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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 827/XVII/1.ª
Promover o tratamento de infeções resistentes aos antibióticos
As infeções por bactérias resistentes a antibióticos constituem um grave problema de
saúde pública. Portugal é um dos países europeus com maior prevalência deste tipo de
infeções, para as quais é necessário encontrar tratamentos que sejam eficazes.
O uso de bacteriófagos, também denominados fagos, para tratar doenças bacterianas
infecciosas tem sido uma linha promissora de investigação médica. A EMA - Agência
Europeia de Medicamentos já reconhece o uso de fagos como medicamento. No entanto,
ao tratar os fagos pela ótica do medicamento biológico, exige um processo de aprovação
moroso e padronizado para os fármacos comuns. Este tipo de enquadramento inviabiliza
o uso dos fagos de forma personalizada, ou seja, adaptada ao paciente.
De acordo com a investigação de especialistas em tecnologia molecular e celular, a terapia
personalizada com bacteriófagos apresenta resultados muito superiores à sua aplicação
através de modelos industriais (1). Assim, a investigação revela que a produção de
coquetéis genéricos e a consequente aplicação de testes clínicos convencionais não são a
via mais adequada para a aplicação da fagoterapia no combate às infecções
bacteriológicas multirresistentes a antibióticos.
A terapia personalizada com bacteriófagos tem sido praticada na Bélgica, tendo por
referência o Hospital Militar Rainha Astrid. Esta unidade hospitalar funciona como base
de dados de fagos, procede à sua caracterização e sequenciação, exerce o controlo de
qualidade e define os padrões de pureza. No modelo belga, os médicos fazem a prescrição
detalhada do preparado de fagos a administrar a um paciente específico. A preparação
dessa fórmula magistral é realizada na farmácia hospitalar. Desta forma, o tratamento é
personalizado, mais eficaz e com custos económicos mais baixos. Em suma, a chamada via
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belga, ou seja, considerar os fagos como ingrediente farmacêutico para preparação
magistral, abriu a porta a tratamentos mais eficazes e mais eficientes das infeções
resistentes a antibióticos.
Em Portugal, uma parceria entre o Centro de Engenharia Biológica da Universidade do
Minho e o Hospital Militar Rainha Astrid já possibilitou o tratamento de alguns pacientes.
Mas não só há mais pedidos ainda sem resposta, como também o tratamento é encarecido
devido ao transporte. É por isso positivo que a Universidade do Minho esteja a trabalhar
para a criação do Laboratório de Produção de Fagos Terapêuticos. Acresce que a parceria
entre o centro de investigação português e o hospital belga contribuiu para que o
INFARMED - Autoridade Nacional do Medicamento decidisse autorizar o uso hospitalar
da terapia fágica em determinadas circunstâncias.
A "Implementação do Modelo Belga de Terapia Fágica em Portugal" é uma reivindicação
apresentada à Assembleia da República (Petição Nº 45/XVI/1) por 7871 cidadãs e
cidadãos, tendo como primeiras peticionárias Eda Alves, paciente com fibrose quística,
Clara Casimiro, paciente com discinesia ciliar primária, e Joana Azeredo, investigadora da
Universidade do Minho. Apesar de, como referido, alguns pacientes já terem tido acesso
aos primeiros tratamentos em Portugal, é necessário, para que estes não sejam tão caros
e possam chegar a mais pessoas, que haja um maior investimento.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação
Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
1 - Considerando os resultados do modelo belga de terapia fágica, implemente, através da
Direção-Geral de Saúde e em articulação com a comunidade científica, as práticas mais
adequadas ao combate às infeções resistentes aos antibióticos.
2 - Apoie a investigação científica sobre tratamentos de infeções resistentes aos
antibióticos.
3 - Apoie a criação de um banco nacional de fagos terapêuticos.
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Assembleia da República, 07 de abril de 2026.
O Deputado do Bloco de Esquerda,
Fabian Figueiredo
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Notas
1 - Pirnay, JP., Djebara, S., Steurs, G. et al. Personalized bacteriophage therapy outcomes
for 100 consecutive cases: a multicentre, multinational, retrospective observational
study. Nat Microbiol 9, 1434–1453 (2024). https://doi.org/10.1038/s41564-024-
01705-x
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