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Representação Parlamentar
INQUÉRITO PARLAMENTAR N.º 3/XVII/1.ª
COMISSÃO EVENTUAL DE INQUÉRITO SOBRE A PREVENÇÃO E O
COMBATE AOS FOGOS FLORESTIAS OCORRIDOS NO VERÃO DE
2025
Exposição de motivos
Até ao final de julho de 2025, Portugal vivenciou um verão de incêndios de
intensidade e extensão sem precedentes nos últimos anos. Nos cinco dias que
antecederam 31 de julho, a superfície consumida pelas chamas duplicou face ao
início do mês, atingindo cerca de 90 000 hectares, o equivalente a três vezes a área
da cidade de Lisboa. Até àquela data, o Instituto da Conservação da Natureza e das
Florestas (ICNF) contabilizava mais de 112 000 hectares ardidos desde janeiro,
distribuídos por mais de 4 700 ocorrências de incêndios rurais, em contexto de seca
extrema e de temperaturas recorrentes acima dos 40°C.
O mês de agosto agravou esta situação. Entre os dias 1 e 13 de agosto, arderam 63
000 hectares, seis vezes mais do que no mesmo período de 2024, e, a 17 de agosto,
o acumulado de 172 054 hectares já superava toda a área ardida em 2024 (136 424
hectares), estabelecendo 2025 como o segundo pior ano desde 2017, ano em que
201 876 hectares foram devastados até meados de agosto. Em 19 de agosto, o
Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (EFFIS) estimava 216 214
hectares de território nacional ardidos, correspondendo a 2,35% do território de
Portugal, colocando o país no topo da União Europeia em percentagem de área
afetada. Mesmo o Estado Espanhol, com área absoluta maior, apresentava apenas
0,68% do seu território consumido pelas chamas.
Até 24 de agosto, o duro balanço dos incêndios regista também quatro vítimas
mortais, três das quais bombeiros que perderam a vida durante operações de
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combate ao fogo. Este fim trágico integra-se num quadro de elevada perigosidade
para os operacionais: desde 1980, morreram em serviço 258 bombeiros e cerca de
240 ficaram feridos, muitos por inalação de fumo, quedas e acidentes de viação
durante o deslocamento para as frentes de fogo.
A tipologia das áreas afetadas até julho de 2025 revela que 47% da área ardida
correspondia a povoamentos florestais, 41% a matos e 12% a terrenos agrícolas,
segundo o ICNF. De entre os mais de 4 700 incêndios contabilizados, quarenta foram
classificados como “grandes incêndios” (com área igual ou superior a 100 hectares),
representando 82% da área total ardida nesse período e confirmando o predomínio
de fogos com frentes ativas por vários dias. Destacam-se, pela dimensão e impacto
ambiental e social, as maiores frentes em Trancoso/Sátão, Pedrógão Grande,
Arganil, Sabugal e Lousã, onde as chamas ganharam intensidade e se movimentaram
com elevada rapidez, ameaçando infraestruturas, povoações e habitats naturais
sensíveis.
A comparação com anos anteriores torna evidente um salto abrupto na severidade
do fenómeno. Entre janeiro e julho de 2024, ardiam 4 425 hectares; no mesmo
período de 2025 foram 33 224 hectares (sete vezes mais) embora ligeiramente
abaixo da média de 2015-2024 (33 502 hectares). No entanto, ao longo de todo o
ano de 2024 foram afetados 136 424 hectares, um valor superado já em meados de
agosto de 2025. Os dados provisórios do Instituto Nacional de Estatística (INE)
corroboram esta tendência, apontando para 140 000 hectares ardidos de janeiro em
julho de 2025, valor 30% acima da média anual de 2015-2024 e que assinala o
agravamento do risco de incêndio num contexto de alterações climáticas e de
acumulação de biomassa nos territórios florestais e rurais.
Análises de séries temporais têm concluído que a época crítica de incêndios se tem
prolongado e que a precipitação acumulada entre junho e setembro diminuiu. Este
declínio pluviométrico elevou o défice de humidade do solo e dos materiais lenhosos
secáveis, intensificando o risco de ignição e estendendo o período em que as matas
e povoamentos se tornam suscetíveis ao fogo intenso. A maior duração da estação
de incêndios também implica janelas temporais mais amplas para a ocorrência de
eventos de grandes proporções.
