Documento integral
1
Projeto de Resolução n.º 232/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a proteção dos animais selvagens afetados pelos
incêndios florestais de 2025
Exposição de Motivos
O ano de 2025 tem sido particularmente desastroso no que toca aos danos efetuados
pelos incêndios. Segundo o Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (EFFIS),
já arderam mais de 215 mil hectares de floresta, correspondente a 2,35% do território
nacional, o que torna Portugal o país da União Europeia com maior percentagem de área
ardida. Consequentemente, este é um dos piores anos de incêndios de que há memória
em Portugal, superando largamente os dados de 2024 e possivelmente também de
2017, caso os dados do EFFIS sejam confirmados pelo Instituto da Conservação da
Natureza e das Florestas (ICNF).
Esta realidade tem colocando enorme pressão na sociedade portuguesa, que luta
diariamente para não perder as suas casas e ver tudo o que construiu ao longo de uma
vida destruído pelas chamas, nos corpos de bombeiros, proteção civil, sapadores e
forças de segurança, que estão na linha da frente no combate aos incêndios e na
proteção das pessoas e dos animais, e também na natureza, que é mais uma vez
completamente dizimada por consequência de uma falta de visão estruturada no
combate aos incêndios.
Dentro dos danos causados à natureza, apesar de conseguirmos calcular o número de
hectares ardidos, é virtualmente impossível quantificar e qualificar o número de animais
selvagens vítimas destes desastres. No meio do caos, os animais que conseguem escapar
às chamas encontram os seus habitats completamente destruídos, deixando -os sem
abrigo e sem alimento. Ecossistemas que demoraram anos a se desenvolverem são
simplesmente dizimados de um momento para o outro, pondo também em risco a vida
dos animais que conseguiram sobreviver à devastação dos incêndios.
2
Os incêndios mais significativo que deflagraram em Portugal têm-se situado nas regiões
Norte e Centro do país. Grandes fogos em Arganil, Sabugal, Montalegre, Mirandela,
Fundão e Trancoso têm preocupado e specialmente as autoridades competentes e é
onde o rasto de destruição é mais evidente. Em Trancoso, as chamas já consumiram 65
mil hectares no que é o maior incêndio do ano e no Fundão as chamas já entraram no
Parque Natural da Serra da Estrela, local de especial relevância para a vida selvagem e
casa de uma fauna e flora de elevada importância nacional.
Com a destruição destes mosaicos florestais, animais como corsos, a águia -de-asa-
redonda, raposas, javalis, texugos, lebres, esquilos e ouriços têm os seu s habitats
destruídos, sem proteção, com fome e com sede. Havendo uma maior incidência no
norte do país e com o agravamento destas situações, não podemos esquecer o impacto
que estes incêndios poderão ter também na proteção do lobo -ibérico em Portugal.
Espécie estritamente protegida no nosso país, a população de lobo -ibérico tem vindo a
diminuir ano após ano. Com a propagação de incêndios onde este estará presente e para
além de ter a sua vida diretamente ameaça pelas chamas, a destruição do seu habitat
levará também à redução das suas presas naturais, trazendo ainda mais dificuldades
para a sua alimentação e atrasando, consequentemente, todos os esforços feitos na
recuperação e conservação dos espaços ecológicos favoráveis à preservação do lobo -
ibérico.
Para animais selvagens de maior porte, a destruição dos seus habitats coloca também
em perigo as populações circundantes. Vendo destruído o seu ecossistema, é natural
que estes animais procurem comida e água em campos agrícolas e residências próximas,
causando prejuízo a agricultores e pessoas que sejam alvos destes ataques e pondo
também em risco a vida do próprio animal.
No processo de recuperação destes habitats e na proteção da vida selvagem, não
descuramos também o papel importante realizado pelos centro s de recuperação de
animais selvagens. Tem sido por iniciativa do PAN que tem sido possível garantir um
investimento adicional de 1 milhão de euros a estes centros firmados em sucessivos
Orçamentos do Estado, proposta esta que foi no processo de discussão na especialidade
3
Orçamento do Estado para 2025 com os votos contra PSD e CDS -PP, abstenção da
Iniciativa Liberal e votos a favor dos restantes.
Face a esta realidade, é crucial que o Governo atue celeremente e garanta que é
assegurada a alimentação e abeb eramento dos animais selvagens que viram os seus
habitats naturais destruídos, bem como o apoio financeiro para a prestação de cuidados
médico-veterinários e alimentação aos restantes animais afetados.
Nestes termos, a abaixo assinada Deputada Única do PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA,
ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a
Assembleia da República adote a seguinte Resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição
da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Em articulação com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas,
organizações não governamentais de ambiente e outras entidades relevantes,
Implemente programas de colocação de pontos de alimentação e
abeberamento para a fauna selvagem afetada, particularmente nas áreas onde
o habitat foi destruído pelos incêndios, garantindo que os animais tenham
acesso a água e alimento até que os ecossistemas se possam regenerar;
2. Garanta o devido reforço financeiro ao s centros de recuperação de animais
selvagens e associações de proteção animal, assegurando apoio financeiro
para a alimentação e prestação de cuidados médico-veterinários dos mesmos;
3. Desenvolva, em articulação com a academia e organizações não
governamentais, a criação de uma estratégia para a recuperação da
biodiversidade nas zonas afetadas pelos incêndios.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 20 de agosto de 2025
A Deputada,
4
Inês de Sousa Real
Abrir texto oficial