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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução Nº 343/XVII/1.ª
Pelo reconhecimento de direitos e por uma maior proteção e
participação das pessoas idosas
Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo. No ano de 2021, 23,6% da sua
população tinha mais de 65 anos de idade, o que torna urgente a adoção de políticas
públicas eficazes para combater o isolamento e a solidão, bem como para diminuir a taxa
de risco de pobreza deste grupo geracional, sendo que as mulheres se encontram entre as
mais atingidas por este flagelo.
No entanto, a taxa de cobertura de respostas sociais para este grupo etário é bastante
reduzida: menos de 13% dos idosos têm acesso a apoio de profissionais, seja apoio
domiciliário, seja apoio institucional (centros de dia e lares). A despesa pública em
cuidados de longa duração é muito limitada: 0,4% do PIB, quando em países do norte da
Europa, por exemplo, é dez vezes mais.
Apesar do crescimento, a rede de cuidados continuados não tem mais de 16,5 mil vagas,
e apenas 2% da oferta é pública, sendo que em algumas tipologias, não há nenhuma
resposta pública, mas sim uma parte comparticipada pelo Estado. Este número de vagas
está muito aquém das necessidades. O tempo necessário para conseguir acesso cria
desespero em milhares de pessoas que se veem sem solução para os seus familiares.
A escassez de cuidados profissionais, que obriga tanta gente, maioritariamente mulheres,
a abandonar os seus trabalhos para cuidar dos seus familiares, não é sequer compensada
com tempo, direitos e reconhecimento. O estatuto do cuidador informal, que teve o mérito
de reconhecer a existência do cuidado informal, foi boicotado no alcance que poderia e
deveria ter, mas não tem. Deixa muita gente de fora, o subsídio de apoio tem um valor
bastante reduzido e vários dos direitos laborais e de descanso ficaram a meio caminho.
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A área dos cuidados é das que mais tem criado emprego, mas num modelo precário. Entre
as profissionais de cuidados e do serviço doméstico (em ambos os casos, cerca de 90%
mulheres) a precariedade e os baixos salários são a norma.
Ao mesmo tempo, grandes multinacionais têm vindo a organizar-se na Europa para
criarem um mercado de cuidados, particularmente para idosos, aproveitando os vazios
da política pública. Esta é uma oportunidade de negócio que é aberta pelo Governo
PSD/CDS, na reapresentação do “Estatuto da Pessoa Idosa”, Proposta de Lei n.º
14/XVII/1.ª, uma vez que, pela primeira vez em Portugal, se prevê o financiamento
público de respostas privadas na área do cuidado a pessoas idosas, quando o setor público
e social e não sejam capazes de dar resposta.
O Bloco de Esquerda propõe, por estas razões, que os cuidados sociais sejam assumidos
como uma responsabilidade do Estado, única forma que garante que todas as pessoas têm
o direito a serem cuidadas independentemente da sua condição económica ou social.
Além disso, propomos que a política de cuidados que seja orientada pelos objetivos
formulados pela Organização Internacional do Trabalho: “reconhecer, reduzir e
redistribuir o trabalho de cuidados”, deixando de o imputar maioritariamente à família e
operando uma transformação paradigmática através da sua consagração como direito a
realizar pelo Estado.
O aumento da esperança média de vida e da população idosa são conquistas que devem
ser celebradas. Mas é preciso associar ao envelhecimento direitos, cuidados, condições de
realização e autonomia e participação das pessoas mais velhas na definição de políticas
públicas.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Deputada do
Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo:
1. Consulta e participação das Associações na definição de políticas públicas que
incidam, designadamente, sobre áreas como o envelhecimento, a inclusão e a proteção
das pessoas mais velhas;
2. Aumento do financiamento dos programas de hospitalização domiciliária, de forma a
cobrir todo o território nacional, com enfoque nos doentes mais idosos, reduzindo
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potenciais infecções hospitalares e aumentando o conforto e sentimento de
segurança;
3. Criação de uma Rede Pública de Apoio às pessoas idosas, incluindo Estruturas
Residenciais para Idosos, Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) e de Centros de
Proximidade, em parceria entre o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança
Social, o Ministério da Saúde e Autarquias;
4. Criação de um Serviço Nacional de Cuidados, que integre soluções alternativas aos
Lares, que promova a participação das pessoas idosas na gestão das
respostas/equipamentos que lhes são dirigidos, como o investimento em respostas de
autonomia, nomeadamente com um programa para a criação de projetos de co-
housing, dando cumprimento ao disposto na Lei de Bases da Habitação, e de respostas
comunitárias, nomeadamente nas aldeias, que garantam habitação autónoma de
forma coletiva;
5. Reforço dos direitos dos cuidadores informais, nos termos propostos na iniciativa
legislativa de cidadãos (ILC), promovida pela Associação Nacional de Cuidadores
Informais (ANCI);
6. Equiparação do valor do Indexante de Apoios Sociais ao valor calculado como o limiar
da pobreza.
Assembleia da República, 10 de outubro de 2025.
A Deputada do Bloco de Esquerda,
Andreia Galvão
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