Documento integral
Projeto de Resolução n.º 244/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a atribuição de um apoio financeiro para o arranque
de eucaliptos e a limpeza de terrenos
Exposição de motivos:
A floresta de eucalipto ( Eucalyptus spp.) ocupa uma posição de destaque no setor florestal
português e representa a espécie mais abundante em Portugal continental. De acordo com
os dados mais recentes, o eucaliptal cobre cerca de 845 000 ha, o que corresponde a
aproximadamente 26% da área florestal nacional, que tem aumentado consistentemente 1.
Portugal detém a maior área relativa de eucalipto a nível mundial, a maior área absoluta a
nível europeu e a quinta a nível global2.
Introduzido de forma mais intensiva nas décadas de 1970 e 1980, o eucalipto tem sido
valorizado sobretudo pela indústria da pasta e papel, que encontra nesta espécie uma
matéria-prima de rápido crescimento e alta produtividade.
Como é ampla e exaustivamente conhecido e debatido, a expansão do eucalipto tem estado
na origem de preocupações ambientais bastante significativas. Esta espécie é
frequentemente associada ao aumento do risco de incêndios florestais devido à sua elevada
inflamabilidade, ao facto de prosperar no pós-fogo e ao grande volume de biomassa que
acumula, tornando vastas áreas mais vulneráveis durante a época seca 3. Além disso, o
eucalipto, por ser uma espécie invasora, acaba por impactar negativamente a
biodiversidade ao seu redor, dificultando a regeneração de espécies autóctones e alterando
os ecossistemas locais, especialmente quando estabelecidos em regime de monocultura.
Um estudo de 2021, feito por uma equipa de investigadores portugueses, revelou que, após
um incêndio, a dispersão e estabelecimento da espécie de eucalipto mais comum em
Portugal, Eucalyptus globulus, depende fortemente não só do momento do ano em que o
fogo ocorre, como também das práticas de gestão anteriores ao incêndio 4. Em áreas bem
geridas, especialmente com colheitas regulares que reduzem a produção de sementes, o
estabelecimento de novos indivíduos é baixo, mesmo após os fogos. Por outro lado, em
1 6.º Inventário Florestal Nacional (pág. 5) | ICNF
2 O eucalipto tem lugar na floresta portuguesa? | ZERO
3 Post-fire survival and regeneration of Eucalyptus globulus in forest plantations in Portugal (Catry et al., 2013) | Forest
Ecology and Management
4 Management and fire, a critical combination for Eucalyptus globulus dispersal (Anjos et al., 2021) | Forest Ecology and
Management
plantações mal geridas e em árvores isoladas, observa-se um aumento significativo de
rebentos pós-incêndio. O estudo acrescenta que, com as alterações climáticas, a alteração
da frequência e intensidade dos incêndios poderá influenciar o comportamento da dispersão
do eucalipto e termina reforçando a importância da gestão adequada para evitar a sua
propagação nas imediações das plantações.
No rescaldo dos incêndios devastadores de 2017, dois peritos em incêndios florestais
elaboraram um relatório depois de terem realizado trabalho de campo em Portugal para
avaliar a tragédia que atingira o centro do país nesse ano 5. Entre muitas outras
considerações, o documento afirma que Portugal enfrenta uma crescente variabilidade e
agravamento das condições de incêndio devido às alterações climáticas, com verões mais
longos, quentes e secos, que estendem a época crítica de incêndios além do tradicional
período de julho a setembro.
Apesar de o recorde de área ardida em Portugal continuar a ser o do ano de 2017 (mais de
560 000 ha), as perspetivas são desanimadoras porque, a pouco mais de meio de agosto
de 2025, o país conta já com 274 000 ha de área ardida 6. Em 2024, por exemplo, a pior
fase dos incêndios aconteceu em setembro, com cerca de 90% das ocorrências anuais de
incêndios do ano a terem lugar nesse mês7.
