Documento integral
PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS
Grupo Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 487/XVII/1.ª
Pela reintegração da Linha do Tua na Rede Ferroviária Nacional
Exposição de motivos
O Plano de Mobilidade do Vale do Tua (PMVT), de 2009, que prevê medidas de
compensação pela submersão de 20 km da Linha do Tua entre as estações de
Brunheda e Foz Tua, integra a Declaração de Impacte Ambiental do Aproveitamento
Hidroelétrico de Foz Tua, a barragem concluída em 2017.
Passados dezasseis anos do anúncio do PMVT e mais de dezasseis milhões
de euros depois, as populações dos cinco concelhos do Vale do Tua, Alijó, Carrazeda
de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor, continuam sem nada ver concretizado
daquele plano de mobilidade.
Na mística da liberalização nos transportes, no setor ferroviário com o
desmembramento da CP, pública, os governos de serviço de PS e PSD
engendraram, primeiro a concessão da operação da Linha do Tua à autarquia de
Mirandela e depois a intenção de a entregar à Mystic Tua S.A.. Mais uma espécie de
Fertagus, com operação privada em infraestrutura e material circulante públicos,
neste caso integrada numa apregoada componente turística.
Neste contexto, a responsabilidade pelo desenvolvimento e implementação
do PMVT coube formalmente à Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do
Tua (ADRVT). Criada em 2011, a ADRVT integra aqueles cinco municípios e a
Movhera, que substituiu a EDP desde a venda em 2020 do lote de seis barragens
que incluía a Barragem de Foz Tua.
A ADRVT tinha estabelecido, em 2015, protocolo de entendimento com a
empresa de título sonante e imaginativo ‘Autocarros, Barcos, Aeronaves e Comboios
Turísticos do Vale do Tua, SA’ depois designada por Mystic Tua S.A. que veio a
‘ganhar’ a concessão como único concorrente em 2016. Também na mística da
concorrência uma espécie de Fertagus.
Mas se no caso do material circulante público operado em regime privado pela
Fertagus, a sua aquisição foi efetuada segundo requisitos técnicos definidos pelos
experientes profissionais da pública CP, já para a operação privada na Linha do Tua,
o Comboio Turístico, por muitos designado por comboio do Texas, foi adquirido, com
verbas públicas do PMVT, pelo empreendedor da Mystic Tua S.A., ao que tudo indica
um versátil especialista ferroviário.
E assim, no processo de homologação para operação na Linha da Tua foi
verificado que o Comboio Turístico não tinha aderência para circulação em linhas de
caminho-de-ferro pesado, sendo dotado de algo mais do que uma tecnologia de
brinquedo, com rodados demasiado pequenos, sem condições de se adaptar à
operação naquela linha. Nas oficinas de Guifões, técnicos da CP referiam-se ao
Comboio Turístico como “aberração” para os objetivos de operação pretendidos.
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A duração do inconsequente processo de homologação deste comboio terá,
aparentemente, sido motivo de desinteresse da Mystic Tua S.A. na operação
turística, e também local, na Linha do Tua.
Certo é que milhões de euros públicos jazem espalhados por ali. O comboio do
Texas apodrece na Estação de Mirandela, o barco turístico degrada-se na albufeira
da barragem do Tua perto da Estação da Brunheda, e nos 33 km entre estas duas
estações a Linha do Tua jaz ela mesma abandonada e já novamente invadida pela
vegetação e assediada pelo arvoredo envolvente, depois de cerca de 5,6 milhões de
euros gastos na sua reabilitação em 2020.
E quanto ao material circulante adquirido à CP, mas ao que consta não pago,
as duas automotoras LRV 2000 continuam abandonadas e por recuperar desde 2018
quando terminou a operação do Metro de Mirandela. Em 2017 a Estação de
Mirandela tinha registado 48 mil passageiros e, segundo a mesma fonte, na Estação
de Carvalhais o registo de passageiros foi de 46 mil em 2010.
É neste degradante abandono que o liberalismo levou aos cinco concelhos do
Vale do Tua, outra referência à Fertagus para recordar que a operação privada numa
linha claramente solvente no seio da AML, deve ser operada pela CP, pública, bem
como as restantes nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e no longo curso e
alta velocidade entre elas, precisamente para compensar economicamente a sua
operação em linhas relevantes para a coesão territorial, seja para fixar as populações
locais ou para atrair novos residentes.
Assim, face ao exposto e ao abrigo da alínea b) do artigo 156.º da Constituição
e da alínea b) do n.º 1 do artigo 4.º do Regimento, os Deputados do Grupo
Parlamentar do PCP propõem que a Assembleia da República adote a seguinte
resolução:
Resolução
Nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, a Assembleia da República
recomenda ao Governo:
1. Reintegrar a Linha do Tua de Brunheda a Mirandela e a Carvalhais, na Rede
Ferroviária Nacional e a manutenção da sua infraestrutura no âmbito da
Infraestruturas de Portugal;
2. Reverter para a CP e reabilitar as duas automotoras LRV2000 nas suas
oficinas;
3. Reiniciar na Linha do Tua a operação da CP;
4. Entregar à CP as verbas adequadas para esta operação e acionar processo
de tentativa de recuperação de eventuais verbas da ADRVT ainda alocadas
na Mystic Tua S.A.
5. Integrar em todos os estudos e projetos de traçado para a futura linha Porto –
Bragança, que se prevê passar cerca de 10 km a norte de Mirandela, uma
estação de interface e ligação em via métrica até à Linha do Tua em
Carvalhais.
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6. Considerar esta ligação nos estudos de procura da futura linha Porto –
Bragança dada a enorme aproximação a estas duas cidades que
proporcionará aos cinco concelhos do Vale do Tua.
Assembleia da República, 12 de janeiro de 2026
Os Deputados,
PAULA SANTOS; PAULO RAIMUNDO; ALFREDO MAIA
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