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Projeto de Resolução n.º 173/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a utilização dos instrumentos financeiros europeus do
“Plano ReArm Europe/Readiness 2030” para a aquisição de grandes sistemas de
armas, fora do âmbito da Lei de Programação Militar
Exposição de motivos
A modernização das Forças Armadas constitui um imperativo incontornável para o
Estado português, especialmente no atual contexto de crescente instabilidade
geopolítica internacional e de mutação das ameaças à segurança global, regional e
nacional. Neste sentido, os grandes sistemas de armas, designadamente os caças de 5.ª
geração, as mais recentes classes de fragatas e os sistemas de defesa antiaérea de médio
e longo alcance, assumem-se como pilares essenciais na garantia da soberania nacional,
integridade do território e a salvaguarda dos interesses vitais de Portugal.
Num quadro internacional marcado pelo ressurgimento de ameaças convencionais e
híbridas, bem como pelo agravamento da conjuntura geopolítica europeia, a capacidade
de resposta e de dissuasão das Forças Armadas nacionais depende, em larga medida, do
acesso a equipamentos e tecnologias de ponta, capazes de assegurar uma defesa
credível e eficaz. Estes sistemas não só reforçam o dispositivo militar nacional, como
potenciam a interoperabi lidade com os aliados da NATO e da União Europeia, sendo
condição indispensável para o cumprimento das obrigações decorrentes dos
compromissos internacionais assumidos por Portugal, tanto no seio da Aliança Atlântica
como no quadro da Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) da União Europeia.
A aquisição e integração de grandes sistemas de armas representa, assim, uma opção
determinante para a afirmação de Portugal enquanto membro de pleno direito da
comunidade internacional, comprometido com a defesa d a paz, da estabilidade e da
ordem internacional assente em regras. Só através de uma Política de Defesa dotada de
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meios modernos e tecnologicamente avançados será possível garantir não apenas a
segurança nacional, mas também contribuir de forma efetiva para os esforços coletivos
de seguranças e defesa no espaço euro-atlântico.
Entre os grandes sistemas de armas cuja substituição/aquisição são imperativos para a
salvaguarda da Defesa Nacional e para o cumprimento dos compromissos internacionais
de Portugal, destacam-se as fragatas da Marinha, todas com mais de 30 anos de serviço1
e, de forma particularmente crítica, a capacidade nacional de defesa antiaérea de médio
(MRAD – Medium Range Air Defence) e longo alcance (LRAD – Long Range Air Defence).
Apesar das recentes modernizações de que foram alvo, as fragatas atualmente ao
serviço, pertencentes às classes Vasco da Gama e Bartolomeu Dias, revelam sérias
limitações para operar em conflitos de alta intensidade, sobretudo devido à sua limitada
capacidade no que diz respeito à defesa antiaérea, o que compromete a sobrevivência
do navio e a proteção das forças e infraestruturas nacionais e aliadas em ambientes de
elevada ameaça. Esta insuficiência reduz drasticamente o contributo nacional para
operações conjuntas e a capacidade de resposta perante ameaças modernas,
nomeadamente ataques de saturação por mísseis convencionais, de cruzeiro ou mesmo
balísticos.
A nova geração de fragatas polivalentes, como a classe FREMM, em operação em várias
marinhas europeias, e a fu tura classe F -110, representa o atual padrão internacional,
conjugando sistemas de defesa antiaérea de área, sensores e radares de última geração,
capacidades furtivas e elevada interoperabilidade. Estes navios asseguram não só a
proteção eficaz de forças navais, como também podem reforçar, em situações de crise,
a defesa antiaérea de cidades costeiras e infraestruturas críticas, cenário que as fragatas
nacionais atualmente ao serviço, pela sua configuração e antiguidade, não conseguem
garantir.
Por outro l ado, Portugal não dispõe, presentemente, de sistemas de defesa antiaérea
de médio e longo alcance, não existindo praticamente qualquer capacidade para
1 https://www.marinha.pt/pt/os_meios
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proteger eficazmente o território nacional contra eventuais ataques com mísseis, uma
lacuna que se revela insustentável perante a evolução deste tipo de ameaças no atual
contexto internacional.
