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Projeto de Resolução n.º 437/XVII/1.ª
Recomenda ao governo a reativação do serviço de passageirosna Linha Setil – Vendas
Novas
Exposição de motivos
Com aproximadamente sessenta e nove quilómetros de extensão e inaugurada no ano
de 1904, a Linha Setil –Vendas Novas é um dos mais antigos e estruturantes eixos
ferroviários do território nacional. Foi concebida com o propósito de articular o interior
do Ribatejo e o norte alentejano com o corredor Lisboa–Porto, mantendo, durante mais
de um século , um serviço regular de transporte de passageiros. No entanto, foi
desativada no ano de 1990 por decisão política, facto que se revelou determinante para
o isolamento e para o progressivo despovoamento de extensas áreas do interior.
Entre 2009 e 2012, alinha voltou a acolher passageiros. Tal reativação limitou-se ao troço
Setil–Coruche, mas teve também vida curta. A interrupção verificou -se apesar de a
infraestrutura continuar totalmente operacional e de ser utilizada diariamente por
diversos comboios de mercadorias.
Assim, torna-se claro que não existe qualquer impedimento técnico que inviabilize a
circulação de serviços de passageiros até Vendas Novas. Muito pelo contrário, a história
demonstra que esta ligação sustentou serviços de âmbito nacional entre os anos de 1992
e 2006, período em que o conhecido ‘comboio azul’ estabelecia a ligação entre Porto e
Algarve por este corredor. Em síntese, a ferrovia está constr uída e encontra -se apta a
funcionar, faltando apenas determinação política para a sua modernização.
No presente, Portugal dispõe de quarenta e oito quilómetros de via múltipla e de doze
estações exclusivamente dedicadas ao transporte de mercadorias. Este cenário suscita
dúvidas profundas sobre a estratégia ferroviária nacional. A predominância da via úni ca
impede a circulação simultânea de comboios de passageiros mais rápidos e de comboios
de mercadorias, o que torna urgente uma reforma abrangente das infraestruturas.
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Durante vários anos os governos não concretizaram a aposta estratégica na ferrovia. A
orientação política seguida desde o ano de 2015 praticamente não se afastou das
abordagens anteriores, uma realidade infeliz que ganhou projeção internacional quando
a organização ambientalista Greenpeace divulgou um estudo que indicava que Portugal
encerrara oito linhas ferroviárias em vinte e três anos. Graças também a isso, e ntre os
anos de 1995 e 2018, a rede ferroviária nacional diminuiu dezoito por cento,
representando a terceira maior redução entre os vinte e sete Estados-Membros da União
Europeia, juntamente com o Reino Unido, a Noruega e a Suíça.
Sem surpresa, areativação da Linha Setil–Vendas Novas tem sido insistentemente exigida
por populações, autarcas e diversos agentes regionais. Nesse mesmo sentido, v árias
petições públicas têm defendido o regresso dos comboios de passageiros e argumentam,
corretamente, que a mobilidade diária é essencial para o trabalho, a educação, a saúde
e o acesso a serviços, sobretudo para residentes próximos da capital. Salientam , ainda,
os benefícios ambientais, a redução das emissões, o descongestionamento das estradas,
o combate à desertificação, o incentivo à fixação de população no interior e a integração
ferroviária com Vendas Novas, Évora e Beja. Estes argumentos ganham ainda mais força
quando se constata que a infraestrutura existente permanece desaproveitada.
Face a tudo isto, torna -se claro que e stamos perante uma decisão essencial para a
qualidade de vida das populações e para uma estratégia que vis e reforçar a mobilidade,
a competitividade económica e a coesã o territorial. Ciente disto, o Partido CHEGA
defende que o Estado não pode continuar a desperdiçar infraestruturas ferroviárias
plenamente funcionais nem manter centenas de quilómetros de linhas sem qualquer
serviço de passageiros. Pelo contrário, acredita mos que a recuperação do transporte
ferroviário e a sua transformação num meio atrativo e competitivo é uma necessidade
urgente, sendo imperativo que esta linha volte a servir o país e as comunidades que dela
dependem.
Nestes termos, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os
deputados do grupo parlamentar do CHEGA, recomendam ao governo que:
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1. Reative, com carácter urgente, o serviço de passageiros na Linha Setil – Vendas
Novas, garantindo a circulação regular de comboios de passageiros em toda a
extensão do ramal.
2. Determine a criação de serviços diretos entre Lisboa –Setil–Vendas Novas, com
horários ajustados às necessidades das populações, incluindo deslocações
pendulares.
3. Avalie a viabilid ade de serviços diretos Porto –Setil–Vendas Novas –Évora–Beja,
aproveitando o corredor ferroviário existente e garantindo maior conectividade
nacional.
4. Reforce as condições de operação da linha, assegurando à Infraestruturas de
Portugal a realização de intervenções de modernização e manutenção
necessárias, adequação das estações e apeadeiros para serviço de passageiros e
melhoria das condições de segurança e acessibilidade.
5. Promova a criação de um Plano Intermunicipal de Mobilidade Ferroviária
envolvendo os municípios servidos pela linha, com articulação entre transportes
ferroviários e rodoviários.
6. Garanta a integração da Linha Setil – Vendas Novas no Plano Nacional Ferroviário
e no Portugal 2030, assegurando financiamento estável e objetivos de longo
prazo.
7. Assegure transparência total no processo, publicando no portal da Infraestruturas
de Portugal o cronograma da reativação , os investimentos previstos e o estado
de execução dos trabalhos.
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8. Estude a possibilidade de reativação do serviço Coruche –Vendas Novas em
complemento ao Setil–Coruche, garantindo continuidade territorial e resposta às
exigências da região.
Palácio de São Bento, 29 de Dezembro de 2025
Os deputados do grupo parlamentar do CHEGA
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