Projeto de Lei n.º 383/XVII/1.ª
Reforça as garantias de estabilidade dos órgãos de gestão do SNS, alterando o
Estatuto do Serviço Nacional de Saúde
Exposição de motivos
A confiança dos cidadãos no SNS constitui um pilar essencial da coesão social e da efetividade
do direito fundamental à proteção da saúde, consagrado na Constituição da República
Portuguesa. Essa confiança depende não apenas da qualidade da resposta clínica, mas
também da perceção de integridade, competência e independência dos seus modelos de
governação.
Apesar das reformas anunciadas ao longo da última década, a forma como são designados os
titulares dos cargos de direção e de gestão de topo do SNS continua a suscitar dúvidas
fundadas quanto à sua transparência, imparcialidade e adequação ao interesse público. Em
particular, a nomeação dos órgãos de administração das Unidades Locais de Saúde (ULS), bem
como do s Diretores Executivos do agrupamentos de centros de saúde, permanece
excessivamente dependente de decisões discricionárias do poder político, assentes em
procedimentos que não garantem um escrutínio público efetivo nem uma avaliação
comparativa baseada em mérito.
Atualmente, estes cargos são preenchidos sem a realização de concursos públicos abertos,
sendo apenas precedidos de pareceres não vinculativos da Comissão de Recrutamento e
Seleção para a Ad ministração Pública (CReSAP). Não são publicitados os perfis exigidos, os
critérios de seleção, nem as listas ordenadas de candidatos, inexistem avaliações públicas de
desempenho no termo dos mandatos e não são conhecidas as cartas de compromisso que
deveriam orientar a ação das lideranças ao longo dos respetivos ciclos de gestão.
Este modelo tem revelado fragilidades estruturais persistentes. Favorece a perceção
(amplamente partilhada por profissionais de saúde, organizações representativas dos
profissionais de saúde e cidadãos) de que as nomeações obedecem a lógicas de proximidade
político-partidária, em detrimento de critérios objetivos de competência, experiência e
conhecimento do terreno. Tal perceção não só fragiliza a legitimidade das lideranças
nomeadas, como afasta profissionais qualificados dos processos de recrutamento e
compromete a estabilidade e o planeamento estratégico de organizações particularmente
complexas, como são as ULS.
Num setor como a saúde, onde a continuidade, a previsibilidade e a confiança são
determinantes para a qualidade do serviço prestado, a rotatividade associada a ciclos
políticos e a ausência de mecanismos robustos de responsabilização têm impactos diretos na
gestão dos recursos, na motivação das equipas e, em última inst ância, na resposta aos
utentes.
Com a presente iniciativa legislativa o PAN pretende reforçar os mecanismos de
responsabilização, transparência e estabilidade na governação do SNS, introduzindo
salvaguardas que dificultem decisões de cessação de funções ou dissolução de órgãos de
gestão assentes em critérios meramente políticos. Para esse efeito, prevê -se a
obrigatoriedade de celebração e publicitação, em Diário da República, de cartas de missão
com objetivos claros, quantificados e calendarizados, permitin do que a avaliação do
desempenho seja feita com base em parâmetros previamente definidos e conhecidos.
Simultaneamente, reforça-se o papel dos órgãos consultivos e das estruturas clínicas e não
clínicas no processo de dissolução dos conselhos de administra ção e conselhos diretivos,
assegurando que tais decisões sejam precedidas de pareceres não vinculativos, mas
informados, plurais e tecnicamente sustentados. Esta audição alargada contribui para uma
decisão mais fundamentada, transparente e alinhada com a r ealidade concreta das
instituições.
Adicionalmente, clarificam-se e densificam-se os deveres de fundamentação das decisões de
cessação de funções, promovendo uma cultura de prestação de contas que protege as
lideranças que cumpram os objetivos definidos e responsabiliza, de forma justa e objetiva,
aquelas cujo desempenho se revele insuficiente.
Com esta iniciativa, pretende-se afirmar um princípio estruturante: a governação do Serviço
Nacional de Saúde deve assentar na estabilidade, na responsabilidade e na avaliação objetiva
do desempenho, e não na lógica da substituição política cíclica.
Pelo exposto, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a abaixo
assinada Deputada Única do PESSOAS -ANIMAIS-NATUREZA, apresenta o seguinte Pr ojeto
de Lei:
Artigo 1.º
Objecto
A presente lei procede à quinta alteração ao Decreto-Lei n.º 52/2022, de 4 de agosto, alterado
pelos Decretos-Leis n.ºs 7-A/2023, de 30 de janeiro, e 102/2023, de 7 de novembro, pela Lei
n.º 82/2023, de 29 de dezembro, e pelo Decreto-Lei n.º 13-A/2025, de 10 de março.
Artigo 2.º
Alteração ao Estatuto do Serviço Nacional de Saúde
São alterados os artigos 41.º, 44.º, 49.º, 78.º e 84.ºdo Estatuto do Serviço Nacional de Saúde,
aprovado pelo Decreto-Lei n.º 52/2022, de 4 de agosto, na sua redação atual, que passam a
ter a seguinte redação:
«Artigo 41.º
[…]
1 - […].
