Projeto de Resolução n.º 988/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a criação de um programa nacional de levantamento, transferência e reabilitação de património público habitacional devoluto, com prioridade aos bairros do Estado abandonados
Exposição de Motivos
A crise da habitação em Portugal atingiu uma dimensão estrutural, caracterizada por escassez de oferta, preços incomportáveis e crescente exclusão habitacional de famílias trabalhadoras, jovens e idosos. Esta realidade coexiste, de forma paradoxal e politicamente inaceitável, com a existência de centenas de imóveis públicos devolutos, bairros inteiros abandonados e património habitacional do Estado sem qualquer função social reconhecida.
Entre estes exemplos encontra-se o caso recentemente trazido a público pelo Município de Azambuja, onde se encontram devolutos os antigos bairros prisionais de Vale de Judeus e as habitações agregadas ao Estabelecimento Prisional de Alcoentre, património do Estado que poderia responder, de forma imediata, à carência habitacional local. Aliás, a 9 de janeiro de 2026, o próprio presidente da Câmara Municipal, Silvino Lúcio, convidou formalmente o Ministro das Infraestruturas e Habitação a visitar estes imóveis, com vista à sua reabilitação e afetação a habitação a custos controlados.
Este caso não é excecional, mas, muito pelo contrário, revela uma falha sistémica do Estado português na gestão do seu património imobiliário. Na realidade, dados públicos mostram que, dos 717 imóveis do Estado identificados como devolutos ou sem utilidade, apenas 155 foram transferidos para as autarquias, desde 2019, sendo que a lista oficial destes imóveis não é atualizada desde março de 2022.
A isto acresce um vastíssimo património habitacional associado às grandes infraestruturas públicas do século XX, nomeadamente barragens, complexos hidroelétricos e polos industriais estatais. Bairros como os de Castelo do Bode, Picote, Paradela, Bouçã, Pisões, Cachão e tantos outros foram concebidos como verdadeiras vilas operárias, com escolas, centros de saúde, comércio e equipamentos coletivos. Hoje, muitos destes conjuntos encontram-se em estado de abandono, degradação ou subutilização, apesar de possuírem localização, infraestrutura e potencial para acolher famílias, jovens e projetos de repovoamento do interior.
Sem qualquer dúvida, trata-se de um património que pertence, direta ou indiretamente, ao Estado ou a empresas de capitais públicos, como a EDP, que desempenhou um papel estruturante na sua criação. A sua permanência ao abandono representa não apenas um desperdício económico, mas também uma violação do princípio da função social da propriedade pública e um atentado à coesão territorial.
Num país que enfrenta simultaneamente uma crise habitacional e um processo acelerado de despovoamento do interior, a inexistência de uma política ativa de mobilização do património público devoluto para fins habitacionais constitui uma falha grave de governação. Portanto, é claro que o Estado não pode continuar a construir de raiz enquanto deixa apodrecer bairros inteiros, pagos pelos contribuintes e já dotados de infraestruturas, redes e enquadramento territorial.
Impõe-se, por isso, uma mudança de paradigma do abandono para a ativação, da inércia para a mobilização, da degradação para a reabilitação ao serviço dos portugueses.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
Proceda, com caráter de urgência, à atualização e publicação integral do inventário nacional de imóveis públicos devolutos, subutilizados ou abandonados, discriminando a sua localização, tipologia, estado de conservação e potencial de uso habitacional, suspendendo qualquer alienação até esse levantamento estar concluído.
Crie um Programa Nacional de Reabilitação de Bairros Públicos Abandonados, abrangendo designadamente: antigos bairros prisionais, bairros de barragens e centrais hidroelétricas, bairros industriais do antigo setor público, vilas operárias e complexos habitacionais de empresas de capitais públicos;
Assegure a transferência célere da gestão destes imóveis para os municípios interessados, incluindo os casos como o de Alcoentre (Azambuja), eliminando entraves administrativos e garantindo contratos de cedência ou propriedade que permitam investimento público local.
Crie uma linha de financiamento específica, no âmbito do Orçamento do Estado e dos fundos europeus, destinada exclusivamente à reabilitação destes bairros, com prioridade a projetos de habitação acessível, arrendamento a custos controlados e fixação de população no interior.
Promova parcerias com empresas públicas e ex-públicas detentoras deste património, designadamente no setor energético, para integrar estes bairros num programa nacional de responsabilidade habitacional, evitando a sua degradação e alienação especulativa.
