Documento integral
Projeto de Resolução n.º 238/XVII/1.ª
Por uma carreira digna e justa para os
trabalhadores de apoio educativo
Exposição de motivos:
Em 2024, os trabalhadores de apoio educativo organizaram uma onda de greves e
protestos, convocados por vários sindicatos, reivindicando melhores condições de trabalho,
incluindo a exclusividade de funções e o fim da precariedade destas e destes trabalhadores.
Uma das reivindicações recorrentes do setor é a da criação de uma carreira específica para
estas e estes trabalhadores 1. A Federação Nacional de Educação (FNE), num comunicado
do dia 19 de junho de 2025, manifestou a sua “profunda preocupação face às condições em
que se perspetiva o arranque do próximo ano letivo”2. Nesse comunicado, a FNE dá nota da
“ausência de medidas concretas que ponham fim à inaceitável situação de precariedade
vivida por estes profissionais” 3. Na legislatura passada, a discussão da Petição Nº
124/XVI/1, fez notar a necessidade da criação de diversas carreiras especiais,
nomeadamente da carreira para trabalhadores de apoio educativo “que afirme a
centralidade das funções dos trabalhadores não-docentes, atuais Assistentes Operacionais,
com funções de Auxiliares de Ação Educativa, como essenciais ao desenvolvimento de uma
Escola Pública de qualidade; que garanta a exclusividade de funções na Escola Pública, a
formação profissional adequada e o reconhecimento do conteúdo profissional específico”4.
1 Petição Nº 124/XVI/1
2 Preocupação com as condições de arranque do próximo ano letivo
3 idem
4 idem
De facto, a criação de condições para estas e estes profissionais revela-se essencial, desde
logo por uma questão de dignidade de condições de trabalho mas também para a garantia
do bom funcionamento da Escola Pública, principalmente num momento em que grassa a
violência, o bullying e o assédio dentro dos recintos escolares.
Ainda neste sentido, a 17 de fevereiro de 2025 foi publicado em Diário da República a
resolução n.º 35/2025 que “Recomenda ao Governo um conjunto de medidas para prevenir
e combater a violência em meio escolar” 5 onde, de entre as resoluções aprovadas, consta,
por proposta do LIVRE6, a dignificação e valorização das carreiras dos assistentes técnicos
e assistentes operacionais “adequando o seu conteúdo funcional às especificidades e
exigência do ambiente escolar”7.
Na referida Resolução da Assembleia da República, fica claro que para um espaço escolar
que seja espaço de liberdade, empatia e compreensão, é essencial garantir recursos e
condições de trabalho para todas as pessoas que acompanham os alunos: dentro e fora da
sala de aula. Aliás, a Petição n.º 17/XVI/1 8, pela criação da carreira de Técnico Auxiliar de
Educação, promovida pelo Sindicato Nacional dos Profissionais da Educação (SINAPE), dá
nota precisamente da relevância das funções destes profissionais “no acompanhamento e
desenvolvimento de crianças e adolescentes” 9 bem como o seu “papel decisivo para o
futuro de todas as gerações”.
Também a Lei de Bases do Sistema Educativo prevê um grupo profissional constituído pelo
Pessoal Auxiliar de Educação, contudo, o seu conteúdo funcional foi-se diluindo com o
processo de fusão das carreiras gerais na administração pública o que provocou o
desaparecimento de carreiras específicas das escolas. Atualmente, a maioria destas e
destes profissionais integra as carreiras gerais de assistente técnico e assistente
operacional, o que faz com que não sejam profissionais diferenciados e especializados a
prestar o apoio necessário às infraestruturas e estabelecimentos ou o acompanhamento de
estudantes com necessidades educativas específicas, por exemplo. Falta a estes
profissionais, para além de condições remuneratórias, formação adequada que privilegie o
acompanhamento personalizado de cada estudante.
5 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/resolucao-assembleia-republica/35-2025-907629889
6 Projeto de Resolução 304/XVI/1
7 idem
8 Detalhe de Petição
9 idem
Acresce ainda que a transferência de competências para as autarquias locais, por um lado,
veio provocar um aumento na despesa do poder local que não foi devidamente
acompanhado pelas transferências do Orçamento do Estado e, por outro, transferiu também
para os municípios a responsabilidade com o recrutamento, seleção e gestão destes
trabalhadores essenciais.
Face ao expendido, é evidente que há uma necessidade premente de enquadramento
específico para estas e estes trabalhadores. Ora, considerando que em novembro de 2024
o jornal ECO dava nota que “professores, funcionários judiciais, forças de segurança,
guardas prisionais, forças armadas e enfermeiros” 10 já haviam celebrado acordos com o
Governo, é lamentável que continuem a ser excluídas outras classes da função pública,
como é o caso dos Técnicos Auxiliares da Educação ou da Saúde, apesar de também em
novembro último, o Ministro da Educação ter garantido que quer “melhorar o
enquadramento do pessoal não docente”11.
Apesar das promessas e das boas intenções, à porta de um novo ano letivo, estes
profissionais continuam sem ver a sua situação devidamente resolvida e adequadamente
dignificada.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Inicie conversações e negociações com autarquias e representantes sindicais com
vista à criação de uma carreira especial de Técnico Auxiliar de Educação que inclua
todos os trabalhadores que exerçam funções nas instituições que integram os
estabelecimentos de ensino pré-escolar, básico e secundário, designadamente os
que pertencem aos quadros das Câmaras Municipais ao abrigo da transferência de
competências;
2. Crie uma carreira especial de Técnico Auxiliar de Educação, que defina claramente o
conteúdo funcional da carreira, com descrição de funções a desempenhar, e inclua
uma norma transitória que garanta o avanço remuneratório, a progressão salarial e a
possibilidade de integração na Caixa Geral de Aposentações.
10 Valorização das carreiras no Estado ainda deixa de fora trabalhadores das escolas e da saúde – ECO
11 Greves nas escolas. Governo quer “melhorar enquadramento do pessoal não docente” - Renascença
Assembleia da República, 20 de agosto de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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