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Para além da meteorologia, projeções da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE) assinalam que, num cenário de aquecimento
médio de 2°C até 2050 e de redução de até 10% da precipitação estival, a área anual
ardida em Portugal poderá aumentar em 50% caso não sejam adotadas medidas de
adaptação no planeamento florestal e na gestão de combustíveis. A OCDE
recomenda reforçar as faixas de gestão de combustível, diversificar espécies
arbóreas, promover sistemas de vigilância contínua e coordenar antecipadamente
meios de combate para mitigar o risco em cenários extremos de seca e calor intenso.
Dados globais sobre os impactos das alterações climáticas nas florestas, compilados
pelo portal Florestas.pt, sublinham o incremento do stress hídrico crónico que afeta
o vigor das árvores, aumenta a mortalidade natural e favorece pragas e doenças. A
combinação de árvores debilitadas, elevado volume de material morto e clima mais
quente e seco configura um cenário de inflamabilidade permanente, em que
qualquer faísca pode deflagrar incêndios de grandes dimensões, com consequências
catastróficas para a biodiversidade, para o solo e para as comunidades adjacentes.
Apesar do peso do clima, as decisões humanas mantêm-se como variável
determinante da dimensão final do desastre. A conjugação de monoculturas de
eucalipto — que acumulam biomassa inflamável de rápida regeneração — com a
fragmentação das propriedades rurais dificulta ações coordenadas de prevenção.
Limpezas e manutenção de faixas de gestão de combustível insuficientes — em parte
explicadas pelos atrasos na execução dos 65 milhões de euros previstos no Plano
Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios (PNDFCI) 2023-2027, do qual só
42 milhões tinham sido executados até agosto — deixaram vastas áreas sem
cobertura de proteção adequada nos meses críticos de julho e agosto.
Adicionalmente, a dispersão de responsabilidades entre o ICNF, a Autoridade
Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), as Comunidades Intermunicipais
e as autarquias, aliada a insuficiências nos meios aéreos e terrestres de combate,
terá comprometido a deteção precoce e a supressão inicial. Em vários concelhos, o
tempo médio de alerta e despacho ultrapassou os 25 minutos, reduzindo
drasticamente a eficácia operacional no combate às primeiras chamas e permitindo
que ignições pontuais se transformassem em “mega-incêndios” com frentes de
muitos quilómetros de extensão e comportamentos erráticos, especialmente
durante episódios de vento forte e temperaturas extremas.
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O jornal Público revela que estes “mega-incêndios” de 2025 resultaram não apenas
de condições meteorológicas adversas, mas também de escolhas de ordenamento e
gestão que mantêm a paisagem vulnerável. O desequilíbrio entre espécies
autóctones e exóticas, as limitações de fiscalização às obrigações de limpeza de
proprietários privados e a ausência de incentivos económicos claros para a gestão
comunitária do território agravam as situações de risco e comprometem a
resiliência das florestas face às alterações climáticas.
Este panorama de área ardida até agosto de 2025 deixa um aviso claro: sem uma
abordagem integrada que combine adaptações aos efeitos das alterações climáticas,
transformações no ordenamento florestal, financiamento estável e regras claras
para a execução de faixas de gestão de combustível, Portugal continuará a enfrentar
ciclos anuais de catástrofe. É urgente substituir gradualmente monoculturas
inflamáveis por povoamentos diversificados com espécies autóctones mais
resistentes ao fogo, pôr em prática incentivos que garantam a limpeza atempada das
faixas de gestão de combustível e reforçar a cooperação institucional entre ICNF,
ANEPC, CCDRs, bombeiros e comunidades locais. Simultaneamente, deve-se investir
em sistemas de vigilância fixa e móvel, incluindo tecnologia de deteção remota em
tempo real, de forma a reduzir o tempo de aviso e a otimizar o despacho de meios,
evitando que cada verão reforce o ciclo de tragédias previsíveis.
