Documento integral
Projeto de Resolução n.º 300/XVII/1.ª
Reforço da resposta das Comunidades Terapêuticas
Exposição de motivos:
Portugal enfrenta atualmente uma pressão crescente no domínio dos comportamentos
aditivos e dependências, que exige uma resposta pública reforçada, multidisciplinar, e
tecnicamente qualificada. Entre as dependências com maior impacto social e de saúde
destaca-se, nos últimos anos, o jogo, que tem revelado um crescimento preocupante e efeitos
negativos significativos na vida de muitas pessoas. No segundo trimestre de 2025,
encontravam-se autoexcluídos da prática de jogos e apostas online 326.400 registos de
jogadores, o que representa um aumento de 27% face ao ano anterior 1, uma variação
expressiva que evidencia a dimensão do problema. Contudo, o fenómeno dos
comportamentos aditivos não se limita ao jogo: o consumo de substâncias como álcool e
drogas, bem como as dependências comportamentais, como a dependência digital, também
afetam um número elevado de pessoas e exigem atenção e recursos adequados.
As comunidades terapêuticas (CT) desempenham um papel fundamental no tratamento e
reinserção de pessoas afetad as por comportamentos aditivos, sendo unidades
especializadas para a reabilitação dos utentes, e oferecendo um ambiente estruturado de
cuidados. Contudo, a disponibilidade de vagas é insuficiente face à procura crescente. Em
2023 houve na rede pública e licenciada 615 utentes internados por problemas relacionados
com o uso de drogas em Unidades de Desabituação (+19% face a 2022) e 1699 em
comunidades terapêuticas (+9%), correspondendo a 54% e 56% dos internados nestas
estruturas2. Dos 1699 internamentos em comunidades terapêuticas, 57 correspondem a
1 “Relatório 2º trimestre 2025, Registo de atividade de jogo online em Portugal”, Serviço de Regulação e Inspeção de Jogo
(SRIJ)
2 “Relatório Anual 2023: A Situação no País em matéria de Drogas e Toxicodependência”, Ministério da Saúde – Portugal
Coordenação Nacional para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, (p20; p64)
internamentos em CT públicas, e os restantes 1642 em CT licenciadas3. Este cenário revela
longas listas de espera e dificuldades no acesso, podendo agravar o quadro clínico dos
utentes.
Distinguem-se, na rede, as três comunidades terapêuticas públicas, diretamente geridas pelo
Estado, e as camas convencionadas em comunidades terapêuticas privadas ou do setor
social com acordo de cooperação com o SNS. Embora o modelo de camas convencionadas
permita alargar a resposta a curto prazo, não substitui a necessidade de aumentar a oferta
pública direta, garantindo a estabilidade, uniformidade de práticas e equidade no acesso ao
tratamento.
Além da insuficiência de capacidade, regista-se também uma lacuna relevante na
diferenciação terapêutica entre comportamentos aditivos com substância e comportamentos
aditivos sem substância. As necessidades clínicas e psicossociais destes dois grupos não
são idênticas: a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Classificação Internacional de
Doenças (CID-11) reconhecem que comportamentos como o jogo patológico e o gaming
disorder têm mecanismos neurobiológicos e padrões terapêuticos específicos, por exemplo4.
Modelos eficazes implicam abordagens psicoterapêuticas adaptadas, intervenção familiar e
treino de competências sociais baseados em evidência. Neste sentido, é fundamental que o
reforço da rede pública de CT seja acompanhado da criação de unidades e camas
especializadas para comportamentos aditivos sem substância, permitindo adequar a
intervenção a cada caso e maximizar os resultados clínicos.
É também importante que a rede de comunidades terapêuticas ofereça uma resposta
diferenciada para os jovens, tendo em conta as suas características específicas de
desenvolvimento físico, psicológico e social. Adolescentes e jovens possuem padrões de
consumo e motivações distintas dos adultos, além de apresentarem necessidades
terapêuticas próprias que exigem abordagens especializadas. O tratamento eficaz para este
grupo envolve, além do suporte clínico, intervenções que promovam o desenvolvimento de
competências sociais, educativas e familiares. Assim, a criação de respostas destinadas
exclusivamente a utentes até aos 25 anos garante um enquadramento terapêutico mais
adequado ao seu estágio de desenvolvimento.
3ibidem
4“Addictive behaviours: Gaming Disorder”, Questions and Answers, in World Health Organization website, 2020
À luz das considerações expostas e perante a dimensão do problema, o LIVRE entende que
é imperativo reforçar significativamente a capacidade da rede pública de comunidades
terapêuticas e dotar essa rede de especializações, tanto na tipologia de comportamento
aditivo como no público-alvo por faixa etária, garantindo um tratamento humanizado e
equitativo.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Reforce a rede pública de comunidades terapêuticas, mediante a expansão do
número de camas disponíveis no setor público, de forma a garantir uma
resposta mais célere e a reduzir as listas de espera.
2. Crie e afete camas específicas, destinadas ao tratamento diferenciado de
comportamentos aditivos sem substância, assegurando que os utentes
recebam respostas terapêuticas baseadas em evidência científica e adequadas
às suas particularidades clínicas.
3. Implemente a diferenciação etária na rede de comunidades terapêuticas,
criando respostas e unidades especializadas para pessoas até aos 25 anos, com
programas adaptados ao seu estágio de desenvolvimento.
Assembleia da República, 16 de setembro de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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