Ora, as projeções meteorológicas e climáticas indicam que, nas próximas décadas, Portugal
enfrentará um aumento da frequência, intensidade e duração dos incêndios florestais, devido ao
agravamento das condições de seca, ondas de calor e mudanças nos padrões climáticos 8.
Diante deste contexto, é crucial promover a resiliência e preparar a floresta portuguesa através
da adoção de práticas sustentáveis, com destaque para a plantação de árvores autóctones, que
estão naturalmente adaptadas às condições locais e contribuem para a recuperação ecológica,
a conservação da biodiversidade e a mitigação dos impactos dos incêndios, fortalecendo a
capacidade do território de resistir e recuperar dessas catástrofes.
A questão do eucalipto em Portugal não passou ao lado dos investigadores que elaboraram
o relatório mencionado anteriormente, que tecem várias considerações sobre esta espécie e
a sua notória dispersão no território português. Referem que áreas cada vez mais extensas
de eucalipto em Portugal deixam de ser exploradas devido à baixa qualidade da madeira
para a indústria de pasta, o que resulta numa grande acumulação de biomassa que, quando
não removida e gerida adequadamente, serve como combustível para futuros incêndios
catastróficos9.
Dizem igualmente que o problema do aumento da carga combustível nas florestas portuguesas
é agravado pela falta generalizada de gestão, com cerca de 80% da floresta sem gestão
adequada. Os autores consideram que tal resulta de práticas silvícolas deficientes,
especialmente em eucaliptais e pinhais, que criam áreas extensas de monoculturas densas que,
após o abandono agrícola, permitem a proliferação de incêndios. Apontam também a
5 Portugal Wildfire Management in a New Era - Assessing Fire Risks, Resources and Reforms
6 Incêndios em Portugal. A evolução da resposta do dispositivo ao minuto
7 Incêndios em Portugal: 2024 foi o pior ano em área ardida desde o terrível 2017 | Expresso
8 Europa é o continente a aquecer mais rápido. Incêndios marcam Portugal no mapa | Público
9 Portugal Wildfire Management in a New Era - Assessing Fire Risks, Resources and Reforms (pág. 8)
ausência de incentivos económicos para a remoção em larga escala da biomassa residual e
a replantação com espécies como o carvalho ou o castanheiro.
Embora não se possa atribuir ao eucalipto a responsabilidade exclusiva pela facilidade com
que os incêndios se propagam - afinal o incendiarismo, a negligência no uso do fogo,
grandes extensões de áreas rurais com vegetação acumulada, a estrutura da propriedade, a
floresta gerida de forma insuficiente e as condições meteorológicas extremas tornam este
um problema multifatorial e de extrema complexidade -, é inegável que esta espécie
contribui significativamente para a rápida dispersão das chamas. A realidade é que o
eucalipto tem uma grande importância económica em Portugal, mas é necessária uma
abordagem mais intencional e rigorosa na plantação desta espécie para evitar que os
incêndios florestais comprometam gravemente a mesma economia.
Em Portugal, existe uma grande taxa de abandono dos eucaliptais após o fim da
rentabilidade económica. Em 2024, o Governo estimava em 400 000 ha a área de eucaliptal
abandonado ou com sinais de abandono 10. Já, a organização não governamental ZERO, e
2025, estima que cerca de 2/3 do eucaliptal total - aproximadamente 560 000 ha de um total
oficial de 845 000 - estejam mal geridos ou abandonados 11. Nessas áreas, o eucalipto,
misturado com espécies arbustivas resistentes ao fogo, como urzes, giestas e tojos, cria um
ambiente altamente inflamável, alimentando o risco de incêndios de grandes dimensões.
De forma positiva, no Orçamento do Estado para 2023, ficou inscrito, no artigo 187.º, que o
Governo iria reverter “ os apoios destinados à plantação de eucaliptos, com vista à sua
diminuição e ao desincentivo à sua plantação e garante a majoração das medidas tendentes
a incentivar a plantação ou replantação de árvores autóctones ”. No entanto, esta intenção
foi abandonada e não voltou a figurar num Orçamento do Estado desde então, o que além
de expressar uma vontade política, na prática representa a ausência de recursos financeiros
para esse fim.
