Documento integral
1
Projecto de resolução n.º 123/XVII/1ª
Recomenda ao Governo o reconhecimento do Saara Ocidental como território soberano
do Reino de Marrocos
Exposição de motivos
Outrora território espanhol, o Saara Ocidental foi abandonado por Madrid em 1975. A
evacuação, ocorrida no contexto da Marcha Verde, protesto multitudinário de centenas de
milhares de civis marroquinos contra a constituição naquele território de um Estado
independente, culminou, numa primeira fase, na cedência do Saara ao Reino de Marrocos e
à República Islâmica da Mauritânia. Após a retirada mauritana, em 1979, a maior parte do
território foi deixada sob o controlo de Rabat. Persiste desde então a sua pre sença de facto
naquela região desértica, contestada, todavia, pelas reivindicações independentistas da
organização que reclama a representação do povo saharaui, a Frente Polisário. A Organização
das Nações Unidas considera o Saara um território não -autónomo cuja descolonização - por
Marrocos - se encontra ainda por realizar.
Pela sua parte, Portugal mantém uma posição ambígua sobre o diferendo, afirmando
simultaneamente subscrever a autodeterminação saharaui, o referendo popular reclamado
pela Frente Polis ário e negociações entre aquela e Rabat e, por outro lado, a proposta de
autonomia sob soberania marroquina apresentada pelo Reino em 2007. Até à data, Lisboa
não reconhece a legitimidade da soberania de Marrocos sobre o Saara ocidental e mantém,
pelo cont rário, contacto com as autoridades da autoproclamada ‘República Árabe Saaraui
Democrática’ (RASD), a máscara política da Frente Polisário. Com efeito, a RASD possui desde
há décadas um representante formal em Lisboa.
A postura dúbia de Portugal perante a principal prioridade externa do Reino de Marrocos - a
normalização do estatuto do Saara - constitui um entrave injustificável ao aprofundamento
da amizade luso-marroquina. O desconforto de Rabat com a posição de Lisboa ficou patente
quando, em Setembro de 2 023, o apoio português às operações de salvamento e apoio
2
humanitário decorrentes do grave terremoto que então se fez sentir foi preterido em favor
de países classificados como ‘amigos’. O significado diplomático daquela recusa foi, então,
pouco debatido em Portugal. Porém, em França, ela foi entendida como protesto pela política
ambivalente prosseguida à data por Paris. 1 Em resposta a esse atrito, França tomou, em
Agosto de 2024, a decisão sensata de aceitar a marrocanidade do Saara e o plano de
autonomia proposto por Rabat como único caminho para a paz.
O movimento no sentido do reconhecimento do Saara marroquino tem vindo a ganhar força
nos últimos anos. Em 2019, a União das Comores tornou-se o primeiro Estado a inaugurar um
consulado em Laayoune, principal cidade das áreas controladas por Marrocos. Em Dezembro
de 2020, os Estados Unidos da América reconheceram também, formalmente, o território
como parte integral do Reino de Marrocos. Seguiu-se-lhe a abertura de um consulado norte-
americano na região - desta feita, na cidade de Dakhla (antiga Vila Cisneros). Em Março de
2022, a potência administrante formal, o Reino de Espanha, pôs fim à sua política tradicional
e passou, também, a entender o Saara como território marroquino. O Estado de Israel seguiu-
o em Julho de 2023; o Reino Unido, sob um governo trabalhista, em Junho de 2025.
A actual política portuguesa é, pois, de um anacronismo sem sentido. O processo de
normalização internacional do estatuto do Saara como parcela do Reino de Marrocos já teve
início e é irreversível. Ao recusar o pleno reconhecimento, Portugal afasta-se de um consenso
crescente, quer na Europa Ocidental, quer no Ocidente mais alargado. Pior, insere na relação
luso-marroquina um motivo de atrito desnecessário e altamente atentatório d o interesse
nacional. Mais que o nosso segundo vizinho - Lisboa dista pouco mais de Rabat que de Madrid
-, Marrocos é um amigo histórico e imprescindível. Manter com ele os melhores laços de
parceria e confiança só pode ser entendido como um objectivo estr atégico permanente e
crucial do Estado.
Perante o exposto, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os
Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1 https://pt.euronews.com/2023/09/11/marrocos-exclui-franca-de-ajuda-internacional-apos-sismo
3
-
- Reconheça de imediato a soberania do Reino de Marrocos sobre o território do Saara
Ocidental e cesse toda a forma de contacto com a autoproclamada ‘República Árabe
Saaraui Democrática’ (Frente Polisário), exortando -a a depor as armas e a participar
com Rabat num processo negocial puramente pacífico.
Palácio de São Bento, 1 de julho de 2025
Os Deputados do Grupo Parlamentar do Partido CHEGA,
Pedro Pinto – Ricardo Dias Pinto – João Tilly – Pedro Correia – Diogo Pacheco de Amorim –
Manuel Magno
Abrir texto oficial