Documento integral
1
Projeto de Resoluçãon.º 195/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a reativação e valorização da fileira da lã em Portugal
Exposição de Motivos
A lã, enquanto recurso natural, renovável e sustentável, tem desempenhado um papel
histórico e estratégico na economia local, na identidade cultural e na conservação
ambiental do território português, particularmente nas regiões do interior.1 Nos anos 60
e 70 do século passado, Portugal era um dos principais países com renome no setor,
tendo, inclusive, técnicos muito con hecedores, do Ministério da Agricultura, que
desenvolveram a atividade ao nível da qualificação de mão de obra e da fileira de
produção desde a ovelha no campo até à indústria, de tal forma que os ingleses e os
australianos vieram ao nosso país receber informação.2
Apesar do seu enorme potencial, a fileira da lã tem vindo a ser desvalorizada e enfrenta,
atualmente, diversos desafios.3 De facto, a situação foi alterada devido ao aparecimento
das fibras sintéticas , 4 sendo a maior parte das lãs resultantes das tosquias, deitadas ao
lixo em Portugal, anualmente.5
Todavia, uma vez que é absolutamente necessário tosquiar anualmente os ovinos, a lã
pode proporcionar um rendimento extra, principalmente nos ovinos com velo de
qualidade superior.6 Portugal não pode ser um país onde se desfaz lã, se fecha a última
lavadora e se condena o mundo rural à miséria. Por isso, o CHEGA propõe soluções com
menos Estado, mais iniciativa nacional e uma verdadeira economia rural com valor
acrescentado e orgulho português.
1 https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT126294
2 Setor da lã continua em crise, mas há esperança de que o cenário mude - Diário do Alentejo
3 https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT126294
4 https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/44848
5 Do campo às exportações, há quem busque valorizar a lã - UrbietOrbi
6 https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/44848
2
O caso de uma empresária que mudou de vida há 20 anos e dedicou-se à recuperação do
património industrial que foi descobrindo na Serra da Estrela, é um exemplo. Começou
por apostar em mantas, cachecóis e camisolas e mais tarde introduziu a lã naarquitetura
de interiores.7
Um projeto inovador que pode ter futuro, desenvolvido pelo Instituto Politécnico de
Bragança, defende um aproveitamento alternativo da lã de ovelha, a qual, sendo
orgânica, pode ser utilizada como isolante acústico natural.8
Já o projeto denominado Boa Terra, apresentado por um casal alemãoao Parque Natural
da Serra de São Mamede, prevê a transformação da lã em fertilizantes biológicos para o
solo, na forma de pellets. Embora pioneiro em Portugal, já existe em países como a
Alemanha.9
Há, portanto, diversos destinos possíveis para a lã, que permitam a sua valorização e que
não a resumam a um resíduo como infelizmente acontece actualmente. A situação torna-
se particularmente grave quando há a evidência que estamos a assistir à nossa
desindustrialização, porém, Portugal importa lã da Nova Zelândia, enquanto queima ou
deita fora a produzida no nosso país.
A produção e transformação da lã deveser vista como uma oportunidade de revitalização
industrial com base local e nacional. A verdade é que enquanto outros países investem
fortemente na certificação e exportação da lã como produto de luxo, Portugal deixa os
pastores ao abandono, realidade que merece a atenção do Parlamento. O problema da
lã não se resolve com subsídios para estudos e relatórios. O apoio tem de ir diretamente
para quem cria ovelhas, tosquia e transforma.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis , os deputados
do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
7 https://www.agrotec.pt/noticias/estrategia-para-a-valorizacao-da-la-em-debate-na-wool-conference-
2024/
8 Lã como isolante em campos de refugiados: uma ideia do Politécnico de Bragança | Miranda do Douro |
PÚBLICO
9 E se a lã das ovelhas fosse transformada em “pellets” para fertilizar o solo? | Castelo de Vide | PÚBLICO
3
1. Aposte na reindustrialização da fileira da lã, através de apoios e incentivos à iniciativa
privada nacional, nomeadamente:
a) Linhas de crédito específicas para cooperativas de produtores e pequenas empresas
que queiram investir na lavagem e transformação da lã;
b) Benefícios fiscais de cariz temporário a novos empreendimentos ligados à fileira da lã,
localizados em zonas de baixa densidade;
c) Preferência pela produção nacional nos concursos públicos que envolvam materiais
têxteis de origem animal.
2. Promova a valorização da lã nacional como produto de excelência, através:
a) Da criação de um selo “Lã 100% Portuguesa” com apoio à certificação e ao marketing
internacional;
b) Do estabelecimento de p arcerias com o setor têxtil de luxo, design de moda e
exportadores para dar valor à lã portuguesa, como já acontece com a lã merino noutros
países.
3. Garanta apoio direto aos produtores, através:
a) Da criação de um programa de valorização por kg de lã entregue para transformação,
garantindo um preço mínimo justo;
b) Da redução da carga burocrática e fiscal para os pequenos produtores de ovinos.
4. Incentive a integração destes produtos nos princípios da e conomia circular e
sustentabilidade, nomeadamente através:
a) Da integração da lã na construção ecológica, isolamento e agricultura regenerativa
(como o mulch);
b) Integração da lã em programas escolares, de turismo rural e indústrias criativas como
produto identitário português.
4
Palácio de São Bento, 23 de julho de 2025
Os deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
Pedro Pinto - Pedro dos Santos Frazão - João Graça – João Lopes Aleixo – Ana Martins –
Ricardo Moreira – João Ribeiro
Abrir texto oficial