Documento integral
Projeto de Resolução n.º 234/XVII/1ª
Pela majoração da dotação do Programa de Preparação Olímpica e Paralímpica
2026–2029 e pela revisão do modelo de financiamento do desporto nacional
Exposição de motivos
No tempo em que Portugal tenta reencontrar o seu caminho, em que se exige a
reorientação de prioridades estratégicas para o futuro do país, o desporto não pode
continuar a ser visto como um mero ornamento social. Tem de ser entendido como o
que realmente é: um ativo nacional essencial, um motor de coesã o, de saúde pública,
de afirmação cultural e de orgulho coletivo.
O CHEGA sempre defendeu, de forma inequívoca, que o desporto deve ser erguido a
desígnio nacional. E essa não é uma frase de efeito, é um imperativo político. Porque
em nenhuma sociedade avançada o desporto é tratado como uma nota de rodapé, antes
pelo contrário. Estados com maior coesão social, melhor saúde pública e maior
reconhecimento internacional são, invariavelmente, os que encaram o desporto como
prioridade transversal – política, orçamental, educativa, cultural e simbólica.
Contudo, em Portugal, essa visão está longe de ser concretizada. Apesar de alguma
evolução nas últimas décadas – nomeadamente graças à resiliência dos agentes do setor
– a verdade é que o Estado continua a falhar sistematicamente com o desporto. O apoio
continua a ser errático, insuficiente, politicamente oportunista e economicamente
irrelevante no contexto do Orçamento de Estado. Existe um subfinanciamento do setor
que urge alterar, um modelo de financiamento que também deve ser alterado e é dever
do Estado assumir integralmente o seu papel nesta matéria.
Ao longo dos anos, os atletas portugueses, sobretudo os de alta competição, têm sido
forçados a conviver com um sistema de financiamento errático, instável e abaix o de
mínimos europeus. Falamos de atletas de elite, alguns dos melhores do mundo nas suas
modalidades que, ano após ano, enfrentam condições de preparação longe do ideal:
estruturas logísticas limitadas, apoios financeiros insuficientes, acesso desigual a
serviços técnicos especializados e um ambiente que continua a depender mais da força
de vontade individual do que de uma estratégia nacional articulada. O verdadeiro
milagre é, pois, que ainda consigam vencer.
A história olímpica portuguesa é, por isso, uma história de superação, mas também uma
denúncia gritante da negligência institucional. Portugal orgulha -se, e bem, das suas
medalhas e dos seus atletas. Porém, continua a falhar no essencial: garantir as condições
estruturais para que essas conquistas sej am fruto de um sistema coeso e preparado e
não apenas do esforço individual. É comum assistir -se à exaltação pública dos
resultados, com discursos inflamados e promessas efémeras mas, na prática, persistem
as falhas de investimento, de planeamento e de vis ão estratégica. Celebra-se o pódio,
mas esquecem-se os anos de preparação que o antecedem. Aplaudem-se os heróis, mas
ignoram-se as condições em que treinam. É essa contradição, entre o orgulho mediático
e o abandono estrutural, que tem de ser enfrentada com coragem política.
Ora, foi precisamente isso que se voltou a verificar nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. A
delegação portuguesa regressou com a melhor prestação de sempre, tanto em número
de medalhas como em lugares de finalistas. Um feito que deve ser celebrado, mas
também estudado. Porque, se com tão pouco conseguimos tanto, o que não
poderíamos alcançar com uma estrutura verdadeiramente profissional e devidamente
financiada?
Em Paris, os atletas foram a face de um Portugal que quer mais. Foram a imagem de um
país que, apesar de tudo, resiste. Que, apesar de todos os constrangimentos, luta. Que,
apesar da falta de meios, não desiste. Mas essa coragem não pode continuar a ser traída
por quem governa.
Na receção oficial à comitiva olímpica, o Primeiro -Ministro, Luís Montenegro,
comprometeu-se publicamente com uma majoração de pelo menos 20% nos apoios
para o novo ciclo olímpico, rumo a Los Angeles 20281. A declaração, apesar de positiva,
1 Governo quer “fazer crescer acima de 20%” as verbas para Jogos Los Angeles2028 | Secretaria de
Estado do Desporto | PÚBLICO
continua por concretizar. Não há protocolo assinado. Não há dotações inscritas. Não há
metas calendarizadas. Apenas palavras.
