ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
PROJECTO DE RESOLUÇÃO N.º 77/VIII
APROVA MEDIDAS DE COMBATE A FACTORES DE RISCO NA
ADOLESCÊNCIA E NO JUVENTUDE
(A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera, na maioria dos documentos,
«adolescência» e «juventude» como os períodos da vida que medeiam entre os 10 e os
19 anos e entre os 15 e os 24 anos, respectivamente)
«Sente-se uma tensão impressionante (...)» - Daniel Sampaio, Vozes e ruídos -
Diálogos com adolescentes, Editorial Caminho, 1993)
A adolescência corresponde a uma fase da vida onde se buscam novas referências,
sentido de pertença, onde se testam novas potencialidades e se procura conhecer os
limites pessoais em todos os domínios. É a fase mais vulnerável às dinâmicas de
mudança, sujeitando os jovens a pressões enormes.
Os adolescentes e jovens portugueses defrontam hoje quatro grandes áreas em que se
expressam os factores e comportamentos de risco que exigem uma resposta adequada
por parte dos poderes públicos e da sociedade: distúrbios alimentares, mortalidade por
causas externas, consumo de álcool, tabaco e outras substâncias e problemas de saúde
mental.
1 — São quatro as grandes áreas em que se expressam os factores e comportamentos
de risco
Segundo opinião avalizada, «fenómenos recentes, como o poder de intervenção
dos media na comunidade, as novas tecnologias, a urbanização progressiva, os
movimentos migratórios, o turismo, a modificação do estatuto feminino, a alteração da
estrutura e dos papéis familiares , a democratização do ensino, o aumento do tempo de
escolaridade, os novos caminhos profissionais , etc., têm tornado as sociedades mais
abertas e mais plásticas. Os adolescentes e os jovens constituem, porventura, um dos
grupos etários mais sensíveis a esta dinâmica social (...)» - Vasco Prazeres, Saúde dos
adolescentes, princípios orientadores, Direcção-Geral de Saúde, 1998.
Os fenómenos que traduzem a mudança são comummente sintetizados nos termos
seguintes:
— Enquanto a idade média da puberdade diminui ou se encontra estabilizada, fruto da
melhoria das condições de vida e da alimentação, o acesso ao estatuto de adulto e a
integração plena no sector produtivo dão-se em idades cada vez mais avançadas.
— Nas sociedades industrializadas o progresso tecnológico determina índices
crescentes de especialização - a escolaridade prolonga-se, a competitividade aumenta,
em particular na procura do primeiro emprego.
— Nas últimas décadas a constituição das famílias é mais tardia, tem uma dimensão
mais restrita e os papéis dos seus elementos modificaram-se. Os filhos aparecem mais
tarde e são em número mais reduzido, assim como aumenta o número de famílias
monoparentais e reconstruídas.
— A organização social e económica actual estimula e facilita o acesso a práticas e a
consumos que, antes, eram pertença exclusiva dos adultos;
— A população envelhece e, em simultâneo, o investimento da sociedade em cada
adolescente é mais elevado.
— Os adolescentes, enquanto grupo, ganharam protagonismo social e,
individualmente, adquiriram estatuto de cidadania na sociedade contemporânea.
Algumas das características do actual modelo de desenvolvimento económico e
social traduzem-se num grande apelo ao consumo, que se assume como o principal
factor de produção, na internacionalização dos mercados da informação e do
conhecimento e na elevada competitividade.
Nos países mais desenvolvidos consome-se muito para além das necessidades e o
consumo assume muitas vezes contornos de integração social. A organização social e
económica actual estimula e facilita o acesso a práticas e a consumos aos jovens que,
antes, eram pertença exclusiva dos adultos.
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Os adolescentes e os jovens têm na Internet e na comunicação social portas abertas à
informação e ao conhecimento. Os seus comportamentos, atitudes, as modas e os
factores de integração social vão-se uniformizando internacionalmente. Ao mesmo
tempo que o conhecimento é cada vez maior, também o apelo a novos consumos e
factores de risco aumenta.
Estas faixas etárias estão sujeitas a uma pressão que outras gerações não
conheceram. Desde logo há uma intensa pressão por parte da sociedade e das famílias
para o sucesso. O jovem é confrontado com uma enorme competitividade: na procura
de emprego (especialmente do primeiro emprego, para o qual não concorre experiência
profissional alguma), no acesso ao ensino superior... A frustração que muitas vezes daí
resulta atinge igualmente níveis impressionantes: porque a média não foi suficiente
para o curso que se queria, porque não se queria estudar mais, porque o emprego não é
aquele com que sempre se sonhou, porque o ordenado não chega ... e os projectos de
vida vão sendo adiados ou completamente alterados, tornando-se por vezes impossível
definir um projecto de vida.
Todos estes factores têm enorme influência sobre este grupo etário. O testemunho de
alguns especialistas nestas áreas é muita elucidativo:
a) Distúrbios alimentares:
Segundo Isabel do Carmo - Prevalência de anorexia nervosa em adolescentes do
sexo feminino dos distritos de Lisboa e Setúbal -, «Portugal está numa situação
económico-social de transição, com marcadores económico-sociais também de
transição e é muito permeável à influência cultural que vem dos países mais
industrializados, sobretudo através dos meios de comunicação. No que diz respeito às
perturbações do comportamento alimentar, está a caminhar para uma posição idêntica à
dos países mais industrializados. Desde que se fizeram os primeiros estudos de
prevalência da anorexia nervosa no mundo, há quase 30 anos, a rapidez e o acesso aos
meios de comunicação tem evoluído de forma acelerada e os números parecem mostrar,
aqui como noutros países, que esse é um factor uniformizador e homogeneizante».
Sublinha ainda a autora: «o isolamento geográfico, político e cultural vivido durante
muitas décadas pode ter protegido a população portuguesa de doenças ligadas à cultura,
como acontece não só em relação aos hábitos alimentares mas também em relação às
perturbações do comportamento alimentar.»