A literatura científica e os relatórios internacionais são unânimes: o desafio dos
incêndios florestais em Portugal está cada vez mais diretamente ligado às alterações
climáticas e à forma como é gerido o território. Num contexto em que a temperatura
média anual já subiu 1,5 °C desde a era pré-industrial, e com previsões de subida
adicional, o país deve reconhecer que a prevenção é essencial. A consolidação de
uma estratégia baseada em ciência, inovação e participação local poderá finalmente
quebrar o ciclo de grandes incêndios, protegendo pessoas, património e os
ecossistemas que sustentam a qualidade de vida e a economia rural em Portugal.
Os fogos florestais têm também um forte impacto económico. A Direção Regional
Norte da Ordem dos Economistas estima que os custos diretos e indiretos do
combate, dos danos a bens móveis e imóveis (habitações, armazéns, infraestruturas
industriais, telecomunicações) e os efeitos sistémicos sobre a atividade futura
possam ascender a 2,3 mil milhões de euros. Estes impactos incluem despesas
avultadas com meios de supressão, onde se registou um défice de meios aéreos face
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às necessidades, bem como a perda imediata de receitas do setor florestal e
agroindustrial, afetado pela destruição de povoamentos e explorações agrícolas.
Para além dos prejuízos empresariais, os incêndios provocaram um drástico abalo
na economia familiar e local. O projeto ECOFIRE da Universidade do Minho alerta
que a intensidade dos fogos e a perceção de risco reduzem em cerca de 15 % as
dormidas nos concelhos vizinhos aos grandes incêndios, comprometendo a
temporada de verão e exigindo investimentos adicionais em marketing e
requalificação paisagística para recuperar a confiança dos visitantes.
No plano macroeconómico, a destruição de mais de 216 000 hectares até meados de
agosto de 2025 comprometeu o potencial de produção florestal a longo prazo,
pressionando os mercados domésticos e de exportação e elevando os preços da
matéria-prima florestal. A reconstrução de infraestruturas de proteção da floresta,
como estradas de acesso, faixas de gestão de combustível e torres de vigilância
exigirá um necessário investimento público.
A estes custos tangíveis soma-se um património de perdas intangíveis e de longo
prazo: a destruição de capital natural (biodiversidade, capacidade de absorção de
carbono e proteção de solos) gera externalidades negativas que agravam a
desertificação do interior, aceleram o despovoamento do interior e reforçam as
assimetrias territoriais.
A poucos dias da fase mais crítica dos incêndios, o Dispositivo Especial de Combate
a Incêndios Rurais (DECIR) contava com 79 meios aéreos contratados, mas dois dos
três helicópteros destacados para as zonas de maior risco (Arcos de Valdevez e
Santa Comba Dão) encontravam-se em manutenção há meses, sem alternativa local
que garantisse o transporte urgente de equipas de ataque inicial ou reconhecimento
aéreo, obrigando a Proteção Civil a realocar meios de outras regiões e a atrasar em
minutos decisivos a intervenção contra as chamas. No final de julho, voltou a faltar
cobertura aérea: um vídeo da SIC documentou a falta de helicópteros em distritos
críticos do Centro e Norte, enquanto outro registou um aparelho parado por falta de
piloto, situação que a ANEPC atribuiu à escassez de tripulações qualificadas na Força
Aérea.
As fragilidades estenderam-se aos aviões de bombardeamento de água. No dia 11 de
agosto, três dos cinco Canadair nacionais estavam fora de serviço por avarias
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técnicas, apesar disso o Governo recusou inicialmente acionar o mecanismo rescEU,
acabando, empurrado por críticas públicas, a negociar com o Reino de Marrocos o
empréstimo de dois aparelhos suplementares. Mais tarde, o Governo acabaria por
acionar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil para aumentar o contingente de
aviões Canadair necessários ao combate aos fogos florestais.
Em simultâneo, a Polícia de Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana
enfrentaram dificuldades de coordenação com a ANEPC, resultando em
sobreposição de ordens operacionais e atrasos no envio de meios para distritos mais
ameaçados.
