Documento integral
Projeto de Resolução n.º 211/XVII/1.ª
Recomenda a criação do Programa “Escolas Solares”
Exposição de motivos:
A descentralização da produção de energia a partir de fontes renováveis, como a solar
fotovoltaica, tem uma importância estratégica para a resistência e resiliência de qualquer
sistema elétrico. Quando equipados com baterias para armazenamento de energia e um
inversor para converter a corrente contínua gerada em corrente alternada utilizável, os
edifícios onde os painéis são instalados, bem como as suas imediações, têm potencial para
ter autonomia suficiente para fazer face a situações como o apagão de 28 de abril e funcionar
fora do sistema geral, criando ilhas de energia. Este foi, aliás, o caso de um dos
departamentos da Universidade Coimbr a, onde a eletricidade continuou a ser fornecida
durante o apagão1.
Quando a eletricidade é produzida não de forma centralizada, mas sim em pontos dispersos,
próximos dos locais de consumo (como telhados de edifícios, escolas, empresas ou em
verdadeiras comunidades de energia renovável), reduzem -se as perdas na transmissão e
distribuição. Este modelo acaba por ser mais autónomo e potencia a segurança energética,
uma vez que, em caso de interrupções na rede nacional, as unidades descentralizadas
continuam a abastecer energia ao seu utilizador ou à comunidade, garantindo forn ecimento
básico e continuidade de serviços essenciais. A descentralização de produção de energia
também contribui para uma rede elétrica mais eficiente, independente, democrática e menos
vulnerável a ameaças externas.
O Plano Nacional de Energia e Clima 2030 (PNEC 2030) tem como objetivo atingir, até 2030,
uma capacidade instalada de cerca de 15 GW em solar centralizado, mas apenas 5,7 GW
em descentralizado 2. Este objetivo parece ser manifestamente insuficiente, face à
disponibilidade de superfícies para instalação de painéis solares e às condições naturais de
Portugal para a produção elétrica a partir de geração fotovoltaica.
Para o LIVRE, é essencial equipar infraestruturas já existentes, como edifícios públicos, para
utilizar todo o potencial solar que existe num país com mais de 300 dias de sol por ano, como
é o caso de Portugal. Tal iria contribuir também para uma diminuiçã o dos conflitos locais
1 Universidade de Coimbra teve energia durante “apagão”. O que são as microrredes? | Público
2 Plano Nacional de Energia e Clima 2030, pág. 61
gerados pela instalação de mega centrais fotovoltaicas, como tem acontecido, por exemplo,
em Nisa 3, em Santiago do Cacém 4 ou na Sertã 5. Estes conflitos resultam geralmente da
ausência de diálogo e de participação pública, bem como dos impactos ambientais,
paisagísticos e sócio-económicos causados pela instalação de projetos de grande escala em
áreas ocupadas ou sensíveis.
A introdução do conceito de “Escolas Solares” é, por isso, o passo lógico numa abordagem
inovadora e estratégica para promover a produção de energia renovável de proximidade,
através do aproveitamento eficiente do espaço já ocupado pelas escolas públicas p ara a
instalação de painéis fotovoltaicos. A realidade é que existem em Portugal mais de 4 500
escolas públicas6 e muitas delas dispõem de áreas de cobertura vastas e de outros espaços
subutilizados, ideais para acolher sistemas fotovoltaicos. Instalando painéis solares nestes
edifícios, torna-se possível aproveitar a incidência solar, como, aliás, já acontece em Ga ia,
onde, no espaço de uma semana, foi possível poupar 500 euros depois da instalação de
painéis solares em 13 escolas do concelho7.
Mas também o projeto Porto Solar 8, dinamizado pela Agência de Energia do Porto, uma
associação privada sem fins lucrativos, pretende instalar soluções de produção de energia
solar no município do Porto, em 25 escolas básicas. Os promotores do projeto preveem que
ele resulte numa redução da utilização de energia elétrica proveniente da rede em cerca de
27%, num total de 1,4 GWh por ano, numa redução de custos estimada na fatura de
eletricidade superior a 150 mil € anuais e numa redução da emissão de 500 toneladas de
gases com efeito de estufa.
