª
RECOMENDA AO GOVERNO QUE RECONHEÇA O ESTADO DA
PALESTINA
Desde 1948 que o despojamento do povo palestiniano das suas terras e dos seus recursos
por parte do Estado de Israel devasta aquela região do Médio Oriente com uma sucessão
de guerras de ocupação e de controlo de território que fizeram centenas de milhares de
pessoas refugiadas e causaram a morte a milhares de civis, mantendo o mundo num
constante estado de tensão.
Tal operação foi possibilitada através da expropriação de mais de 40% das terras
disponíveis, do controlo das forças militares israelitas de uma vasta extensão do
território, do bloqueio de estradas, do controlo do acesso a água e eletricidade, da
construção de cercas de arame com quilómetros de extensão que impedem as cidadãs e
os cidadãos palestinianos de se movimentarem livremente dentro do território, e de
persistentes violações dos direitos humanos assentes num regime de apartheid e de
detenção arbitrária de homens, mulheres e crianças palestinianas.
A partir de outubro de 2023, Israel intensificou a sua ofensiva em Gaza (e também na
Cisjordânia). Há mais de um ano que bombardeia, destrói e assassina, por ar e por terra,
em completa desproporção de forças e contra uma população civil incapaz de se defender.
A destruição é total: o edificado habitacional foi arrasado, estruturas elétricas e de
abastecimento de água foram destruídas, equipamentos sociais e humanitários, desde
escolas e hospitais a campos de refugiados, têm sido sistematicamente alvo de ataque e
de verdadeiros assassinatos em massa por parte do exército israelita.
Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/ PAGE1
0
Durante a última ofensiva israelita foram já mortos mais de 50 mil palestinianos, muitos
deles crianças, tanto que a UNICEF já apelidou Gaza de ‘cemitério de crianças’. As forças
israelitas têm ainda atacado, de forma sistemática, trabalhadores humanitários e
jornalistas, matando mais de 280 funcionários da ONU e mais de 230 jornalistas.
Os palestinianos que não morreram sob as bombas ou a tiro do exército israelitas são
deixados a morrer pela doença, pela fome ou pela sede. A absoluta destruição das mais
básicas infraestruturas e das respostas de saúde fizeram aparecer surtos de várias
doenças, isto enquanto Israel tenta impedir, com os mais variados expedientes, a entrada
de ajuda humanitária em Gaza, isto é, de bens tão essenciais como água, alimentação e
medicamentos.
Mais de um ano depois de Israel ter decidido avançar para a destruição total de Gaza, 90%
da população da Faixa de Gaza (ou seja, 1,9 milhões de pessoas) está deslocada, a maior
parte a viver em campos de refugiados que são também sistematicamente bombardeados.
Os edifícios escolares sofreram mais de 400 ataques, levando à destruição de
praticamente toda a rede escolar, profissionais de saúde, hospitais e demais
infraestruturas de saúde sofreram mais de 500, e 96% da população do enclave está em
situação de insegurança alimentar ou maltrunição.
Os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade e o crime de genocídio são evidentes,
mas a Palestina continua desamparada do ponto de vista internacional. Mesmo com os
crimes de guerra a serem transmitidos diariamente pelas televisões de todo o mundo,
Israel não para o genocídio em curso e muitos países continuam, de forma mais ou menos
declarada, do lado do país agressor e contra o povo agredido.
Reconhecer o Estado da Palestina e a autodeterminação deste povo é um passo
importantíssimo para parar a invasão em curso e para pôr fim à agressão, violência e
despojamento que duram desde 1948.
A solução de dois Estados foi adotada pelas Nações Unidas desde a Resolução 181 da sua
Assembleia Geral, em 1947. O Conselho de Segurança reafirmou, repetidas vezes, o
primado dos princípios da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional
relativamente à questão da Palestina nas resoluções 242 (1967), 338 (1973), 1397
(2002), 1515 (2003) e 1850 (2008). O inalienável direito à autodeterminação e
Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/ PAGE1
0
independência do povo palestiniano tem sido repetidamente afirmado pela Assembleia
Geral que, desde 1994, aprova anualmente uma Resolução reiterando o direito do povo
palestiniano à autodeterminação.
À data, 145 dos 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e dois
Estados não-membros reconhecem o Estado da Palestina, que tem também o estatuto de
Estado Observador da Assembleia Geral da ONU desde a aprovação da Resolução 67/19,
de novembro de 2012. Com esta decisão, que mereceu um inequívoco apoio maioritário,
o povo palestiniano deu mais um importante passo para a concretização da sua legítima
aspiração à autodeterminação e independência. Contudo, o não-reconhecimento do
direito à autodeterminação e à viabilidade do estatuto independente da Palestina por
parte de dezenas de países, entre os quais Portugal, tem constituído um fator de
impedimento à construção de uma solução pacífica duradoura para a região.
No que a Portugal diz especificamente respeito, a posição de não-reconhecimento da
Palestina enquanto Estado independente tem dado cobertura a uma permanente
conivência para com as violações do Direito Internacional sucessivamente perpetradas
contra o povo palestiniano, em violação do artigo 7.º da Constituição da República
Portuguesa.
Tal como o Bloco de Esquerda alertou na altura, a aprovação, em dezembro de 2014, do
Projeto de Resolução n.º 1173/XII/4.ª, da autoria dos Grupos Parlamentares do PS, PSD e
CDS, recomendando ao Governo de então que reconhecesse o Estado da Palestina em
coordenação com a União Europeia de nada serviu para materializar este
reconhecimento, sobretudo pelos condicionalismos que essa iniciativa parlamentar
impunha, nomeadamente fazer depender o reconhecimento do Estado da Palestina de
terceiros e, desse modo, assumir que Portugal não deveria exercer a sua própria
soberania sem o aval de outros Estados e organizações.
A pertença a organizações como a União Europeia não deve constituir um entrave, mas
sim um incentivo, a que Portugal assuma por inteiro a defesa do direito à constituição do
povo palestiniano como um Estado.
Este reconhecimento terá, no entanto, de incluir a resolução justa de questões
fundamentais como a da libertação de prisioneiros, do tratamento adequado de
Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/ PAGE1
0
refugiados, do desmantelamento e interrupção imediata da construção de mais colonatos,
e ainda da garantia do levantamento dos bloqueios e restrições de circulação de modo a
assegurar a viabilidade económica da Palestina, condição esta verdadeiramente essencial
para garantir a convivência pacífica e da segurança dos dois Estados. De resto, e tal como
foi supracitado, estas condições mais não são do que a materialização das normas de
Direito Internacional aplicáveis e do respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Deputada do
Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo que
reconheça imediatamente o Estado da Palestina com as fronteiras anteriores à Guerra dos
Seis Dias de 1967.
Assembleia da República, 3 de junho de 2025.
A Deputada do Bloco de Esquerda
Mariana Mortágua
Abrir texto oficial