Este quadro de carências técnicas e logísticas ocorre num contexto em que Portugal
produz investigação de excelência sobre incêndios florestais, mas o Governo falha
persistentemente na aplicação prática dessas recomendações, falhando no reforço
os sistemas de monitorização em tempo real e na atualização dos regulamentos de
gestão de combustíveis considerados essenciais para deteção precoce e contenção
inicial das ignições. A reforma florestal de 2021–2023, apresentada como pedra
basilar para uma nova política de prevenção, “derrapou” por falta de um plano de
ordenamento detalhado, de dotação orçamental adequada para limpezas regulares
e fiscalização preventiva, e de incentivos reais à substituição de monoculturas
inflamáveis por povoamentos diversificados, mantendo vastas áreas vulneráveis a
grandes incêndios.
A própria coordenação interministerial foi posta em causa quando o secretário de
Estado da Administração Interna admitiu haver “momentos de desajuste” na
articulação entre ANEPC, ICNF e Comunidades Intermunicipais, o que contribuiu
para divergências sobre prioridades de intervenção e para sobreposição de
competências em distritos críticos, comprometendo a eficácia do despacho de meios
e a uniformidade de informação às equipas no terreno. O primeiro-ministro
considerou estas falhas meros “ajustes inevitáveis em altura de procura máxima”,
enquanto o Ministério do Ambiente enaltecia reforços permanentes de meios aéreos
que, na prática, não se materializaram como resposta suficiente às frentes ativas
mais intensas do verão de 2025. Lamentavelmente, o país teve ainda de ouvir um
ministro da Defesa, a queixar-se por não ter ouvido "um obrigado" por ter adquirido
kits de combate a incêndios nos C-130, apesar de estes não estarem operacionais
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este ano, fazendo com que os helicópteros e aviões Canadair se mantenham
indispensáveis ao combate aos fogos florestais.
Este conjunto de falhas, desde a indisponibilidade de meios essenciais até à
descoordenação política e operacional, traduziu-se em ignições que, previsíveis
pelas condições de seca extrema e risco meteorológico elevado, evoluíram para
“mega-incêndios”. São esses os fatores que merecem uma investigação e avaliação
no contexto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, sem prejuízo de outros
meios de escrutínio político e parlamentar às questões relacionadas com as políticas
de prevenção e ordenamento do território.
Assim, a Deputada do Bloco de Esquerda abaixo-assinada requer, ao abrigo do
disposto na alínea a) do n.º 1 do artigo 2.º da Lei n.º 5/93, de 1 de março,
republicada pela Lei n.º 15/2007, de 3 de abril, a constituição imediata e
obrigatória de uma Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar à prevenção e
combate aos fogos florestais ocorridos no verão de 2025 que permita cumprir
os seus objetivos, não ultrapassando os 90 dias, com o seguinte objeto:
1) Apurar a disponibilidade, contratação e manutenção dos meios de combate,
investigando a responsabilidade governativa na indisponibilidade de helicópteros e
aviões Canadair em momentos críticos, clarificando os critérios políticos e
administrativos que presidiram à contratação, manutenção e tripulação dos meios
aéreos, e avaliando as razões dos atrasos na ativação do Mecanismo Europeu de
Proteção Civil e em negociações bilaterais com outros países;
2) Analisar a coordenação entre entidades responsáveis, determinando em que
medida as falhas de direção política e de tutela governamental contribuíram para as
falhas de articulação entre ICNF, ANEPC, autarquias, forças de segurança e
comunidades intermunicipais, identificando responsabilidades pelas sobreposições
de ordens, atrasos no despacho de meios e desajustes na cadeia de comando e
decisão;
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3) Investigar os sistemas de monitorização, vigilância e deteção precoce, apurando
as razões políticas e administrativas que levaram à não integração de tecnologias de
deteção remota em tempo real, apesar de existirem recomendações científicas e
capacidade técnica nacional, e avaliando em que medida a responsabilidade
governativa nos atrasos e falhas de execução contribuiu para tempos médios de
alerta superiores a 25 minutos em diversos concelhos, potenciando a evolução de
ignições em grandes incêndios.
Assembleia da República, 25 de agosto de 2025
A Deputada do Bloco de Esquerda,
Mariana Mortágua
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