Fernando Baptista - Prevalência de distúrbios do comportamento alimentar numa
população feminina universitária - alerta: «a prevalência de distúrbios alimentares tem
sido relacionada com factores culturais . Nas sociedades ocidentais desenvolvidas o
excesso de peso não é tolerado pelas mulheres, principalmente as de classes sociais
mais favorecidas. Por outro lado, em países em vias de desenvolvimento o excesso de
peso é menos estigmatizante ou até desejável. Portugal encontra-se numa fase
intermédia entre estes dois níveis de desenvolvimento».
Outros autores citados referem o declínio da satisfação corporal durante a
adolescência com a auto-estima e o excesso de dietas.
Segundo Paulo Machado - Avaliação da prevalência de perturbações do
comportamento alimentar em estudantes universitárias, Universidade do Minho, 1999 -
, «a realidade entre nós não é diferente e confirma mais uma vez que a insatisfação
corporal pode reflectir a influência dos padrões culturais ocidentais que cada vez mais
associam a beleza feminina a uma imagem corporal excessivamente magra».
Laurinda Queirós - Monografia, auto-imagem quanto à aparência física na
população feminina em idade escolar , Outubro de 1999, Universidade Nova de Lisboa
- identifica a adolescência como uma fase crucial no desenvolvimento da auto-imagem
quanto à aparência física. «A pressão psicológica a que se sentem sujeitos pode levá-los
a comportamentos dirigidos a alterar a aparência física. Iniciam dietas para emagrecer
(...), o jejum, a toma de laxantes e de comprimidos para emagrecer, os vómitos
provocados. Algumas destas práticas podem evoluir para doenças do comportamento
alimentar.» E continua: «As atitudes culturais parecem ter um importante papel no
desenvolvimento e expressão destas doenças. Nas sociedades de abundância, marcadas
pela competitividade e pela importância simbólica da magreza, estas doenças seriam
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mais frequentes. Vários estudos têm documentado a mudança das dimensões ideais do
corpo feminino, nos últimos 30 anos, como forma de mostrar a crescente pressão para
um corpo magro. Têm sido estudadas revistas de modas e as medidas dos modelos e
rainhas de beleza, vídeos e imagens do cinema para mostrar a tendência para a
diminuição das dimensões do corpo feminino».
b) Mortalidade por causas externas:
São causas externas de mortalidade as que englobam os acidentes, os suicídios, os
homicídios e outras violências. Em Portugal constituem 50% das causas de morte da
adolescência e juventude.
Segundo Vasco Prazeres - Saúde dos adolescentes, princípios orientadores ,
Direcção-Geral de Saúde, 1998 - «as transformações sociais têm determinado a
importância crescente dos problemas de saúde ligados aos estilos de vida, às
perturbações do ambiente e à utilização inadequada de novas tecnologias. É exemplo
disso o facto de os acidentes rodoviários constituírem a principal causa de morte neste
grupo etário».
Segundo dados do Conselho do Europa, as taxas de suicídio aumentaram de forma
assustadora, constituindo a segunda causa de morte de jovens em países como a França,
a Áustria, a Suíça, a Dinamarca e a Finlândia. A evolução deste indicador em Portugal
é objecto de discussão entre especialistas e merece a máxima preocupação.
A este respeito diz Daniel Sampaio (em A cinza do tempo , Editorial Caminho,
Lisboa, 1997): «Ao contrário do que por vezes é dito, as taxas de suicídio têm
diminuído em Portugal nos últimos anos, graças, sobretudo, à melhoria dos serviços de
atendimento e ao esforço dos técnicos que lá trabalham. O problema do suicídio
mantém-se grave, sobretudo no Alentejo, onde as grandes dificuldades sócio-
económicas da região agravam os problemas dos indivíduos com depressão. Temos,
assim, cada vez mais, de considerar o suicídio a sul do Tejo como uma prioridade em
saúde pública e definir estratégias para minorar o problema.»
O mesmo autor - Vozes e ruídos - Diálogos com Adolescentes , Editorial Caminho,
1993 - deixa-nos outro alerta muito importante: «A comunidade não pode continuar a
pensar que este é um problema dos técnicos. O psiquiatra é chamado já numa fase
adiantada de muitas situações e a ele chegam pessoas com pouca consciência da doença
ou fraca motivação. É, por isso, necessário um esforço de esclarecimento, que tire a
psiquiatria do lugar hermético onde tantos vezes se coloca, para a fazer descer à terra, à
vida de todos nós.»
c) Consumo de álcool, tabaco e outras substâncias:
O aumento do consumo de álcool e tabaco entre adolescentes e jovens e o começo
em idades cada vez mais jovens é igualmente alarmante. A forma como se consome e
porque se consome merece atenção especial.
Segundo Vasco Prazeres - Saúde dos adolescentes, princípios orientadores ,
Direcção-Geral de Saúde, 1998 -, «o consumo regular e/ou imoderado de tabaco, para
além de perturbar a fisiologia respiratória e o crescimento, pode interferir no
rendimento escolar e no rendimento desportivo. O desenvolvimento de doenças
respiratórias, cardiovasculares e mesmo de cancro são consequências deste tipo de
consumo (... ). O consumo imoderado de álcool está ligado, com frequência, a condutas
violentas, a lesões acidentais e a relações sexuais desprotegidas, com a possibilidade de
surgirem gravidezes não desejadas e/ou doenças de transmissão sexual. Alguns autores
designam este tipo de fenómenos por circuitos de risco (...) A maioria dos consumos
nocivos que acontecem no seio dos grupos juvenis surge raramente como actividade
solitária».
As novas modas procuram a rápida conquista de estados de espírito que permitam
descomprimir e esquecer e surgem associados a novas formas de consumo e a novos
consumos. Os shots e as novas drogas sintéticas são disso mesmo exemplo ( ecstasy,
serenity, ... ), sendo que a totalidade dos efeitos destas últimas são ainda desconhecidos.
Nos últimos anos - Relatório anual sobre a evolução do fenómeno da droga na União
Europeia, 1999 - «tanto as drogas como a música associada à dança deram entrada na
generalidade das discotecas e o consumo de álcool começa a aumentar. O carácter
lucrativo do mercado da música e dança parece ter levado a indústria do álcool a
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patrocinar, publicitar e promover bebidas alcoólicas destinadas especificamente a este
mercado, chegando a utilizar imagens ligadas à droga nas suas estratégias».
