Documento integral
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Projecto de Resolução n.º 265/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que classifique o Cartel de los Soles como organização
terrorista internacional
Exposição de Motivos
O tráfico internacional de droga constitui, no presente contexto global, uma das mais
graves ameaças à segurança das nações, à estabilidade das instituições democráticas e
à coesão social das comunidades. Aliás, de acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas
do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), mais de 296 milhões de
pessoas já consumiram drogas, registando-se um aumento de 23 % em apenas dez anos.
Por sua vez, isto também reflete o crescimento do poder económico e logístico das redes
criminosas transnacionais.1
Entre os grupos criminosos que mais se têm destacado pe la sua dimensão, sofisticação
e violência está o denominado Cartel de los Soles, uma estrutura criminosa com origem
na República Bolivariana da Venezuela e ramificações transnacionais. Segundo a
Administração de Controlo de Drogas dos Estados Unidos da Amé rica (DEA), altos
responsáveis militares e políticos venezuelanos estão implicados na facilitação do tráfico
de cocaína através de corredores marítimos e aéreos, em coordenação com
organizações mafiosas internacionais.2
A atuação do Cartel de los Soles tem permitido a introdução sistemática de cocaína em
quantidades massivas no espaço europeu e, em particular, em território nacional. Assim,
e conforme reportado pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência
(EMCDDA) no Relatório Europeu sobre Dro gas, a Europa é hoje um dos principais
1 Ver, por exemplo: UNODC – World Drug Report 2023, United Nations Office on Drugs and Crime.
2 Ver, por exemplo: https://www.dea.gov/press -releases/2020/03/26/nicolas-maduro-moros-and-14-
current-and-former-venezuelan-officials
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destinos da cocaína produzida na América Latina, sendo os portos da Península Ibérica,
em especial Lisboa, Sines, Leixões e Algeciras, pontos estratégicos para a entrada desta
substância. Mais especificamente, estima -se que, apenas nos últimos cinco anos,
tenham entrado em Portugal mais de 40 toneladas de cocaína associadas a redes ligadas
ao Cartel de los Soles, enquanto, à escala europeia, a quantidade apreendida supera
largamente as 250 toneladas.3
Como é evidente, a presença contínua do Cartel de los Soles no circuito criminal europeu
coloca o Estado português numa posição de vulnerabilidade que exige resposta firme e
inadiável. Na mesma linha, torna -se claro que a sua caracterização como simples rede
de narcotráfic o é deveras insuficiente para captar a extensão e a gravidade da sua
atuação, a qual transcende de sobremaneira a mera criminalidade económica, mas
inscreve-se já na lógica própria do terrorismo internacional. Como sublinhou o
Departamento de Justiça dos E stados Unidos, ao acusar Nicolás Maduro e outros
dirigentes venezuelanos de narcoterrorismo, as operações do Cartel de los Soles não só
corroem a autoridade do Estado, minando a confiança dos cidadãos nas instituições,
mas também financiam redes de violênc ia armada e desestabilizam regiões inteiras,
servindo interesses geopolíticos adversos aos verdadeiros interesses dos povos dessas
regiões.4
Ciente disto, os Estados Unidos enviaram navios de combate, aeronaves de vigilância e
tropas adicionais para águas internacionais junto da costa da Venezuela, no âmbito de
uma das maiores operações militares antinarcóticos realizadas naquela região desde a
década de 1980. Segundo o presidente Donald Trump, objetivo da mesma é “proteger
o povo americano do flagelo morta l das drogas ilegais e eliminar a capacidade de
atuação de organizações ligadas ao regime de Maduro”.5
3 Ver, por exemplo: EMCDDA – European Drug Report 2023: Trends and Developments, Observatório
Europeu da Droga e da Toxicodependência.
4 Ver, por exemplo: U.S. Department of Justice – Press Release: Nicolás Maduro and 14 Current and Former
Venezuelan Officials Charged with Narco -Terrorism, Corruption, Drug Trafficking and Other Criminal
Charges, 26 de março de 2020.
5 Ver, por exemplo: https://www.reuters.com/world/americas/us -deploys-warships-near-venezuela-
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Neste contexto, existem poucas dúvidas de que o impacto humano, económico e social
do tráfico de droga, aliado ao financiamento de atividades violentas e subversivas,
aproximam o Cartel de los Soles do padrão de ameaça terrorista, justificando, por isso,
que o mesmo seja classificado e tratado como tal pelo Estado português, em
alinhamento com os princípios que estão consagrados no direito internacional e no
âmbito da indispensável salvaguarda da segurança nacional.
A Assembleia da República, consciente do seu papel constitucional na defesa da
soberania, da segurança e da integridade do Estado, e considerando a necessidade de
robustecer os instrumentos jurídicos e operacionais ao dispor das autoridades nacionais
e internacionais, não pode colocar -se à margem destas evidências, nem deixar de
considerar como imperativo sinalizar de forma clara a natureza terrorista desta
organização criminosa. Tal classificaçã o não só permitirá reforçar os mecanismos de
cooperação internacional, a partilha de informação e a coordenação policial e judicial,
mas também habilitará o Estado a recorrer a instrumentos jurídicos de exceção na
prevenção, combate e repressão das atividades desenvolvidas pelo cartel.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os deputados
do grupo parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1. Classifique formalmente o Cartel de los Soles como organização terrorista
internacional, reconhecendo a sua atuação como ameaça direta à segurança do
Estado português, à estabilidade da União Europeia e à ordem internacional, e
promovendo a inscrição desta designação nos mecanismos europeus e
internacionais de combate ao terrorismo.
2. Adote todas as medidas legislativas, diplomáticas e operacionais necessárias
para reforçar os instrumentos de prevenção, cooperação e repressão
relativamente às atividades deste cartel, assegurando que Portugal, enquanto
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Estado-membro da União Europeia e signatário de convenções internacionais, se
posiciona na linha da frente do combate ao narcoterrorismo transnacional.
Palácio de São Bento, 8 de Setembro de 2025
O Grupo Parlamentar do CHEGA
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