Por outro lado, a limpeza e reabilitação dos terrenos e da floresta não deve ficar apenas por
uma ação concertada de arranque de eucaliptal não produtivo.
A limpeza regular dos terrenos florestais e agrícolas em redor de edificações e infraestruturas e
a gestão ativa dos espaços são fundamentais para a prevenção de incêndios florestais. Todos
os anos, os proprietários são chamados a limpar os seus terrenos e, caso não o façam, incorrem
em coimas que podem ir até 5 000 euros para pessoas singulares 12. Em 2024, o prazo para
limpeza dos terrenos decorreu até 15 de junho, depois de, entre fevereiro e abril, a Guarda
Nacional Republicana ter detetado mais de 10 000 terrenos por limpar13.
O custo da limpeza de terrenos, que pode ir até cerca de 1000 euros/ha, costuma ser um
impedimento à realização dos trabalhos, assim como a escassez de mão de obra e a idade
avançada de muitos proprietários14. Nesse sentido, e para apoiar a limpeza dos terrenos, o
Governo lançou, em junho de 2025, o Programa Floresta Ativa, uma iniciativa destinada a
10 Portugal tem 400 mil hectares de eucalipto ao abandono| Jornal de Notícias
11 O eucalipto tem lugar na floresta portuguesa? | ZERO
12 GNR sinalizou 10.251 casos de falta de limpeza de terrenos mas só multa após sábado | Público
13 Governo alarga até 15 de Junho prazo para a limpeza de terrenos florestais | Público
14 Limpar terrenos custa mil euros por hectare e disparam notificações da GNR | Jornal de Notícias
apoiar a gestão e manutenção ativa dos espaços florestais no continente, em particular das
pequenas propriedades15.
A este Programa foi alocado um financiamento de 4 milhões de euros no primeiro aviso,
através do Fundo Ambiental, operacionalizado pelo Instituto da Conservação da Natureza e
das Florestas (ICNF), que atribuiu apoios até 650 euros/ha para candidaturas individuais e
800 euros/ha para candidaturas coletivas para ações de limpeza, regeneração e valorização
dos terrenos florestais. Este Programa deixou de fora, no entanto, as intervenções em áreas
florestais comunitárias/baldios. É, todavia, importante, na opinião do LIVRE, apoiar a
limpeza dos baldios, reconhecendo-os como basilares na construção da comunidade e de
forma a proteger as populações que dependem desses espaços comuns para atividades
económicas e sociais.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Crie um programa para atribuição de apoio financeiro para o arranque de parcelas
de eucalipto em áreas sensíveis e posterior substituição por espécies autóctones,
promovendo práticas florestais sustentáveis e adaptadas ao território;
2. Implemente ações de formação e acompanhamento técnico junto dos proprietários
rurais, incentivando a gestão ativa pós-arranque e fornecendo orientação sobre a
seleção e plantação de espécies nativas com benefícios ecológicos e económicos;
3. Reforce a articulação com instituições locais e científicas para monitorizar os
impactos ambientais das intervenções, garantindo o sucesso da substituição
florestal, a recuperação de ecossistemas e a valorização da biodiversidade;
4. Aumente o montante do incentivo financeiro para 850 euros/ha para candidaturas
individuais e 1100 euros/ha para candidaturas coletivas de forma a reduzir o impacto
dos elevados custos da limpeza e garantir intervenções regulares e eficazes;
5. Adapte o Programa Floresta Ativa de modo a, na abertura do próximo aviso, incluir
apoios específicos à limpeza e gestão dos baldios, reconhecendo a sua importância
estrutural na mitigação do risco de incêndios e no equilíbrio ambiental das zonas
rurais.
Assembleia da República, 22 de agosto de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
15 Fundo Ambiental apoia novo programa “Floresta Ativa” com 4 milhões de euros para gestão e prevenção de
incêndios florestais | Fundo Ambiental
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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