Luís Borges - Luís Borges e colaboradores, in Revista da sociedade portuguesa de
alcoologia, volume 2, n.º 1, Coimbra, 1993 - denuncia: «Portugal continua a ocupar
um lugar primordial no consumo e produção, assim como nos efeitos nocivos. Tem a
mais elevada taxa de mortalidade por cirrose hepática, constituindo esta doença um
importante indicador. 6% da população sofre de graves problemas de saúde
relacionados com a ingestão excessiva de álcool.»
Teresa Antunes - Maria Teresa Calvário Antunes, Os Jovens e o consumo de bebidas
alcoólicas, Revista Referência , n.º 1, de 1998 -, referindo-se igualmente aos efeitos
nocivos deste consumo, alerta para a diminuição das «capacidades de aprendizagem,
podendo mesmo haver quebra das capacidades cognitivas». Para além disso, «o álcool
está associado à maioria das causas de morte na adolescência. Os traumatismos, os
suicídios e os homicídios são responsáveis por grande número de óbitos nos jovens e o
álcool está quase sempre presente.»
D) Problemas de saúde mental:
«Francisco sofre de depressão. É a situação mais frequente das consultas de
psiquiatria, aparecendo também muitas vezes ao médico de clínica geral. Algumas
depressões têm uma base hereditária e biológica, outras estão mais relacionadas com o
modo de reagir aos acontecimentos da vida.
Na adolescência a depressão necessita de ser diferenciada dos momentos transitórios
de tristeza e pessimismo que fazem parte do normal processo de desenvolvimento. A
sintomatologia depressiva nos jovens surge muitas vezes sob a forma de dores
musculares, falta de apetite, insónia, quebra de rendimento escolar, em vez daquela
tristeza que caracteriza a depressão no adulto. Pode também manifestar-se através de
uma agressividade mantida pelo uso de drogas ou por um tentativa de suicídio
inesperada. São sinais de alarme o isolamento do jovem, o seu pessimismo mantido
face ao futuro e outros comportamentos visíveis na história do Francisco.» - Daniel
Sampaio, A cinza do tempo, Editorial Caminho, Lisboa, 1997.
Os problemas psicológicos ou psicossociais na adolescência e na juventude tendem a
não ser reconhecidos, muitas vezes porque os seus sintomas não estão tão definidos
quanto na idade adulta, muitas vezes dada a dificuldade de distinguir o normal do
patológico.
No entanto, as depressões afectam cada vez mais os estudantes portugueses,
especialmente no final do ensino secundário e início do ensino superior. E se a situação
não parece alarmante certo é que os casos se vão sucedendo - Ricardo Jorge Costa,
Jornal A Página da Educação, Pode a escola gerar depressões? n.º 85, página 16.
Emília Costa - Ricardo Jorge Costa, Jornal A Página da Educação , Pode a escola
gerar depressões? n.º 85, página 16 -, psicóloga e professora associada da Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação do Porto, alerta: «Basta olhar para as actuais
médias gerais de acesso à universidade - alguns cursos já têm médias próximas dos 20
valores -, o que leva a que a exigência do jovem em relação a si próprio seja
gradualmente maior». Segundo Ricardo Jorge Costa - Ricardo Jorge Costa, Jornal A
Página da Educação, Pode a escola gerar depressões? n.º 85, página 16 -, a este factor
junta-se ainda a pressão da família e dos professores, concorrendo para o medo do
fracasso e o aumento da ansiedade e dos níveis de stress. Emília Costa refere ainda a
ocorrência de crises de pânico e aponta o esgotamento como uma das principais causas.
Rui Mota Cardoso - Ricardo Jorge Costa, Jornal A Página da Educação , Pode a
escola gerar depressões? n.º 85, página 16 -, psiquiatra e professor associado da
Faculdade de Medicina do Porto, acrescenta: «A própria natureza da adolescência - um
estado entre dois paradigmas, definido por duas negativas (não sou criança mas
também não sou adulto), contribui para aumentar este sentimento. A percepção -
verdadeira ou falsa - de que «não valho nada», ou ainda de que «não vale a pena fazer
nada para mudar a minha vida» instala-se por vezes como uma sombra. Agora
acrescentemos a isto as dificuldades actuais do adolescente e, sobretudo, as
dificuldades postas pela exigência da escola e do futuro: entrar para a universidade,
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lidar com colegas e professores, arranjar um emprego... são condições que, em qualquer
meio, podem privilegiar o estado depressivo».
Ana Paula Vieira - Adolescência e depressão, Revista Portuguesa de Clínica Geral ,
1995 - explica a importância de diagnosticar correctamente a depressão: «Porque a
adolescência é um tempo de rápidas aquisições e de enriquecimento pessoal sem
paralelo no desenvolvimento do indivíduo, pelo que uma depressão arrastada leva a:
1 - Baixo rendimento escolar;
2 - Dificuldades e pobreza na vida de relação na família, no grupo, o que
forçosamente se reflectirá na estruturação da personalidade;
3 - Abuso de drogas e álcool;
4 – Suicídio.»
2 - Os indicadores preocupantes
a) Distúrbios alimentares:
Num estudo realizado nos distritos de Lisboa e Setúbal - Isabel do Carmo, D. Reis e
outros, Prevalência de anorexia nervosa em adolescentes do sexo feminino dos distritos
de Lisboa e Setúbal - obtiveram-se os seguintes resultados:
Prevalência da anorexia nervosa - 0,37%; síndroma parcial - 12,6%; apenas perturbação
da imagem corporal - 7%; desejo de perder peso em 38% das jovens com peso normal
ou baixo; excesso de peso em 15,3%. As idades mais atingidas pela anorexia nervosa,
síndroma parcial e perturbação na imagem corporal foram, respectivamente, 15 na
primeira e 16 na segundo e terceira situações. Tanto a anorexia nervosa como a
síndroma parcial e a perturbação da imagem corporal foram mais prevalecentes na
classe 2 (técnicos de nível médio, funcionários administrativos). O rendimento escolar
era melhor à medida que decrescia a gravidade da situação.