Entretanto, o Contrato -Programa de Desenvolvimento Desportivo 2024 –20282,
assinado entre o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), Comité Olímpico
de Portugal (COP) e Comité Paralímpico de Portugal, consagra um investimento total de
65 milhões de euros, abrangendo o conjunto do ecossistema federativo. No entanto,
como fica evidente no próprio documento, esse montante não corresponde, nem
remotamente, à totalidade das necessidades da preparação olímpica e paralímpica.
Pior, não existe, nesse contrato, qualquer referência clara à dotação exclusiva do futuro
Programa de Preparação Olímpica (PPO) 2026 –2029. E isso é gravíssimo. Significa que,
a menos de seis meses do final do atual ciclo, os a tletas portugueses ainda não sabem
com que recursos poderão contar para iniciar o processo de qualificação e preparação
rumo a Los Angeles.
Este vazio orçamental, este silêncio burocrático, esta ausência de previsibilidade são,
em si mesmos, formas de viol ência institucional. Porque nenhum atleta pode planear
um ciclo olímpico com base em incertezas ou promessas vagas. E nenhum país que se
leve a sério pode permitir que os seus representantes partam para as maiores
competições do mundo em condições de improviso.
Por isso, o CHEGA apresenta esta proposta concreta e inequívoca: o novo Programa de
Preparação Olímpica e Paralímpica 2026 –2029 deve ser dotado de, no mínimo, 45
milhões de euros.
Este valor representa um reforço estrutural absolutamente necessário, pelas seguintes
razões objetivas:
● Corresponde a uma majoração real de aproximadamente 44,2% face ao ciclo
anterior (2022 –2025), cuja dotação total foi de 31,2 milhões de euros: 22
2 Contrato-Programa CP/893/2024
milhões atribuídos ao Comité Olímpico de Portugal (COP) e 9,2 milhões ao
Comité Paralímpico de Portugal (CPP).
● Com esta proposta, a nova dotação de 45 milhões de euros distribuir -se-ia da
seguinte forma:
o 30 milhões de euros para o COP – o que representa um aumento de 8
milhões, ou seja, +36,4% face ao valor anterior (22 M€);
o 15 milhões de euros para o CPP – um reforço de 5,8 milhões, ou seja,
+63% relativamente ao montante anterior (9,2 M€).
Esta majoração representa, em simultâneo, um imperativo de justiça, uma exigência
estratégica e uma responsabilidade do Estado para com os seus representantes
máximos no plano desportivo internacional. Não se trata de um benefício extraordinário
nem de uma generosidade arbitrária. Trata -se de reconhecer, com objetividade e
seriedade, o aumento real, contínuo e documentado dos encargos associa dos à
preparação de atletas de alto rendimento, num ciclo particularmente exigente, marcado
por contextos logísticos complexos e por custos crescentes em praticamente todas as
dimensões operacionais. A realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos em Los
Angeles, nos Estados Unidos, acarretará um esforço acrescido de transporte, estadia,
aclimatização, acompanhamento técnico e adaptação, exigindo uma resposta atempada
e proporcional por parte das autoridades públicas.
A este cenário somam -se novos desafios desportivos e estruturais: a integração de
modalidades emergentes no programa olímpico e paralímpico, o alargamento do
número de atletas com mínimos de qualificação e, sobretudo, a consolidação de um
modelo de preparação baseado em ciência, inovação, acompanhamento psicofisiológico
e gestão multidisciplinar de desempenho. A alta competição contemporânea exige
muito mais do que talento ou motivação, exige planeamento, recursos humanos
especializados, condições de treino de excelência e estabilidade instituci onal. E
nenhuma política desportiva se pode considerar séria se não estiver sustentada num
orçamento compatível com tais exigências.