Neste sentido, a recente adesão de Portugal à iniciativa European Sky Shield 2,
promovida pela Alemanha, insere -se no esforço europeu para criar uma defesa aérea
multinacional forte e articulada, baseada na aquisição conjunta de sistemas como o IRIS-
T SLM, Patriot e Arrow. Este compromisso reforça a necessidade de investir, sem
demoras, em capacidades antiaéreas modernas que permitam a Portugal cumprir as
suas responsabilidades, garantir a segurança do seu território e acompanhar a evolução
tecnológica dos seus aliados.
Subsiste ainda a necessidade de renovar a componente aérea de combate, através da
aquisição de caças de 5.ª geração3, para garantir a plena operacionalidade e a dissuasão
nacional. Contudo, no atual quadro de oportunidades oferecido pelos instrumentos
financeiros europeus, a prioridade imediata e viável recai sobre a substituição das
fragatas e o estabelecimento de uma verdadeira capacidade nacional de def esa
antiaérea.
A Lei de Programação Militar (LPM) constitui o principal instrumento de planeamento
plurianual do investimento público em armamento e equipamento das Forças Armadas
Portuguesas, fixando as prioridades estratégicas e os montantes globais de despesa para
o setor da Defesa até 2034. A atual LPM prevê um investimento total de 5.570 milhões
de euros, valor integralmente dependente do Orçamento do Estado e de receitas
próprias do Ministério da Defesa Nacional.
Apesar do seu caráter estruturante, a LPM enfrenta constrangimentos financeiros e
temporais severos: o montante global disponível é manifestamente insuficiente para
acomodar, sem comprometer o restante planeamento e modernização, a aquisição de
2 https://eco.sapo.pt/2025/02/19/portugal-adere-a-iniciativa-para-o-escudo-antimissil-europeu/
3 https://observador.pt/2024/05/17/portugal-podera-ter-de-gastar-5-mil-milhoes-de-euros-em-avioes-
f-35-sob-pena-de-perder-soberania-aerea/
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grandes sistemas de armas, como fragatas de nova geração ou sistemas integrados de
defesa antiaérea de médio e longo alcance. A inclusão de projetos desta envergadura
absorveria, por si só, a quase totalidade das dotações previstas, inviabilizando outros
investimentos igualmente essenciais à operacionali dade e sustentabilidade das Forças
Armadas.
Assim, a opção de retirar estes grandes programas estratégicos do âmbito da LPM não
desvirtua o seu espírito: pelo contrário, preserva a coerência do planeamento nacional,
permitindo que a LPM continue a garantira modernização faseada e equilibrada de todo
o dispositivo militar, ao passo que a aquisição dos grandes sistemas críticos é assegurada
por mecanismos financeiros extraordinários de âmbito nacional e europeu, mais
adequados à sua natureza e dimensão.
No quadro europeu, a Comissão Europeia lançou, em março de 2025, o Plano ReArm
Europe/Readiness 2030 4, com o objetivo de impulsionar a capacidade de defesa dos
Estados-Membros, mobilizando mais de 800 mil milhões de euros em investimento
através de novos instr umentos financeiros, maior flexibilidade orçamental nacional e
reforço da cooperação industrial.
Entre estes instrumentos, destaca -se o SAFE – Instrumento de Ação para a Segurança
da Europa5, aprovado pelo Conselho da União Europeia, que disponibiliza até 150 mil
milhões de euros em empréstimos de longo prazo, com condições particularmente
favoráveis, para a contratação conjunta de equipamentos de defesa. Para além da
isenção de IVA nas aquisições elegíveis, o SAFE contempla prazos de reembolso
alargados (até 45 anos), incluindo um período de carência de até 10 anos para o início
do pagamento do capital, bem como taxas de juro competitivas e reduzidas exigências
iniciais de comparticipação nacional. O recurso a este instrumento permite, ainda, aliviar
a pressão sobre o Orçamento do Estado e acelerar a modernização das Forças Armadas,
4 https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/pt/qanda_25_790
5 https://www.consilium.europa.eu/pt/press/press-releases/2025/05/27/safe-council-adopts-150-
billion-boost-for-joint-procurement-on-european-security-and-defence/
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facilitando o acesso a capacidades críticas que, de outro modo, estariam fora do alcance
financeiro nacional.
