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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 801/XVII/1.ª
Pela taxação justa dos milionários e dos multimilionários
Exposição de motivos
Portugal é um dos países com maior entrada líquida de milionários em 2025, sendo
apresentado como um dos países ideais para que os milionários evitem impostos, ao
arrepio do que se passa com os trabalhadores. Simultaneamente, a banca e as grandes
empresas cotadas em Lisboa têm tido lucros como nunca.
Em 2025, a Caixa Geral de Depósitos teve um lucro de €1904 milhões, o BCP lucrou 1018,
o Santander Totta 964 milhões e o Novo Banco 828 milhões. Empresas cotadas na Bolsa
de Lisboa nos setores da energia e da distribuição também registaram um crescimento
assinalável dos lucros. A EDP registou um lucro de €1.150 milhões, uma subida de 44%
face ao ano anterior. O lucro do Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce/Biedronka) subiu
8% para os €646 milhões. A REN teve um lucro líquido de €160 milhões (+4,8%),
beneficiando da aceleração dos investimentos na transição energética. A GALP teve um
resultado líquido recorde de 1.154 milhões de euros (+20% em relação a 2024).
Esta realidade contrasta com as dificuldades de quem vive do seu trabalho e é a face
nacional de uma disparidade global na apropriação da riqueza. O aumento da
produtividade, riqueza produzida por quem trabalha, tem sido apropriado por uma
minoria global. Atualmente, o capital acumula uma riqueza seis vezes superior ao
rendimento global. As assimetrias produzidas são gritantes: menos de 60 mil
multimilionários, os 0,001% mais ricos do mundo, controlam três vezes mais riqueza do
que metade da humanidade.
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Duas dezenas de multimilionários têm uma fortuna superior ao Produto Interno Bruto
anual da França. Elon Musk tem, sozinho, uma fortuna superior ao Produto Interno Bruto
de países como a Suécia, a Irlanda ou a Bélgica. O poder destes indivíduos é tal que lhes
permite apropriar-se de setores estratégicos e manipular a política nacional e
internacional.
A justiça fiscal é fundamental para pôr a pagar quem mais lucra com as guerras, com a
subida dos preços e com a submissão da maioria dos trabalhadores a baixos salários. Mas
os milionários e os multimilionários são exímios na arte de fugir à tributação. Furtam-se
às suas responsabilidades perante as sociedades onde a riqueza é produzida.
Uma das muitas vias de evasão fiscal é o recurso aos ditos “novos ativos”. A explosão de
ativos como a Bitcoin, construídos para garantir o anonimato dos seus utilizadores, serve
a especulação financeira, mas também o branqueamento de capitais, financiamento do
terrorismo e outras atividades criminosas.
As Diretivas da União Europeia 2023/2226, de 17 de outubro de 2023, e 2025/872, de 14
de abril de 2025, que o Governo pretende transpor e tornar operacionais através da
Proposta de Lei 64/XVII/1 visam: eliminar o anonimato fiscal nas transações de Bitcoin,
NFTs e outros ativos digitais, operacionalizar a troca de dados sobre o Imposto Mínimo
Global de 15%, harmonizar as regras portuguesas com as da UE e OCDE para evitar
"fugas" de capital e assegurar que uma tributação equivalente entre o que chama “novos
meios de investimento” e os “meios tradicionais”.
É necessário arranjar forma de garantir que os milionários e os multimilionários pagam
os impostos devidos. Neste sentido, além do quadro legislativo, é também necessário
reforçar os meios de combate à evasão fiscal e ao branqueamento de capitais. Esta é uma
responsabilidade que deve ser assumida por todos os países.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação
Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
Reforce os meios da Autoridade Tributária e Aduaneira para que tenha as condições
adequadas para assegurar que os milionários e os multimilionários pagam o Imposto
Mínimo Global e reforce os meios de investigação do Ministério Público e dos órgãos de
polícia criminal para combater a evasão fiscal e o branqueamento de capitais.
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Assembleia da República, 31 de março de 2026.
O Deputado do Bloco de Esquerda,
Fabian Figueiredo
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