2 - Nos 90 dias seguintes à designação, o diretor executivo e o coordenador assinam uma
carta de missão na qual são definidos os objetivos, devidamente quantificados e
calendarizados, a atingir no decurso do exercício de funções, a qual deverá ser publicitada em
Diário da República.
3 - […].
4 - […].
5 - […].
Artigo 44.º
[…]
1 — […].
2 — […].
3 — É competência do membro do Governo responsável pela área da saúde a definição do
perfil, experiência profissional e competências de gestão adequadas às funções de diretor
executivo, os quais devem ser publicados em Diário da República e comunicados à Comissão
de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública (CReSAP)
4 - A proposta prevista no n.º 1 deve ser acompanhada de avaliação, não vinculativa, do
currículo e da adequação de competências ao cargo de diretor executivo da personalidade a
que respeita a proposta de designação, realizada pela CReSAP, que a disponibiliza no seu sítio
na internet.
Artigo 49.º
[…]
1 - […]:
a) […];
b) […];
c) […];
d) Por despacho fundamentado, mediante parecer prévio do conselho da comunidade e
do Conselho Clínico e de Saúde.
2 - […].
3 - […].
Artigo 78.º
[…]
1 — […].
2 — […].
3 — A dissolução do conselho de administração e do conselho diretivo , nos termos dos
números anteriores, éprecedida de parecer não vinculativo do conselho consultivo, que, para
o efeito, ouve os diretores de serviço clínico e não clínico do Estabelecimento de Saúde.
Artigo 84.º
[…]
1 - […]:
a) […];
b) […];
c) […];
d) Emitir o parecer prévio à dissolução do conselho de administração e do conselho
diretivo nos termos do artigo 78.º, ouvindo, pa ra o efeito, os diretores de serviço
clínico e não clínico.
2 - […]:
a) […];
b) […].»
Artigo 3.º
Entrada em vigor
A presente lei entra em vigor 30 dias após a sua publicação.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 16 de janeiro de 2025
A Deputada,
Inês de Sousa Real
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Discussão generalidade — DAR I série — 57-73 - 31/01/2026
31 DE JANEIRO DE 2026
Aplausos do PS, do L e do BE.
O Sr. Mário Amorim Lopes (IL): — Que vergonha!
O Sr. Presidente (Marcos Perestrello): — Chegamos, assim, ao fim deste ponto e passamos ao ponto
seguinte da ordem de trabalhos, que consiste na apreciação, na generalidade, dos Projetos de Lei
n.os 149/XVII/1.ª (L) — Prevê a eleição dos presidentes dos conselhos de administração das ULS, alterando o
Estatuto do Serviço Nacional de Saúde, 209/XVII/1.ª (PCP) — Consagra a gestão democrática no Serviço
Nacional de Saúde, 355/XVII/1.ª (CH) — Alteração Estatuto do SNS, designando por via de concurso público e
avaliação independente de cargos de direção e administração, 376/XVII/1.ª (BE) — Novas regras para a
constituição dos conselhos de administração das unidades do Serviço Nacional de Saúde, 379/XVII/1.ª (IL) —
Novas regras de designação dos membros dos órgãos de administração dos estabelecimentos de saúde do
SNS (sexta alteração ao Decreto-Lei n.º 52/2022, de 4 de agosto, e oitava alteração ao Decreto-Lei n.º 71/2007,
de 27 de março), 380/XVII/1.ª (PAN) — Assegura a transparência, despolitização e valorização do mérito na
governação do Serviço Nacional de Saúde, alterando o Estatuto do Serviço Nacional de Saúde e 383/XVII/1.ª
(PAN) — Reforça as garantias de estabilidade dos órgãos de gestão do SNS, alterando o Estatuto do Serviço
Nacional de Saúde e do Projeto de Resolução n.º 504/XVII/1.ª (PS) —Profissionalização dos membros dos
conselhos de administração dos hospitais EPE ou unidades locais de saúde (ULS).
Para a apresentação do seu projeto, tem a palavra o Sr. Deputado Paulo Muacho, do Livre.
O Sr. Paulo Muacho (L): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Ao longo de várias décadas, a lógica na
saúde, mas não só, tem sido mais ou menos esta: muda o Governo, mudam-se as administrações hospitalares,
dos institutos públicos, muda-se uma série de cargos na função pública.
Mas também é preciso dizê-lo: poucos Governos até hoje devem tê-lo feito de uma forma tão descarada
como os Governos de Luís Montenegro e Ana Paula Martins.
Das 39 unidades locais de saúde, 19 já foram substituídas e, em 80 % dessas substituições, as nomeações
têm ligações aos partidos da AD, ao PSD e ao CDS.
E agora recebeu o Governo uma bonança, que são as 10 administrações de ULS (unidades locais de saúde)
que terminaram funções a 31 de dezembro. Ou seja, no final destas contas todas, o Governo vai substituir mais
de dois terços das administrações das ULS deste País.