Acresce que a contratação conjunta, promovida pelo SAFE, potencia ec onomias de
escala, reforça a interoperabilidade entre aliados europeus e assegura maior segurança
nas cadeias de abastecimento e produção.
O SAFE exige, regra geral, a participação de pelo menos dois Estados -Membros,
promove a preferência por produção euro peia e contempla mecanismos de exceção
para responder a situações de urgência. Em simultâneo, o plano europeu permite a
ativação de cláusulas de salvaguarda orçamental (escape ao défice), conferindo aos
Estados-Membros maior margem para investir na Defesa sem violar os compromissos
fiscais habituais. Estas condições inéditas constituem uma oportunidade sem paralelo
para a modernização das capacidades estratégicas nacionais.
Sem prejuízo da prioridade conferida aos instrumentos financeiros europeus, importa
garantir que, na seleção e aquisição de sistemas de armas, seja sempre salvaguardado
o interesse nacional, assegurando máxima flexibilidade estratégica e operacional. Tal
implica não excluir, a priori , opções extracomunitárias de comprovado mérito ou
relevância tecnológica, especialmente em áreas onde as soluções europeias ainda não
respondam plenamente às necessidades de Portugal.
Perante a evolução acelerada do contexto geopolítico internacional e das ameaças à
segurança europeia, torna -se imperativo que Portugal não desperdice a janela de
oportunidade aberta pelos novos instrumentos financeiros europeus, nomeadamente o
Plano ReArm Europe/Readiness 2030 e dentro deste, o SAFE.
A dimensão inédita dos apoios disponíveis, aliada à flexibilidade orçamental e à
possibilidade de contratação conjunta, permite, pela primeira vez, ultrapassar as
limitações estruturais do investimento nacional na Defesa, sem sacrificar o equilíbrio do
planeamento militar a longo prazo.
O reforço das capacidades estratégicas nacionais, em particular nas áreas naval e de
defesa antiaérea, é condição essencial para o cumprimento dos compromissos
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internacionais de Portugal, a proteção do território e o contributo para a segurança
coletiva. Adiar decisões estruturantes nesta matéria significaria não só agravar o défice
tecnológico, como comprometer a posição de Portugal no seio da Aliança Atlântica e da
União Europeia.
Por isso, impõe -se uma decisão célere, informada e ancorada na defesa do in teresse
nacional, garantindo que Portugal aproveita plenamente as condições excepcionais
criadas pelo novo enquadramento europeu e responde, com responsabilidade e
ambição, aos desafios de segurança do presente e do futuro.
Assim, pelo exposto e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentalmente
aplicáveis, os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo
que:
1. Utilize os instrumentos financeiros europeus previstos no “Plano ReArm
Europe/Readiness 2030”, designadamente o SAFE – Instrumento de Ação para a
Segurança da Europa, para a aquisição de grandes sistemas de armas, nomeadamente
fragatas e sistemas de defesa antiaérea de médio e longo alcance, fora do âmbito da
Lei de Programação Militar.
2. Assegure, na seleção dos sistemas a adquirir, a plena defesa do interesse nacional e
a máxima flexibilidade estratégica, incluindo o recurso a mecanismos financeiros
complementares, sempre que tal seja necessário para garantir a obtenção de
capacidades crít icas, independentemente da origem geográfica dos equipamentos,
desde que respeitados os critérios de elegibilidade previstos nos instrumentos
europeus.
3. Garanta a execução célere dos processos de candidatura e aquisição, promovendo
a articulação com outr os Estados -Membros, em especial no quadro das iniciativas
europeias de defesa aérea e marítima, de modo a reforçar a interoperabilidade e o
contributo nacional para a segurança coletiva.
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Palácio de São Bento, 7 de Julho de 2025
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
Pedro Pinto - Nuno Simões de Melo - Bernardo Pessanha - Sandra Ribeiro - Raul Melo
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