Documento integral
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Projecto de Resolução n.º 810/XVII/1ª
Salvar Vidas com Prevenção: Reforçar o Diagnóstico Precoce do Cancro
Exposição de Motivos
Prevenir adequadamente, não é multiplicar rastreios sem critério, é saber onde, quando
e a quem faz sentido. Por isso, o alargamento das estratégias de deteção precoce devem
respeitar a evidência científica, a avaliação clínica do risco e capacidade de resposta do
Serviço Nacional de Saúde (SNS) garantindo que a cada sinal de alerta corresponde
seguimento, confirmação diagnóstica e tratamento atempado.
Antes de sonhar em expandir, é essencial cuidar, com rigor e intenção, do que já foi
construído. Passando por fortalecer a presença dos rastreios oncológicos em curso,
envolver de forma mais próxima a população elegível, garantir que o acesso se desenha
com justiça em todo o território e acompanhar, com atenção contínua, os resultados
que daqui emerge. Muitas vezes a fragilidade não está apenas na existência formal dos
programas, mas na delicada travessia entre a sua intenção e o momento em que, de
facto, tocam, ou não conseguem tocar, a vida das pessoas.
Chegar mais cedo a quem precisa não implica substituir o médico de família, implica sim,
valorizar o seu papel insubstituível na avaliação individual do utente, na identificação
dos fatores de risco e na referenciação adequada. Não cabe ao Estado substituir a
avaliação, mas sim, criar condições para que os programas públicos funcionem, para que
a prevenção chegue à população elegível e para que cada decisão de rastreio seja mais
ajustada, mais fundamentada e mais útil.
Também a população jovem não pode ficar à margem de uma política séria de
prevenção oncológica. Porque é na fase mais precoce da vida que se desenham hábitos,
se inicia a exposição de riscos e se conquista maior margem para proteger a saúde. Aliás,
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o Perfil do Cancro por País1 relativo a Portugal assinala, que os grupo etário mais jovem,
se encontra especialmente afetado, impondo por isso, uma resposta mais segura para a
prevenção e para a deteção precoce.
Também nos rastreios a falha está à vista: em 2022, no cancro da mama, 98% da
população elegível foi convidada, mas só 50% realizou o exame; no colo do útero, 64%
foi convidada e 60% aderiu; e no cancro colorretal, apenas 33% foi convidada e 14%
realizou o rastreio2. Entre os jovens de 15 anos, 9% fumavam, 8% relataram episódios
repetidos de embriaguez, 20% apresentavam excesso de peso ou obesidade e apenas
14% praticavam atividade física diária 3, sendo que, a redução dos principais fatores de
risco, poderá evitar, e ntre 2023 e 2050, 23 731 casos de cancro associados ao tabaco,
18 135 ao álcool e 7 736 à obesidade4.
Neste contexto, já não basta medir a prevenção pela existência formal de programas. O
verdadeiro teste está na capacidade de identificar a população elegível, emitir convites,
recuperar faltas e garantir seguimento após resultado positivo. É exatamente aqui que
a fragilidade do sistema se expõe. No SNS, os médicos de família têm um papel central
nos cuidados oncológicos: participam nos programas de rastrei o, asseguram consultas
de seguimento, referenciam para especialidade e acompanham os doentes ao longo do
percurso assistencial. Mas, no final de dezembro de 2025, havia ainda 1.563.710 utentes
sem médico de família, num universo de 10.734.672 inscritos nos cuidados de saúde
primários5, enquanto Portugal apresenta menor disponibilidade de profissionais na
resposta ao cancro do que a média da União Europeia. Quando esta primeira linha falha,
falha a convocação, fragiliza-se o combate à não adesão e atrasa-se a deteção precoce.
A própria Direção -Geral da Saúde reconhece que prevenir melhor exige seguimento,
responsabilização e capacidade de atuação, ao consagrar mecanismos de alerta e de
registo clínico para situações de não adesão e perda de seguimento. Por i sso, reforçar
1 Perfil sobre cancro por país: Portugal 2025 (PT)
2Perfil sobre cancro por país: Portugal 2025 (PT) pag.13
3 Portugal (PT) pag. 6,7
4 Perfil sobre cancro por país: Portugal 2025 (PT) pag.12
5 Mais de 1,5 milhões de portugueses sem médico de família no final de dezembro -
SIC Notícias
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os cuidados de saúde primários, uniformizar procedimentos de convocação e assegurar
às equipas de saúde familiar meios efetivos de acompanhamento não é apenas uma
opção, é uma condição para transformar prevenção em ganhos em saúde: diagnostic ar
mais cedo, evitar doença avançada, reduzir sofrimento, limitar tratamentos mais
pesados e conter custos evitáveis. É essa a diferença entre anunciar prevenção e
concretizá-la.
Assim, pelo exposto nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, os d eputados
do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao governo que:
1. Reforce a execução dos programas de rastreio oncológico de base populacional,
com metas quantificáveis de aumento da cobertura da população elegível,
melhoria significativa das taxas de ades ão e eliminação progressiva das
assimetrias territoriais no acesso ao rastreio, à confirmação diagnóstica e ao
tratamento atempado.
2. Garanta, no âmbito dos cuidados de saúde primários, a identificação sistemática
dos utentes elegíveis para rastreio, a convocação ativa personalizada e o registo
obrigatório e acompanhamento efetivo das situações de não adesão, perda de
seguimento ou ausência de médico de família atribuído.
3. Reforce o papel dos cuidados de saúde primários na prevenção oncológica,
valorizando a intervenção do médico de família e da equipa de saúde familiar na
avaliação individual do risco, na sinalização precoce e na promoção ativa de
medidas de prevenção primária (com especial enfoque no controlo do
tabagismo, consumo de álcool e obesidade) e na literacia em saúde, com
prioridade clara para a população jovem.
Palácio de São Bento, 1 de abril de 2026.
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
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