Do conjunto destes resultados poderemos concluir que Portugal, apresentando embora
uma prevalência baixa em relação ao síndroma total, tem um número alto de síndromas
parciais e de perturbações da imagem corporal. Por outro lado, esta tendência é
transversal às classes sociais.
A grande percentagem de jovens que, tendo um peso normal ou baixo, referem
ter partes gordas no corpo, sugere que o nosso país se encontra sob a influência dos
padrões culturais dos países mais industrializados.
Num estudo realizado junto de uma população universitária feminina - Fernando
Baptista, Daniel Sampaio e outros, Prevalência de distúrbios do comportamento
alimentar numa população feminina universitária - foi possível concluir:
A prevalência de bulimia nervosa foi de 3%; episódios de ingestão de grandes
quantidades de comida em pouco tempo - 13,2%; desejo de ser magra - 55,1%;
haviam feito dieta antes do inquérito - 48%; durante o inquérito - 12%.
Estes dados são extremamente preocupantes e constituem um problema de saúde da
nossa sociedade.
Num estudo realizado na Universidade do Minho - Avaliação da prevalência de
perturbações do comportamento alimentar em estudantes universitárias, Universidade
do Minho, 1999 -, da responsabilidade de Paulo Machado, os resultados permitem
concluir que a prevalência de anorexia nervosa na população universitária é baixa. No
entanto, a existência de quadros clínicos parciais (2,52%), comportamentos alimentares
desajustados e a elevada insatisfação corporal (9,5% apresentam distorção da imagem
corporal) encontrada no estudo, sugerem um aumento desta perturbação do
comportamento alimentar num futuro próximo. A elevada prevalência de bulimia
nervosa (5,88%, 47,2% fizeram dieta, 2,5% usaram o vómito auto-induzido, 2,9% o uso
de laxantes nos últimos seis meses), a prevalência de ingestão alimentar compulsiva
(que é de 31%) encontrada confirma o facto de que a população universitária feminina
é uma população de risco para o desenvolvimento desta perturbação específica.
No estudo Perturbações do comportamento alimentar , realizado por Laurinda
Queirós junto da população feminina das escolas do ensino básico e secundário do
distrito do Porto, concluiu-se:
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— A prevalência de anorexia nervosa é de 0,3%;
— A prevalência de síndroma parcial de anorexia nervosa é de 1,1%;
— A prevalência de perturbação da imagem corporal é de 10%;
— A prevalência de excesso de peso é de 21%;
— A proporção de alunas das escolas que tem preocupações com o peso e forma do
corpo e inicia práticas de dieta, mesmo apresentando peso normal para a idade, é
elevada e está de acordo com o observado noutros estudos realizados no País.
Alguns resultados apresentados por Daniel Sampaio - Daniel Sampaio, Vivemos
livres numa prisão, Editorial Caminho, Lisboa, 1998-, decorrentes de uma revisão dos
casos tratados no núcleo de doenças do comportamento alimentar (NDCA), do Hospital
de Santa Maria, revelam: «Desde 1993 até ao fim de 1996 tratámos 124 doentes com
AN, 120 mulheres e quatro homens. O ano de 1997 traduziu-se por um grande aumento
de novos casos (40 diagnósticos de AN durante esse ano). Procedemos a uma avaliação
detalhada das 120 doentes referidas (...). Predominou a AN tipo restritivo (76,6%), face
à AN tipo ingestão compulsiva/purgativo (23,4%). A grande maioria destes doentes é
estudantes (85% dos casos). A idade de início da doença oscilou entre o mínimo de 11
anos e o máximo de 27, com uma média de 16 anos.»
b) Consumo de álcool, tabaco e outras substâncias:
O ESPAD (Projecto Europeu para Estudo do Álcool e Outras Substâncias em Meio
Escolar) levou a cabo um inquérito em Portugal, em 1995, a alunos do ensino
secundário. O grupo-alvo do ESPAD é constituído pelos alunos nascidos em 1979, isto
é, pelos que em 1995 tinham 16 anos de idade. Assim, foram abrangidos no nosso país
os anos de escolaridade nos quais se encontrava a maioria daqueles alunos.
Os resultados substantivos a nível dos alunos de 16 anos mostram que as
prevalências ao longo da vida do consumo de tabaco, bebidas alcoólicas (qualquer) e
substâncias ilícitas (qualquer) foram, respectivamente, de 56,32%, 79,10% e 8,08%.
Ainda reportando-se ao longo da vida houve 36,11% dos alunos que referiram ter
tido bebedeiras, 6,52% que indicaram consumo de marijuana ou haxixe, 0,49% de
heroína e 0,30% de cocaína.
Também foi reportado o consumo de tranquilizantes ou sedativos sem prescrição
médica, inalantes, anfetaminas, esteróides anabolizantes e LSD, cujas prevalências ao
longo da vida foram, respectivamente, de 8,09 %, 2,77%, 1,97%, 0,74% e 0,40%.
O consumo de tranquilizantes ou sedativos e de estimulantes com prescrição médica
situou-se nos 14,83% e 4,05%, respectivamente, no que respeita a prevalências ao
longo da vida. Deste modo, números como os acima referidos, bem como outros,
podem constituir um contribuição para a definição de políticas, a revisão de estratégias
e o reforço de medidas, em especial no que respeita a programas de promoção e
educação para a saúde a nível da escola mas não para o diagnóstico de
toxicodependência.
