Documento integral
Projeto de Resolução n.º 276/XVII/1ª
Programa Nacional de Reabilitação e Eficiência Energética dos Edifícios Escolares,
com garantia de conforto térmico, qualidade do ar e eficiência energética
Exposição de motivos
A escola é um dos espaços nucleares da vida nacional. É nela que se transmitem os
valores, que se preserva a memória coletiva e que se prepara o futuro de Portugal. Mais
do que um edifício funcional, a escola é um símbolo de identidade e de continuidade,
um local onde o Estado cumpre a sua promessa de igualdade de oportunidades. Por isso,
a escola não pode ser entendida apenas como um instrumento de ensino: é, antes de
mais, uma instituição civilizacional.
Ora, não há verdadeira igualdade de oportunidades sem condições materiais dignas. O
conforto térmico, a qualidade do ar, a salubridade e a eficiência energética não são
meros detalhes, mas sim condições estruturantes para que a aprendizagem decorra de
forma plena. Uma criança que aprende num espaço insalubre, gélido no inverno ou
sufocante no verão, não está em igualdade de circunstâncias com outra que estude em
ambiente saudável e equilibrado. O princípio constitucional da igualdade, tantas vezes
invocado, não pode conviver com escolas em que os alunos se veem obrigados a usar
casacos e gorros para assistir às aulas, ou em que professores adoecem por trabalharem
diariamente em salas sem ventilação.
Portugal falhou repetidamente nesta matéria. O programa da Parque Escolar, iniciado
em 2007, representou uma oportunidade perdida. Limitado às escola s secundárias,
dispendioso e mal gerido, deixou de fora milhares de estabelecimentos do ensino
básico, precisamente aqueles que recebem as crianças mais novas. O Tribunal de
Contas, ao longo dos anos, através de relatórios à Parque Escolar, não deixa marge m
para dúvidas: houve derrapagens financeiras, falhas de planeamento e ausência de
monitorização séria do impacto das intervenções.1
1 Tribunal de Contas deteta pagamentos ilegais em obras da Parque Escolar
O resultado é que, em 2025, Portugal continua a conviver com uma realidade indigna.
Alunos a estudar em contentores improvi sados, escolas com infiltrações e humidade,
caixilharias degradadas, sistemas de climatização inexistentes. Uma escola que não é
digna para os alunos, não é digna para os professores e não é digna para o país.
A realidade das escolas portuguesas tem sido amplamente denunciada pela comunidade
educativa e confirmada por múltiplos episódios tornados públicos nos últimos anos. Há
estabelecimentos de ensino em que a falta de aquecimento obriga alunos a levar
cobertores para as aulas em pleno inverno, como aconte ceu na Escola Básica e
Secundária de Oliveira de Frades, onde dezenas de salas ficaram sem condições mínimas
de conforto térmico. 2 Em Loures, na Escola Secundária da Portela, professores, pais e
alunos têm protestado de forma reiterada contra infiltrações, humidade e frio nas salas
de aula, denunciando um estado de degradação que compromete a aprendizagem. 3
Também no sul do país, em Beja, pais e alunos da Escola Básica Santiago Maior
manifestaram-se contra a falta de climatização, alertando para temperatura s elevadas
nas salas e para o impacto direto que estas condições têm no conforto e na
concentração dos mais novos.4
As consequências não se limitam ao bem -estar imediato, refletem -se no rendimento
escolar, na saúde pública e na perpetuação das desigualdades. Relatórios internacionais
de referência têm vindo a evidenciar esta realidade de forma consistente. O Education
at a Glance , publicação anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Económico (OCDE), incluindo a sua mais recente edição de 20 25, sublinha que a
qualidade das infraestruturas escolares e das condições de ensino constitui um fator
determinante para o sucesso educativo e para a redução das desigualdades. 5 A
degradação de grande parte do parque escolar português traduz -se, assim, em
2 Falta de aquecimento obriga alunos a levar cobertores para a escola - SIC Notícias
3 "A escola precisa de obras a vários níveis": estudantes e pais em protesto pela falta de condições em
Escola Secundária da Portela - SIC Notícias
4 Pais e crianças em Beja manifestam-se pela falta de climatização na escola - Portugal - Correio da
Manhã
5 PIAAC. Proficiency in key information-processing skills among adults: Education at a Glance 2025 |
OECD
desigualdade social, em desvantagem acumulada e em falha do Estado no cumprimento
da sua missão fundamental de assegurar a igualdade de oportunidades.
Há ainda uma dimensão económica que não pode ser ignorada. O desperdício
energético no parque escolar é real e persistente, traduzindo -se em custos elevados e
contínuos para o erário. Em demasiados estabelecimentos, a ausência de uma
reabilitação consistente, com isolamento adequado, caixilharias eficazes e sistemas de
ventilação e climatização ajustados, r esulta em consumos desnecessariamente altos e
em faturas que pesam todos os meses nos orçamentos das escolas, dos municípios e do
Estado. É dinheiro que se perde por ineficiência, quando deveria estar ao serviço da
qualidade pedagógica e do apoio às famíli as. Medidas simples e tecnicamente
consensuais, sempre que aplicadas de forma coerente e planeada, permitem reduzir
significativamente os consumos e libertar recursos para o que é verdadeiramente
essencial: mais professores nas escolas, melhores condições de trabalho e
aprendizagem, maior capacidade de resposta social.