Todas estas nomeações foram, certamente, feitas por mérito e não por cartão partidário, exceto, talvez,
quando a pessoa que é nomeada não tem qualquer formação na área da saúde, ou quando nunca teve qualquer
experiência em gestão hospitalar, ou quando até é pública a pressão das estruturas partidárias locais.
E o que espanta é que parece que há muitos que ainda não perceberam, principalmente no PSD, mas
também no Partido Socialista, que não compreenderam, que esta forma de funcionar mina a credibilidade de
quem tem de administrar, mina a motivação dos profissionais de saúde do SNS (Serviço Nacional de Saúde),
mina a confiança dos cidadãos no SNS, mas também mina os próprios partidos e a confiança nestes partidos,
que de uma forma tão descarada se aproveitam da Administração Pública. E essa é também uma forma de
minar a confiança no nosso regime democrático.
E a troco de quê? Nenhum Governo tem o direito a ter administrações hospitalares alinhadas politicamente.
Nenhum Governo tem o direito a dar ordens às administrações hospitalares para cortarem na despesa, mesmo
que isso implique ter de cancelar consultas e cirurgias sem que essa notícia saia cá para fora.
Por isso, o Livre propõe uma coisa muito simples: que os presidentes dos conselhos de administração das
ULS passem a ser eleitos pelos trabalhadores dessas unidades locais de saúde, mediante um prévio concurso
lançado pela CReSAP (Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública), que seleciona os
candidatos com requisitos mínimos de competência e experiência.
Dessa forma, nós podemos aliar dois objetivos que são comuns a vários dos projetos que hoje são
apresentados pelas várias forças políticas: garantir a competência e garantir uma maior legitimidade e
participação das equipas na escolha de quem as lidera.
Queremos ainda reforçar o papel dos conselhos consultivos, tornando obrigatório o seu parecer prévio,
ouvidos os diretores de serviços, antes da dissolução de qualquer administração, para que também não possa
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Votação na generalidade — DAR I série — 98-98 - 31/01/2026
I SÉRIE — NÚMERO 53
Seguimos com a votação, na generalidade, do Projeto de Lei n.º 379/XVII/1.ª (IL) — Novas regras de
designação dos membros dos órgãos de administração dos estabelecimentos de saúde do SNS (sexta alteração
ao Decreto-Lei n.º 52/2022, de 4 de agosto, e oitava alteração ao Decreto-Lei n.º 71/2007, de 27 de março).
Submetido à votação, foi rejeitado, com os votos contra do PSD, do PCP, do CDS-PP e do BE, os votos a
favor do CH, da IL e do PAN e as abstenções do PS, do L e do JPP.
Vamos passar à votação, na generalidade, do Projeto de Lei n.º 380/XVII/1.ª (PAN) — Assegura a
transparência, despolitização e valorização do mérito na governação do Serviço Nacional de Saúde, alterando
o Estatuto do Serviço Nacional de Saúde.
Submetido à votação, foi rejeitado, com os votos contra do PSD, do PS, da IL e do CDS-PP, os votos a favor
do CH, do L, do PCP e do PAN e as abstenções do BE e do JPP.
Vamos votar, na generalidade, o Projeto de Lei n.º 383/XVII/1.ª (PAN) — Reforça as garantias de estabilidade
dos órgãos de gestão do SNS, alterando o Estatuto do Serviço Nacional de Saúde.
Submetido à votação, foi rejeitado, com os votos contra do PSD, do PS, da IL e do CDS-PP, os votos a favor
do L e do PAN e as abstenções do CH, do PCP, do BE e do JPP.
Passamos à votação, na generalidade, do Projeto de Resolução n.º 504/XVII/1.ª (PS) — Profissionalização
dos membros dos conselhos de administração dos hospitais EPE ou unidades locais de saúde (ULS).
Submetido à votação, foi rejeitado, com os votos contra do PSD e do CDS-PP, os votos a favor do PS, da IL,
do L e do PAN e as abstenções do CH, do PCP, do BE e do JPP.
Votação, na generalidade, do Projeto de Lei n.º 236/XVII/1.ª (JPP) — Uso exclusivo de aguardente vínica
com origem e produção na RDD na beneficiação do vinho do Porto e do moscatel do Douro, alterando o Decreto-
Lei n.º 106/2025, de 15 de setembro.
Submetido à votação, foi aprovado, com os votos a favor do CH, do PS, do L, do PCP, do BE, do PAN e
do JPP e os votos contra do PSD, da IL e do CDS-PP.
Registou-se manifestação de protesto de um elemento do público presente nas galerias, gritando: «Viva
Portugal!»
O senhor vai ter de sair.
Pausa.
Vamos repetir a votação, Srs. Deputados.
Submetido à votação, foi aprovado, com os votos a favor do CH, do PS, do L, do PCP, do BE, do PAN e
do JPP e os votos contra do PSD, da IL e do CDS-PP.
Esta iniciativa baixa à 7.ª Comissão.
Burburinho na Sala.
Srs. Deputados, vamos prosseguir com as votações. Vamos criar condições para prosseguir com as
votações.
Projeto de Resolução n.º 490,…
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