Palácio de São Bento, 22 de Maio de 2026
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
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Apreciação — DAR I série — 76-85 - 03/06/2026
I SÉRIE — NÚMERO 99
O Sr. Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
A Sr.ª Sónia Monteiro (CH): — Uma doença que afeta os vossos pais, os vossos companheiros e os vossos
filhos, que vos veem a sofrer. Uma dor que não é só no corpo, mas nos olhos e na alma, e eles sofrem também
porque não vos podem ajudar. Os vossos filhos crescem demasiado depressa porque aprendem cedo o que é
viver com uma doença dentro de casa. É preciso garantir-lhes dignidade e melhores condições de vida e que
nunca se sintam abandonados.
Apelo à aprovação do nosso projeto, que visa contribuir para isso mesmo, melhorar a qualidade de vida das
pessoas com fibromialgia e das suas famílias.
Aplausos do CH.
O Sr. Presidente (Marcos Perestrello): — Chegamos assim ao fim deste debate, agradeço às pessoas que
assistiram das galerias a vossa presença.
Passamos ao ponto 7 da nossa ordem do dia, que, além de ser o sétimo é também o último e trata da
discussão das Petições n.os 127/XV/1.ª (Maria João Gomes Viegas) — Programa Mais Habitação – Pela
recuperação e utilização dos imóveis devolutos do Estado e 104/XVI/1.ª (André Filipe Escoval Duarte e outros)
— Pelo direito à habitação em Portugal, em conjunto com, na generalidade, os Projetos de Lei n.os 118/XVII/1.ª
(CH) — Procede ao alargamento da isenção de IMT prevista no Código do Imposto Municipal sobre as
Transmissões Onerosas de Imóveis (CIMT) e 633/XVII/1.ª (BE) — Promoção de verdadeiras rendas moderadas
(altera o Decreto-Lei n.º 97/2026, de 30 de maio de 2026), e com os Projetos de Resolução n.os 219/XVII/1.ª (L)
— Recomenda a realização urgente do levantamento exaustivo das famílias em situação de vulnerabilidade
habitacional, 987/XVII/1.ª (IL) — Recomenda a criação de um regime de cedência de imóveis devolutos do
Estado para valorização e arrendamento, 988/XVII/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo a criação de um
programa nacional de levantamento, transferência e reabilitação de património público habitacional devoluto,
com prioridade aos bairros do Estado abandonados, 990/XVII/1.ª (PAN) — Recomenda ao Governo a adoção
de medidas urgentes para garantir o direito à habitação e a disponibilização do património público devoluto para
fins habitacionais, 997/XVII/1.ª (L) — Recomenda a afetação de património devoluto do Estado para o parque
público de habitação e 999/XVII/1.ª (PCP) — Travar a especulação, garantir e proteger o direito à habitação.
Encontram-se também presentes nas galerias subscritores destas petições, que peço à Câmara para
saudarem, por favor.
Aplausos gerais.
Para abrir o debate, tem a palavra o Sr. Deputado que o Chega entender e indicar.
Pausa.
Tem assim a palavra, para uma intervenção, o Sr. Deputado João Tilly, do Chega.
O Sr. João Tilly (CH): — Sr. Presidente e Srs. Deputados: Se queremos ajudar os jovens a fixarem-se no
seu País, chega de proclamações vazias e vamos pôr mãos à obra. Se nada fizermos, a sangria desatada da
inteligência jovem e criativa continuará.
A juventude mais qualificada de sempre continuará a abandonar Portugal para ir desenvolver outros países,
cada vez mais desenvolvidos. Isto não pode continuar, nós temos de mudar de rumo.
Portugal não se desenvolve importando mão de obra barata, desqualificada e com uma produtividade cada
vez mais baixa. Portugal desenvolve-se com a fixação da nossa melhor inteligência, estancando de vez o êxodo
da nossa juventude qualificada.
Portugal paga a formação e a qualificação dos nossos jovens, que outros países recebem sem pagarem um
tostão por essa qualificação. Isto é o suicídio de um país.
Em termos de políticas de habitação, Portugal vira à esquerda há 50 anos, em vez de seguir em frente, na
senda do progresso. Virar à esquerda uma vez é estagnar, outra vez é andar para trás. E quem vira à esquerda
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