Algumas conclusões:
As idades modais quando dos primeiros consumos foram 11 anos mais ou menos,
respectivamente, para a iniciação ao tabaco, cerveja, vinho e inalantes, 14 anos para
bebidas espirituosas (e também para a primeira bebedeira) e 15 anos para a marijuana
ou haxixe, anfetaminas e tranquilizantes ou sedativos:
— Em casa (25,45%) e num bar ou pub (22,62%) foram os lugares mais frequentes
onde os alunos beberam na última ocasião;
— A maioria dos alunos referiu nunca ter vivenciado problemas devido ao álcool e uma
minoria referiu-se a problemas sobretudo uma vez na vida;
— Mais de 93% dos casos já tinham ouvido falar de marijuana ou haxixe, cocaína e
heroína, bem como de tranquilizantes ou sedativos;
— Aproximadamente 74% e 51% dos alunos desaprovaram o consumo regular,
respectivamente, de tabaco e álcool;
— Acima de 86% dos casos desaprovaram quer o consumo ocasional quer o habitual
das substâncias que não tabaco ou álcool, nomeadamente marijuana ou haxixe, cocaína
ou heroína;
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— Cerca de um terço dos casos referiram que a maior parte ou todos os seus colegas
fumavam tabaco e que pouco acima de um terço consumiam bebidas alcoólicas;
— Cerca de 25% assumiu ter faltado à escola no último mês principalmente por motivo
de doença.
Os resultados deste estudo apontam para a importância do reforço de políticas no
presente domínio, inclusive do desenvolvimento a nível local, regional e nacional de
programas no âmbito da promoção da saúde e de outras medidas preventivas.
Outro estudo - Luís Borges, in Revista da sociedade portuguesa de alcoologia ,
volume 2, n.º 1, Coimbra, 1993 - sobre o consumo de álcool, realizado junto da
população adolescente do 9.º ao 12.º ano de escolaridade da Escola Secundária de Santa
Comba Dão, concluiu:
— Há um contacto precoce com o álcool - 20% tiveram-no antes dos 10 anos de
idade;
— Afirmaram nunca ter bebido qualquer tipo de bebida alcoólica 8% dos
adolescentes inquiridos, ingerindo bebidas alcoólicas 92 %;
— 10% são consumidores regulares e 12% consumidores excessivos;
— Constata-se ainda que aos 13 e 14 anos, idade em que é recomendável a
abstinência total de álcool, a maior parte dos jovens ingere bebidas alcoólicas;
— A maior parte dos alunos (78%) referem ter sido já informados sobre os malefícios
do consumo de álcool, mas a consciência que os jovens têm de suficiência de
informação não quer dizer que os conhecimentos são suficientes - 37% têm falsos
conceitos a respeito do álcool.
O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge procedeu, através do Dr. Carlos
Dias e outros, à realização de alguns indicadores do consumo de bebidas alcoólicas em
Portugal Continental, utilizando os dados do Inquérito Nacional de Saúde de 1995/96.
Destes há a destacar:
— Percentagem de pessoas que declararam ter consumido bebidas alcoólicas nos 12
meses anteriores à entrevista, por sexo e grupo etário:
Entre os 15 e os 17 anos 30,4% dos rapazes e 18,8% das raparigas;
Entre os 18 e os 24 anos 67,7% dos rapazes e 37,2% das raparigas.
— Frequência desse consumo:
Entre os 15 e os 17 anos 10,9% dos rapazes e 3,9% dos raparigas fizeram-no várias
vezes por semana;
Entre os 18 e os 24 anos 35,3% dos rapazes e 9,2% dos raparigas fizeram-no várias
vezes por semana.
Entre os 15 e os 17 anos 6,5% dos rapazes e 2,7% das raparigas fizeram-no cerca de
uma vez por semana.
Entre os 18 e os 24 anos 11,3% dos rapazes e 4,9% das raparigas fizeram-no cerca de
uma vez por semana.
Numa troca de impressões com o Dr. Carlos Dias foi ainda referido o seguinte:
«No caso do consumo de bebidas alcoólicas, o problema principal coloca-se na
apreciação da sua magnitude que se torna muito mais difícil do que no caso do tabaco.
De facto, a bem conhecida sub-notificação dos consumos que se verifica quando se
investigam estes dois comportamentos poderá estar acentuada no caso do consumo de
álcool, devido ao estigma de género que ainda caracteriza a sociedade portuguesa à
semelhança do que se passa noutras sociedades.
Ainda assim, parecem ressaltar dos dados do INS consumos declarados de bebidas
alcoólicas mais baixos nas mulheres do que nos homens, facto corroborado pelas
diferenças nas taxas de mortalidade por doença hepática e cirrose verificadas em
Portugal. É importante notar que os consumos (expressos em gramas de álcool puro)
que são possíveis de ser calculados com base nestes dados (únicos disponíveis em
Portugal de base populacional) apontavam já em 1995/1996 para valores acima dos
limites indicados pela OMS para consumo sem risco tanto num sexo como noutro. Nos
jovens (15-24 anos) esses consumos verificados em Portugal eram: mulheres - 17,9 9;
homens - 34,9 9.
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Foi também possível observar que o consumo de bebidas alcoólicas, em especial de
vinho, era mais prevalente nos grupos com graus de escolaridade mais baixo, tanto num
sexo como noutro. Já o rendimento per capita da família não parecia afectar o padrão
de consumo desta bebida.
Considerando que os fenómenos de transição social, em especial os que ocorrem e
afectam o estado de saúde da população e os factores que o determinam, entre eles os
factores de risco, carecem de uma abordagem temporal nem sempre fácil pela
indisponibilidade de indicadores fiáveis.
Considerando também que, em Portugal, a evolução da taxa de mortalidade infantil,
considerado um dos indicadores mais úteis para medir a evolução do estado de saúde de
uma população, na ausência de indicadores parcelares específicos, sofreu uma evolução
impressionante que teve início no princípio do década de 60 e que dificilmente encontra
paralelo noutros países;
Pode pensar-se que a evolução deste indicador teve como paralelo não uma mas toda
uma série de evoluções de sinais e ritmos diversos que atingiram e atingem muitos dos
factores determinantes da saúde e os indicadores do estado de saúde em Portugal.
Assim, as flutuações de curto prazo que hoje vemos como características de certos
factores de risco ou de indicadores do estado de saúde dificilmente poderão ser
apreciados correctamente a curto prazo, exigindo uma vigilância epidemiológica para
aqueles com acção mais rápida e estudos transversais espaçados no tempo para aqueles
com acção mais lenta.
A apreciação destes indicadores poderá ser enriquecida, em minha opinião, se for
feita à luz de outras variáveis demográficas, sociais e económicas que, na sociedade
portuguesa actual, atingem os jovens aparentemente de forma desigual».