Enquanto Portugal hesita, outros países tratam a reabilitação escolar como prioridade
de Estado. Existem exemplos europeus próximos em que a modernização do parque
escolar foi assumida como v etor estratégico, com programas estáveis, objetivos claros
e financiamento adequado. A experiência comparada mostra que, quando se aposta na
requalificação integral dos edifícios, substituindo a lógica do remendo por uma lógica de
planeamento, os resultado s são visíveis: ambientes mais saudáveis, maior conforto,
menor despesa corrente e reforço da confiança das comunidades educativas. Também
no norte da Europa se consolidou a ideia de escola enquanto laboratório de
sustentabilidade e eficiência, integrando soluções passivas de conforto, ventilação
eficiente e tecnologias adequadas à realidade de cada território. Não se trata de luxo
nem de cair na agenda eco -marxista: trata -se de racionalidade, de respeito pelos
contribuintes e de cuidado com as novas gerações.
Neste confronto, Portugal surge como exceção pela negativa não por falta de
competência técnica ou de capacidade empresarial, nem por ausência de instrumentos
financeiros, mas por falta de decisão política e de continuidade estratégica. Durante
anos, preferiu-se a medida avulsa ao plano, a inauguração mediática à obra estrutural,
a cosmética à responsabilidade. O resultado é o que todos conhecem: escolas onde se
continua a aprender com frio no inverno e calor no verão, ar viciado, manutenção
atrasada e uma fatura energética que não para de crescer. É um círculo vicioso que
penaliza alunos, professores e contribuintes, e que corrói a credibilidade do Estado.
É por isso que se impõe uma mudança de paradigma. O CHEGA defende a criação de um
Programa Nacional de Reabilitação e Eficiência Energética das Escolas, assente em três
pilares simples e inequívocos. Primeiro, o diagnóstico rigoroso: sem conhecer em
detalhe o estado de cada edifício, não há política séria. Segundo, a intervenção faseada
e integrada: co meçar pelas situações mais críticas, privilegiar soluções passivas e
duradouras — isolamento, caixilharias, ventilação adequada, proteção solar — e apenas
depois complementar com tecnologias ativas e produção descentralizada quando faça
sentido. Terceiro, a monitorização transparente: cada intervenção deve ser
acompanhada de indicadores claros de conforto e de consumo, com resultados públicos
e compreensíveis por toda a comunidade educativa.
Esta não é uma política de engenharia, é uma política de dignidade . Um país que não
assegura condições mínimas nos seus estabelecimentos de ensino falha no mais
elementar. Um país que continua a desperdiçar recursos em energia ineficiente,
enquanto mantém alunos e professores em ambientes adversos, falha na racionalidade
económica. Um país que permite que crianças cresçam em desvantagem por causa do
edifício onde estudam falha no dever de coesão social e intergeracional. Urge agir. Cada
ano que passa sem reabilitar é mais uma geração prejudicada. Cada inverno em salas
gélidas, cada verão em salas sufocantes, cada euro gasto sem necessidade são sinais de
um Estado que adia o que é inadiável.
A Assembleia da República deve, por isso, assumir a responsabilidade de inverter este
ciclo. Não basta proclamar prioridades, é precis o concretizá-las com calendário, meios
e escrutínio. Não basta anunciar programas, é preciso executá -los com rigor e
continuidade. O CHEGA apresenta esta iniciativa como um apelo à seriedade e à
responsabilidade: porque falhar com as escolas é falhar com o futuro de Portugal, e
porque cada escola reabilitada representa uma vitória tangível — para os alunos que aí
aprendem, para os professores que aí trabalham e para a Nação que aí deposita a sua
esperança.
Assim, ao abrigo das disposições procedimentais e regimentais aplicáveis, os Deputados
do Grupo Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1. Proceda à realização de um levantamento nacional sobre o estado de
conservação, conforto térmico e qualidade do ar das escolas públicas do ensino
básico e secundário.
2. Elabore e implemente um Programa Nacional de Reabilitação e Eficiência
Energética das Escolas, com plano faseado de intervenções, começando pelos
estabelecimentos em pior estado.
3. Garanta que as intervenções privilegiam soluções de eficiência pa ssiva — como
isolamento, caixilharias adequadas, ventilação natural e proteção solar — antes
da instalação de equipamentos ativos de climatização.
4. Estabeleça metas claras de redução dos consumos energéticos, nomeadamente
através da instalação de painéis so lares, e de melhoria da qualidade ambiental
nas escolas intervencionadas.
5. Publique, anualmente, um relatório público sobre a execução do Programa,
identificando escolas abrangidas, investimentos realizados e resultados
alcançados.
6. Promova a participação da comunidade educativa na monitorização e gestão
eficiente das condições escolares, reforçando a literacia energética e ambiental.
7. Assegure que as intervenções contribuem também para a dinamização das
economias locais, incentivando a participação de pequena s e médias empresas
regionais nas obras de reabilitação.
Palácio de São Bento, 12 de setembro de 2025
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
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