Também a sul, em Loulé, o projeto “Comunidade Energética Escolar” 9 tem como objetivo
produzir energia renovável nas escolas, sobretudo para autoconsumo, tendo-se iniciado em
agosto de 2019 com a instalação de uma unidade de produção fotovoltaica. Atualmente, este
projeto encontra-se em expansão para as restantes escolas do concelho, abrangendo já 35
escolas e tendo uma potência instalada de cerca de 934 kWp, o que permite a produção de
cerca de 1 530 MWh por ano e evita a emissão de cerca de 390 toneladas de dióxido de
carbono por ano.
Parecem ser, por isso, evidente s as vantagens económicas, ao contribuir para diminuir os
encargos das escolas com a fatura energética, o que é particularmente relevante num
contexto de aumento do custo das matérias-primas e da energia. Além disso, é ainda possível
otimizar este investimento integrando as escolas em verdadeiras comunidades de energia
renovável, o q ue permite que o excedente produzido durante períodos de menor consumo
escolar – como fins de semana ou férias – possa ser disponibilizado a famíl ias e outros
serviços públicos localizados na zona envolvente , tornando estas escolas realmente
produtoras líquidas de energia que contribuem para a rede. Esta partilha é também importante
3 MP tenta travar central solar de Nisa | Observador
4 Associação quer travar em tribunal linha elétrica para projeto da maior central solar | Jornal Económico
5 Município da Sertã manifesta “total oposição” à central fotovoltaica do Cabril | Público
6 Escolas básicas e secundárias | DGERT
7 Escolas em Gaia pouparam 500 euros numa semana com painéis solares | Jornal de Notícias
8 Porto Solar | Agência de Energia do Porto
9 Comunidade Energética Escolaa | Loulé Adapta
para reforçar o papel social das escolas como pólos aglutinadores e dinamizadores das
comunidades, ao mesmo tempo que aumenta a resiliência do sistema energético local.
A utilização dos edifícios públicos para instalação de painéis solares também valoriza o
património público e credibiliza o setor público que, ao assumir uma posição de vanguarda,
estimula o exemplo, a inovação e a confiança da sociedade civil e do tecido empresarial,
acelerando a transição para uma economia menos intensiva em carbono.
Mas também não é de desprezar a dimensão pedagógica deste programa, onde alunos,
docentes e funcionários podem adquirir conhecimentos práticos sobre energias renováveis,
eficiência energética e alterações climáticas. A integração dos sistemas fotovoltaicos nos
programas escolares enriquece o currículo e proporciona uma aprendizagem ativa, a partir
da monitorização dos painéis, da análise dos dados de produção e do envolvimento em
debates, auditorias energéticas ou projetos de sensibilização ambiental.
Deste modo, o LIVRE considera que urge a criação do programa “Escolas Solares”, por
iniciativa do Governo e do Ministério do Ambiente e Energia, em particular. A experiência de
vários municípios demonstra que esta solução é técnica e financeiramente viável , tendo
benefícios sociais evidentes e contribuindo para o aumento da coesão territorial.
Transformar projetos locais e muito meritórios de produção de energia renovável numa
iniciativa nacional com financiamento adequado afigura-se como fundamental para maximizar
o enorme potencial do autoconsumo e da produção descentralizada em Portugal. É essencial
ultrapassar as limitações dos apoios pontuais e das iniciativas isoladas, garantindo escala,
estabilidade a longo prazo e equidade territorial, de modo que todas as comunidades possam
beneficiar deste processo de transição energética. No entender d o LIVRE, só criando um
programa nacional robusto, com incentivos financeiros, gabinetes de apoio técnico e
simplificação de procedimentos, se tornará possível massificar a instalação de painéis solares
em escolas públicas.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que , através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Crie o Programa “Escolas Solares”, um programa de âmbito nacional para a instalação
de painéis solares fotovoltaicos em escolas públicas, tornando as escolas produtoras
líquidas de eletricidade, com financiamento adequado e mecanismos de apoio
técnico, promovendo estas escolas como centros de comunidade e que funcionem
como promotores de comunidades de energia local no meio em que estão inseridas.
2. Garanta o acompanhamento técnico e a monitorização dos resultados de forma a
assegurar uma implementação eficiente e sustentável do Programa “Escolas Solares”
em todo o território nacional.
Assembleia da República, 28 de julho de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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