O valor de 45 milhões de euros proposto para o novo ciclo 2026 –2029 não é apenas
razoável: é, na verdade, uma aproximação ao patamar mínimo necessário para garantir
que Portugal acompanha o investimento médio dos seus parceiros europeus, quando
ajustado à sua dimensão económica e populacional. Países como a Áustria, a Dinamarca,
Finlândia, entre outros, já reconheceram há muit o que o desporto de alto rendimento
não é um apêndice da política pública, mas sim parte integrante da sua afirmação
externa, da sua coesão interna e da sua identidade coletiva. Portugal, se quiser
realmente ser competitivo e respeitado no panorama interna cional, deve dar esse
mesmo passo, com ambição e com coragem.
Importa, ainda, sublinhar que esta majoração é inteiramente comportável do ponto de
vista orçamental. A despesa pública nacional tem -se mantido na ordem dos 110 a 115
mil milhões de euros anuais , e segundo dados do Instituto Nacional de Estatística,
rondou os 112 mil milhões de euros em 2023.3 Isso significa que 45 milhões representam
cerca de 0,04% da despesa pública anual, um montante marginal face aos principais
agregados orçamentais. No entan to, do ponto de vista desportivo, estratégico e
simbólico, esse investimento seria transformador: permitiria estruturar o ciclo 2026 –
2029 de forma estável, profissional e ambiciosa, sem comprometer a saúde das contas
públicas. Basta recordar que, com uma d otação muito inferior no ciclo anterior, os
atletas portugueses alcançaram resultados históricos. Fizeram-no com meios limitados,
com sacrifícios pessoais e familiares e com uma resiliência que deve merecer, mais do
que palmas ou elogios ocasionais, uma resposta efetiva do poder político.
Investir no desporto de alto rendimento não é um luxo, nem uma extravagância
orçamental. É, hoje, uma opção estratégica, de afirmação nacional, de projeção
internacional e de compromisso com os valores da excelência, da disciplina e do mérito.
O desporto de elite é a face visível de um país que acredita em si próprio. Um país que
valoriza o esforço, que promove o mérito, que recompensa o talento e que, por isso
mesmo, se projeta com ambição no cenário internacional.
3 Portal do INE
Cada euro investido na preparação olímpica é um investimento com retorno múltiplo:
em notoriedade externa, em turismo, em orgulho nacional, em coesão interna e,
sobretudo, na inspiração que os nossos atletas transmitem às gerações mais jovens. É,
também, uma ferr amenta real no combate ao sedentarismo, à exclusão social e à
alienação juvenil.
Portugal tem de tomar uma decisão clara: continuar a ser o país das palmas fáceis, das
fotografias com medalhas e das promessas tardias ou, pelo contrário, afirmar -se como
uma verdadeira Nação desportiva. E ser uma potência desportiva não significa ganhar
sempre. Significa, antes de tudo, planear com rigor, investir com critério e preparar com
seriedade. Significa respeitar aqueles que, em nome de Portugal, se levantam todos os
dias para treinar, para competir e para vencer, mesmo com estruturas limitadas, com
apoios insuficientes e, por vezes, com um Estado que só aparece no pódio.
A proposta que o CHEGA apresenta não é um pedido simbólico nem um gesto político.
É um imperativo de justiça e de coerência. Se o Governo da República assumiu
publicamente o compromisso de reforçar os apoios ao novo ciclo olímpico, então deve
cumprir. E deve fazê-lo com rigor, com transparência e com ambição.
Assim, ao abrigo das disposições procedimentais e regimentais aplicáveis, os Deputados
do Grupo Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1. Garanta, no âmbito do Orçamento do Estado para 2026, uma dotação de 45
milhões de euros para o novo Programa de Preparação Olímpica e Paralímpica
2026–2029, a repartir entre o Comité Olímpico de Portugal (30 milhões de euros)
e o Comité Paralímpico de Portugal (15 milhões de euros).
2. Promova, até ao final de 2025, um estudo técnico sobre o atual modelo de
financiamento do desporto nacional.
Palácio de São Bento, 23 de julhde 2025
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
Pedro Pinto – Patrícia Carvalho – Jorge Galveias – Daniel Teixeira – Sónia Monteiro –
Marcus Santos
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