O INS apresenta ainda dados sobre o consumo de tabaco:
— População com 10 ou mais anos que referiu fumar 20 ou mais cigarros por dia:
8,4% de rapazes e raparigas entre 15 e 24 anos;
18,4% de rapazes e raparigas entre os 25 e os 44 anos.
— População inquirida dos 10 aos 24 anos que fuma actualmente e diariamente, por
idade em que começou a fumar:
17,3% antes dos 15 anos;
50% entre os 15 e os 17 anos;
32,7% entre os 18 e os 24 anos.
Ainda, durante a troca de dados com o Dr. Carlos Dias, foi possível constatar que:
«No que diz respeito ao consumo de tabaco apreciado através dos dados do INS,
chamo a sua atenção para a influência de algumas variáveis sócio-económicas na
prevalência de fumadores, em especial no sexo feminino em Portugal. Assim, a
prevalência mais elevada de fumadoras habituais nas mulheres jovens (15-24 anos)
observa-se naquelas com graus de escolaridade mais elevados, ao contrário dos jovens
do sexo masculino, em que parece verificar-se uma tendência inversa. A
disponibilidade financeira da família também parece afectar este factor de risco de uma
forma idêntica. A prevalência de fumadoras entre as mulheres dos 15-24 anos parece
aumentar com a maior disponibilidade financeira da família, facto que não se observou
nos homens.
Tal como se verifica também no caso do consumo de bebidas alcoólicas, as
diferenças entre os sexos parecem ser, na fase de evolução em que se encontra a
sociedade portuguesa, importantes também entre os jovens».
O relatório anual sobre a evolução do fenómeno da droga na União Europeia, do
Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, de 1999, no capítulo
referente a «Drogas sintéticas: evoluções e respostas?, conclui:
«A preocupação política e pública com as drogas sintéticas subiu em flecha durante
os anos 90, em resposta ao consumo crescente e aparentemente generalizado de ecstasy
por um vasto segmento da juventude. Tornou-se cada vez mais difícil controlar estas
drogas - facilmente produzidas a baixo custo na EU a partir de materiais de fácil
acesso;
Estas drogas têm um efeito de cinta emocional, diminuindo as inibições e
intensificando os estados introspectivos;
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
A principal fonte de informação sobre o consumo de drogas sintéticas têm sido os
jovens associados à vida nocturna, embora o consumo de drogas sintéticas também
ocorra em outros cenários.
c) Mortalidade por causas externas na adolescência:
Num estudo efectuado por Vasco Prazeres ( Mortalidade por causas externas na
adolescência - variação segundo o sexo e a idade - 1989 a 1993) é possível concluir
que:
— Nas sociedades industrializadas a principal causa de morte no grupo etário dos
10 aos 19 anos é o conjunto de fenómenos habitualmente designados por causas
externas;
— No nosso país este conjunto de causas tem sido anualmente responsável por mais
de metade dos óbitos verificados nestas idades, atingindo mais os rapazes do que as
raparigas;
O mesmo autor compilou alguns dados (do Instituto Nacional de Estatística)
relativos a 1998 e é possível verificar que:
— Os acidentes de transporte são a causa de mortalidade mais relevante;
— O suicídio apresenta em Portugal pouca expressão, embora importe referir que a
segunda causa se denomine «sinais e sintomas mal definidos», não sendo possível
destrinçar se alguns dos óbitos decorrem de suicídio.
Segundo a mesma fonte, as lesões e os envenenamentos são o principal factor de
internamento dos 10 aos 19 anos, não sendo possível definir se auto-infligidos e, se
sim, em que percentagem.
A propósito da tentativa de suicídio de uma jovem, Daniel Sampaio - Daniel
Sampaio, A cinza do tempo, Editorial Caminho, Lisboa, 1997 - apela: «É preciso dizer
bem alto que em Portugal morrem de suicídio, por ano, mais de 100 jovens dos 10 aos
24 anos e que muitas centenas fazem tentativas de suicídio». Refere ainda que esta
realidade é mais grave no Alentejo.
A mesma fonte, noutra obra - Daniel Sampaio, Ninguém morre sozinho , Editorial
Caminho, Lisboa, 1991 -, apresenta os seguintes números: «Ferreiro de Castro e
Martins (1985), analisando as taxas de suicídio adolescente, em Portugal, entre os anos
de 1950 e 1983, verificam um nítido aumento desde 1960. Destacando o grupo dos 15
anos aos 19 anos, observam um aumento quer das taxas masculinas quer das femininas,
mas apenas significativo para estas últimas (...) Se analisarmos, no entanto, a evolução
do número de suicídios juvenis (dos 10 aos 24 anos), desde o ano de 1986 até ao ano de
1990, verificamos que o seu número tem diminuído nesse período (...), apesar da
evolução positiva dos números na segundo metade dos anos 80, o problema do suicídio
adolescente continua a merecer atenção. Se estudarmos mais em pormenor a variação
do número de suicídios dos 10 aos 24 anos no período a que nos temos vindo a referir
verificamos que, embora seja sempre superior o número de rapazes que atenta contra a
própria vida, o número de mortes por suicídio nas raparigas parece estar de acordo com
a tendência já referida anteriormente, o que merece a nossa preocupação. Os dados que
temos vindo a referir apontam inequivocamente para a necessidade de, no nosso país e
em muitos outros, serem feitos estudos e empreendidas acções para fazer face ao
problema do suicídio adolescente».
b) Problemas de saúde mental:
Segundo Vasco Prazeres - Vasco Prazeres, Saúde dos adolescentes, princípios
orientadores, Direcção-Geral de Saúde, 1998 -, várias questões do âmbito da saúde
mental adquirem hoje relevo particular, quer pelo aumento de incidência quer pela
maior atenção que lhes é prestada. Na adolescência, para além das toxicodependências
e das doenças do comportamento alimentar, são exemplo disso as situações de
depressão, os comportamentos para-suicidas e suicidas, cuja prevalência continua a
aumentar na nossa sociedade.
