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Representação Parlamentar
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 7/XVII/1.ª
ALARGA A IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO-PILOTO DA SEMANA DE 4
DIAS DE TRABALHO
Exposição de motivos
O equilíbrio entre vida profissional e tempo para viver é uma dimensão essencial de uma
“vida boa”. Precisamos de tempo para as relações pessoais, sociais e familiares, para a
fruição cultural, para o cuidado, para a participação social e política.
A redução do tempo de trabalho é uma das grandes conquistas civilizacionais do
movimento dos trabalhadores. Ela teve expressão de diferentes formas: através da
redução da semana de trabalho, do aumento dos dias de férias anuais, da redução do
horário diário, da antecipação da reforma.
A semana de 4 dias é uma das modalidades da redução do tempo de trabalho,
apresentando inúmeras virtualidades. Vários países e empresas têm vindo a
implementar esta prática. É o caso, por exemplo, da Nova Zelândia, Espanha, Escócia ou
Bélgica, através de projetos-piloto, de várias empresas no Reino Unido e no Japão, de
alguns governos locais e nacionais, como o da Islândia.
No caso concreto de Portugal, o período normal de trabalho já não sofre alterações
desde 1996, momento em que se passou das 44 horas para as 40 horas semanais. O
Governo do Partido Socialista avançou, todavia, em 2023, com um projeto-piloto para a
implementação da semana de quatro dias no setor privado, que foi criado através da
Portaria n.º 301/2022, de 20 de dezembro.
Esse projeto contou com a parceria técnica da fundação 4 Day Week Global, que dá apoio
de consultoria nesta matéria a nível global, tendo sido coordenado por dois
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investigadores e professores universitários, Pedro Gomes e Rita Fontinha. Ao Instituto
do Emprego e da Formação Profissional (IEFP) coube a responsabilidade pela
implementação e gestão do programa-piloto, que decorreu no segundo semestre de
2023 num conjunto de empresas que entenderam a ele aderir voluntariamente, com a
implementação da semana de quatro dias, com a correspondente redução do número de
horas de trabalho, sem diminuição da retribuição. Estas duas condições, que eram
obrigatórias nos projetos-piloto, garantem que a semana de 4 dias não está associada a
uma mera concentração do mesmo período normal de trabalho em menos um dia e que
não está associada a quaisquer perdas em termos de remuneração. O projeto abrangeu
41 empresas e mais de 1000 trabalhadores; envolveu a redução das horas de trabalho
semanais em 13,7%, na maior parte das vezes através de um dia livre por semana
(58,5%), outras por quinzenas de 9 dias. Para além do projeto-piloto, algumas empresas
introduziram a semana de quatro dias nas suas organizações, mesmo antes daquele
programa. Foi o caso, por exemplo, das empresas Lean Health Portugal, Visma Nmbrs,
Toyno, 360imprimir, Loka, a Listor.
À implementação da semana de 4 dias estão associadas, na maioria das empresas,
mudanças organizacionais (redução do número de reuniões, novo software, etc.) e a
esmagadora maioria (95%) avalia a experiência positivamente e pretendia prolongá-la.
Num inquérito respondido por uma amostra de 200 trabalhadores, estes declararam a
diminuição de sintomas negativos a nível de saúde mental, ansiedade, insónia ou
problemas de sono, a redução dos níveis de exaustão pelo trabalho (-19%) e uma
melhor conciliação entre trabalho e família (65% dos trabalhadores passou mais tempo
com a família após o início da redução horária). A semana de 4 dias passou a ser também
um fator muito relevante para a maioria dos trabalhadores na escolha de se manterem
na empresa.
A semana de 4 dias, quando associada à redução do período normal de trabalho, é uma
experiência positiva, que liberta um dia para si, que proporciona um aumento do bem-
estar dos trabalhadores e cujo tempo livre ganho dificilmente é consumido em horas
extra (nomeadamente não pagas) como mais facilmente acontece com a redução do
horário diário.
O Bloco de Esquerda inscreveu a semana de 4 dias no seu programa eleitoral
apresentado em novembro de 2021 e tem defendido que se alargue esta experiência.
Embora a Administração Pública tenha ficado de fora do projeto-piloto, foi assumido
pela Ministra da Presidência do último governo do Partido Socialista que a experiência
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avançaria no Estado numa fase posterior. Já depois disso, o Centro de Competências de
Planeamento, de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública (PlanApp) realizou
de um inquérito feito com a Direção-Geral da Administração e do Emprego Público
(DGAEP), administrado entre julho e setembro de 2023, que gerou 14,2 mil respostas,
no qual a esmagadora maioria dos funcionários públicos (84%) considera que a jornada
semanal de trabalho devia ser reduzida sem corte da remuneração. Esse estudo revelou
a forte perceção por parte dos respondentes de que é difícil conciliar, sobretudo nos dias
de trabalho, a vida profissional com a vida pessoal e familiar e de que a jornada semanal
de trabalho deveria ser reduzida, sem redução da remuneração. Relativamente à
organização do tempo de trabalho, a esmagadora maioria dos trabalhadores (73,85%)
prefere 32 horas distribuídas por quatro dias por semana. Na altura da divulgação do
estudo, a 1 de março de 2024, foi reiterado que, à primeira fase do estudo, se seguiria
uma segunda etapa, que passaria pela realização de um projeto-piloto para testar a
implementação da semana de quatro dias em organismos públicos.
O anterior Governo do PSD/CDS, contudo, não assumiu nenhum compromisso
relativamente à semana de 4 dias e à continuidade destas experiências e do que tinha
sido gizado. Tem sido aliás hostil a avanços na redução do tempo de trabalho. Para o
Bloco de Esquerda, pelo contrário, aprofundar e ampliar esta experiência, seja no setor
privado, seja no setor público, é essencial para avançar neste campo.
Assim, nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, a Deputada do Bloco de
Esquerda, propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo que:
1. No terceiro trimestre de 2025, crie no Instituto do Emprego e da Formação
Profissional (IEFP) um mecanismo e uma linha permanente de acompanhamento
às empresas privadas e organizações do setor social que pretendam fazer a
transição para a semana de 4 dias com a correspondente redução do número de
horas de trabalho e sem diminuição da retribuição;
2. Durante o ano de 2025, dê início ao processo de implementação do projeto-piloto
da semana de 4 dias de trabalho na Administração Pública e no Setor Empresarial
do Estado;
3. Atribua à Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP) a
responsabilidade pela implementação, gestão e avaliação do projeto-piloto da
semana de 4 dias de trabalho, nos seguintes termos:
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a) Avaliação das novas formas de organização e equilíbrio dos tempos de
trabalho, que acautelem os interesses dos trabalhadores, diminuam os custos de
funcionamento, bem como os custos ambientais;
b) Avaliação do impacto que a redução do tempo de trabalho, sem perda de
rendimento, tem na qualidade de vida dos trabalhadores e suas famílias;
c) Avaliação os efeitos sobre a produtividade, a qualidade dos serviços prestados
e o absentismo.
Assembleia da República, 3 de junho de 2025.
A Deputada do Bloco de Esquerda,
Mariana Mortágua
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