Documento integral
Projeto de Resolução n.º 122/XVII/1ª
Recomenda ao Governo que adote medidas que promovam a relação das instituições de
ensino superior com o mercado de trabalho
Exposição de motivos
A transição do mundo académico para o mercado de trabalho é um processo profundamente
estruturante e de extrema importância na vida de um jovem. Esta é uma fase fundamental na
trajetória dos jovens rumo à integração plena na sociedade e o desfecho natural do processo
de mudança para a vida adulta. Este percurso envolve a passa gem do estatuto de estudante
para o de trabalhador com a expectativa de que tal mudança permita o acesso a uma
ocupação estável e conquista da independência económica.
Os estabelecimentos de ensino profissional, universitário e politécnico, atuando como
mecanismos de socialização que preparam os jovens para os papeis que irão desempenhar no
mercado de trabalho, contribuem para a estabilidade e desenvolvimento individual, familiar
e societária. No entanto, este processo não ocorre em abstrato: está também co ndicionado
por variáveis como o desempenho individual, a orientação vocacional recebida, o curso
frequentado e a conjuntura económica.
A crescente desconexão entre a formação académica e as exigências do mercado de trabalho
tem gerado, em Portugal, taxas preocupantes de desemprego e subemprego entre jovens
licenciados e diplomados 1. Simultaneamente, muitos setores da economia nacional
enfrentam escassez de mão de obra qualificada, especialmente em áreas técnicas e
tecnológicas. Não sendo este, aliás, um fe nómeno recente a comunidade académica e
científica tem alertado, desde 2008 - inicialmente justificada pela crise financeira do subprime,
para a crescente emigração de jovens com elevados níveis de instrução, de um país, para
outro, geralmente em busca de melhores salários ou condições de vida (vulgarmente
1 “Haverá cerca de 240 mil jovens diplomados há menos de três anos, com idades entre 20 e 34 anos, que estão
sem trabalho. Em 2003, Portugal era o 11.º melhor da Europa neste ranking; hoje, é o 9.º pior, de acordo com
dados oficiais.” Fonte: Diário de Notícias; link: https://www.dn.pt/economia/mercado-de-trabalho-rejeita-18-
dos-seus-recem-licenciados-um-dos-piores-registos-da-
ue#:~:text=Mercado%20de%20trabalho%20rejeita%2018%25%20dos%20seus,anos%20que%20terminaram%2
0este%20n%C3%ADvel%20de%20ensino
designado de “Fuga de Cérebros”). A este propósito importa notar que as consequências
diretas da “Fuga de Cérebros” de Portugal para a Europa – e para o mundo – são pesadas,
desde logo “no que diz respeit o à não utilização do investimento do Estado e das famílias 2”,
mas também nos planos económico, demográfico e institucional. Por outro lado, existe ainda
uma consequência nas expectativas criadas nas famílias e nos potenciais candidatos ao Ensino
Superior “por verificarem que o diploma perdeu o valor no mercado de trabalho interno” 3, e
que “é intensificada pela ideia de que as pessoas têm de sair do país para verem realizados os
seus objetivos de realização profissional e de motivação humana que os levou a estudar”4.
No plano institucional, as universidades e demais instituições de ensino superior têm uma
obrigação formal e legal em monitorizar e reportar indicadores sobre a transição dos
diplomados para o mercado de trabalho. Porém, o enquadramento jurídico vigente apenas
prevê a parametrização de avaliação de qualidade relativamente à atuação dos
estabelecimentos de ensino superior no que diz respeito à inserção dos diplomados no
mercado de trabalho5, e a publicação de relatórios anuais acerca da empregabilidade dos seus
diplomados6.
Feitas estas considerações, constata -se que subsiste um desajuste significativo entre os
programas, currículos e competências desenvolvidos no ensino superior e as necessidades
reais do mercado de trabalho, bem como as vocações e expectativas dos jovens.
Acreditamos que o sistema de ensino deve estar ao serviço do país e dos seus cidadãos,
promovendo a valorização do mérito, o estímulo à produtividade e o aproveitamento das
capacidades individuais de cada jovem. É imperioso garantir que as vocações e talentos sejam
orientados para percursos que correspondam às reais necessidades do tecido produtivo
nacional.
Urge, pois, repensar a ligação entre estes sistemas de ensino e o mundo empresarial,
apostando numa via de cooperação efetiva e continuada entre os estabelecimentos de ensino
2 https://noticias.uc.pt/artigos/historias-para-refletir-sobre-a-fuga-de-cerebros/
3 idem
4 idem
5 De acordo com a Lei n.º 38/2007, de 16 de agosto.
6 De acordo com a Lei n.º 62/2007, de 10 de setembro.
profissional, os institutos politécnicos e as universidades com empresas, associações, e
estruturas regionais de desenvolvimento económico.
Assim, nos termos constitucionais e regimentalmente aplicáveis, os Deputados do Grupo
Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1 – Reforce os mecanismos de articulação entre os estabelecimentos de ensino profissional,
os institutos politécnicos, as universidades e o tecido empresarial nacional, nomeadamente
através de protocolos de estágio, parcerias formativas, projetos conjuntos de inovação e
participação ativa das empresas na definição de currículos.
2 – Crie, em articulação com cada Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional
(CCDR) e com as associações empresariais regionais, registos de competências e necessidades
do mercado, que forneçam informação atualizada sobre perfis profissionais em falta e
tendências de empregabilidade.
3 – Estimule a reformulação curricular dos cursos profissionais e superiores, com enfoque nas
áreas técnicas e tecnológicas, garantindo que os programas formativos estejam alinhados com
as exigências práticas do setor produtivo.
4 – Aposte na valorização do ensino profissional e técnico, combatendo o estigma que ainda
lhe está associado e promovendo campanhas de informação junto das famílias e dos
estudantes.
5 – Promova a participação das empresas na construção de programas e currículos, bem como
no desenvolvimento de quadros de competências.
Palácio de São Bento, 1 de julho de 2025
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
Pedro Pinto – Maria José Aguiar – Manuela Tender – Gabriel Mithá Ribeiro – Rui Cardoso –
José de Carvalho
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