A rede Médicos Sentinela - dados preliminares do estudo que está a ser efectuado,
proferidos numa conferência pelo Dr. Vasco Prazeres - aponta como «motivos
principais de consulta» mais frequentes dos 10 aos 19 anos consultas de vigilância ou
de pedido de atestados. O número de consultas devido a estados depressivos,
depressões, stress e nervosismo situa-se a par do número de consultas devido a gripes,
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
dores de estômago, dores de pescoço ou outras dores localizadas. No final do ano esta
rede terá preparado um estudo detalhado sobre as causas de consulta médica nestas
idades.
Não existem em Portugal estudos estatísticos que permitam caracterizar a evolução
desta doença nos grupos de risco juvenis. Emília Costa - Ricardo Jorge Costa, Jornal a
Página da Educação, Pode a escola gerar depressões ? n.º 85, página 16 - reporta-se
aos dados retirados de consultas clínicas; «a faixa etária dos alunos com perturbações
varia entre os 17 e os 23 anos, estes últimos provenientes, na sua maioria, de cursos
científicos como as engenharias e as medicinas. (...). O número de casos não tem vindo
só a aumentar, como acontecem cada vez mais cedo, nomeadamente no ensino
secundário, onde as notas contam cada vez mais para o ingresso no universidade. Um
factor de pressão que pode chegar mesmo a pôr em causa relações de amizade devido à
competição que se estabelece entre os alunos. A solidariedade, que seria um dos valores
fundamentais a desenvolver nos jovens, é, nestes períodos, completamente posta de
lado.»
3 - Nota final
Atendendo aos sábios conselhos do Prof. Rui Mota Cardoso, esta discussão que aqui
se promove não deve apenas configurar um desígnio paliativo:
«Tudo o que seja atacar o problema através dos doentes designados é paliativo, ajuda
estes mas não ataca as causas, e fica aquém do taxa progressiva de crescimento
geométrico do problema-moléstia. O que, de facto, é crucial no adolescência é a
conquista da individualidade, que culmina na síntese de uma identidade que ultrapassa
o somatório, mais ou menos congruente, das anteriores e múltiplas identificações.
A conquista da nossa individualidade pressupõe a possibilidade de nos fazer sentir
idênticos a nós próprios (e não diferentes dos outros, que seria a nossa personalidade) e
isso acarreta a apropriação substantiva (é «eu» e não «meu») de:
1 - Um corpo e um afecto;
2 - Um passado e uma tradição;
3 - Um lugar e um território;
4 – Uma história e narrativa, coesas no presente e coerentes num trajecto temporal.
A individualidade tem, pois, que fazer sentido.
É por isso que o seu meio de cultura pressupõe a estabilidade/constância do
afecto e da memória e a mutabilidade/flexibilidade de um sentido para a existência.
Este meio de cultura rareia, no relativismo anómico das sociedades actuais e no
imediatismo virtual das redes mediáticas; nele, progressivamente, corpo, referência,
território e narrativa alienam-se, fragmentam-se e desmaterializam-se.
O que me espanta é como a juventude se mantém tão equilibrada. Como, nestas
circunstâncias, já desprovida de capacidade de se indignar e de nos pedir, a nós pais e
adultos, explicações sobre o mundo que lhe deixamos em legado, não rebentou numa
violência louca, intolerável e sem sentido».
Finalmente, outras áreas poderão, no âmbito do debate e do livro verde propostos, ser
consideradas como expressando factores e comportamentos de risco, nomeadamente a
área do saúde sexual e reprodutiva, que aqui não foi explorada dado tratar-se de matéria
que tem sido alvo de legislação e de tomada de medidas concretas. No entanto, visto até
estar co-relacionado com outras áreas merece, obviamente, espaço na discussão.
4 - Uma nova forma de olhar e tratar os factores e comportamentos de risco
A informação disponível sobre factores de risco na adolescência e na juventude
comprova a urgência de uma nova forma de olhar e tratar esses problemas.
Parece existir no comunidade científica e em fóruns internacionais, como o Conselho
da Europa, consenso no diagnóstico nos factores que geram maior perigo para os
jovens.
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Apesar dos indicadores estatísticos nacionais estarem, em muitos aspectos, longe da
gravidade de outros países europeus, convém não esquecer que Portugal está a importar
os modelos daqueles países à medida que se vai desenvolvendo. Esta visão é defendida
por todos os especialistas consultados nas diversas vertentes.
Nestes termos, os Deputados abaixo assinados, considerando que merece alargado
consenso o objectivo de proporcionar aos adolescentes e jovens um crescimento
equilibrado com a minimização de riscos e resposta adequada por parte do Estado e da
sociedade, apresentam, ao abrigo das disposições legais e regimentais aplicáveis, o
seguinte projecto de resolução:
A Assembleia da República pronuncia-se no sentido de:
«a) Organizar um amplo debate aberto a todo a sociedade portuguesa sobre as quatro
grandes áreas em que se expressam os factores e comportamentos de risco na
adolescência e na juventude, no qual intervenham especialistas e estruturas
representativas de todos os quadrantes interessados nesta temática;
b) Preparar um livro verde sobre os riscos na adolescência e na juventude, que defina
as necessidades de diagnóstico, que crie metodologias que o permitam e proceda à sua
realização, apontando soluções e avaliando as necessidades para a sua implementação.
O livro verde deve ponderar propostas e sugestões de resposta a riscos já
diagnosticados, designadamente:
1 – Na área de investimento na investigação epidemiológica dos determinantes da
saúde, nomeadamente através da realização de estudos nacionais sobre a prevalência
dos diferentes factores de risco;
2 — Na área de reforço dos serviços de saúde, de educação, de segurança social das
ONG, etc, como são exemplos:
Criação de unidades anti-tabágicas em pelo menos um hospital por região (a exemplo
da experiência em curso no Hospital Pulido Valente);
Criação de unidades anti-consumidores excessivos (alcoólicos), promovidas
por agentes locais;
Presença de um nutricionista e um psicólogo em pelo menos um centro de saúde por
concelho;
Criação de gabinetes de apoio aos alunos nas universidades, à semelhança do que se
passa em algumas faculdades do Porto, ligados a centros de psicologia e abertos à
comunidade;
Aumento do número de psicólogos nas escolas;
Rentabilização da ida dos jovens a consultas nos centros de saúde, aproveitando para
analisar outros quadros clínicos ou para distribuir informação sobre factores de risco.
Repensar os serviços de atendimento médico e ponderar a existência de
características diferentes das actuais
3 — Na área da prevenção primária, apostando, designadamente, na:
Definição de estratégias para o combate ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas
através, por exemplo, da limitação da oferta;
Identificação de métodos educacionais mais efectivos na área da nutrição;
Inscrição nos manuais escolares de alertas (por exemplo, perigo das dietas, do
consumo de álcool associado à condução, depoimentos de quem já passou por este tipo
de experiência, dados estatísticos referentes ao número de jovens que morre ou fica
com lesões para o resto do vida ...) e dos números de telefone de linhas verdes e de
aconselhamento.
4 — Na área da promoção de saúde e de estratégias integradas de intervenção sobre
os factores de risco. A exemplo:
Criação de mecanismos que permitam desenvolver, em cada adolescente e em cada
grupo, os factores protectores (individuais e colectivos) contra as repercussões
negativas desses mesmos riscos.
5 — Na área de conjugação de esforços a nível regional/local e de levantamento dos
centros de atendimento de jovens já existentes.
Promoção de iniciativas de prevenção em toda a comunidade que envolvam de forma
integrada todos os sectores onde os jovens se inserem (família, amigos, escola, clubes
desportivos, associações juvenis...).
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Ponderação da adequada forma de articulação entre o Estado, autarquias, escolas e
organizações não governamentais para a adopção das medidas necessárias.
Desenvolvimento e avaliação das experiências de projectos de intervenção
específicos dirigidos às crianças e adolescentes das populações mais pobres, em
particular das periferias urbanas e do interior.
Palácio de São Bento, 28 de Setembro de 2000. Os Deputados do PS: Mafalda
Troncho — João Sequeira — Ana Catarina Mendonça — João Pedro Correia — José
Alberto Fateixa — Carla Tavares — Bruno Almeida — António Galamba — Afonso
Candal — Filipe Vital — Dinis Costa — Luís Miguel Teixeira — Sónia Fertuzinhos —
José Miguel Medeiros — Paula Cristina Duarte — Jamila Madeira — Artur Penedos
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Publicação — DAR II série A — 73-81 — 30/09/2000
0073 | II Série A - Número 004 | 30 de Setembro de 2000
A exploração pecuária é constituída por gado bovino e ovino.
A criação da freguesia de Águas Vivas é uma aspiração da sua população, que se baseia em razões não só de maior comodidade e bem-estar para os seus habitantes, mas também por existir o sentimento de estarem reunidos os requisitos sociais, culturais e económicos necessários à sua manutenção.
Pelas razões expostas, os Deputados abaixo assinados, do Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata, apresentam o seguinte projecto de lei:
Artigo 1.º
É criada, no concelho de Miranda do Douro, a freguesia de Águas Vivas.
Artigo 2.º
Os limites da nova freguesia de Águas Vivas, conforme representação cartográfica anexa, são definidos:
A norte: freguesia de Silva e Vilar Seco;
A sul e nascente: freguesia de Duas Igrejas;
A poente: freguesia de Palaçoulo e Forte da Aldeia.
Artigo 3.º
A sede da futura freguesia será denominada "Águas Vivas".
Artigo 4.º
1 - A comissão instaladora da nova freguesia será constituída nos termos e no prazo previstos no artigo 9.º da Lei n.º 8/93, de 5 de Março.
2 - Para os efeitos do disposto no número anterior, a Câmara Municipal de Miranda do Douro nomeará uma comissão instaladora constituída por:
a) Um membro da Assembleia Municipal de Miranda do Douro;
b) Um membro da Câmara Municipal de Miranda do Douro;
c) Um membro da Assembleia de Freguesia de Palaçoulo;
d) Cinco cidadãos eleitores da área da nova freguesia.
Artigo 5.º
A comissão instaladora exercerá as suas funções até à tomada de posse dos órgãos autárquicos da nova freguesia.
Lisboa, 31 de Maio de 2000. Os Deputados do PSD: Luís Machado Rodrigues - Adão Silva.
PROJECTO DE RESOLUÇÃO N.º 76/VIII
CONVOCAÇÃO DO CONSELHO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS
Em Setembro de 1997 reuniu, na Assembleia da República, o Plenário Mundial do Conselho das Comunidades Portuguesas, composto por 100 Conselheiros, eleitos em Abril desse ano, ao abrigo da Lei n.º 48/96, de 4 de Setembro, aprovada por esta Assembleia da República.
Nessa reunião plenária foi eleito um Conselho Permanente, cuja constituição está prevista ao abrigo do artigo 17.º do referido diploma.
Porém, essa eleição não foi pacífica e mereceu da parte de três Conselheiros um processo de impugnação, que correu os seus trâmites, vindo a obter decisão positiva de impugnação por parte do Supremo Tribunal Administrativo em Fevereiro de 2000.
A partir dessa data o Conselho Permanente perdeu toda a legitimidade por ser considerada nula e de nenhum efeito a eleição então efectuada, e é justamente a partir dessa data (Fevereiro de 2000) que a situação tomou contornos verdadeiramente caricatos.
O Sr. Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, a quem incumbe, por força de lei, a convocação de nova reunião mundial para eleição do Conselho Permanente, nega-se a fazê-lo, porque diz desconhecer a decisão do Supremo Tribunal Administrativo.
Acontece, porém, que em pelo menos duas reuniões da Comissão de Negócios Estrangeiros, Comunidades Portuguesas e Cooperação foi o Sr. Secretário de Estado informado desta situação e questionado sobre o que tenciona o Governo fazer, recusando-se o Sr. Secretário de Estado a fazê-lo, afirmando desconhecer a referida decisão do Supremo Tribunal Administrativo.
Nem o facto de lhe ter sido dado conhecimento através de um requerimento enviado ao Sr. Presidente da Assembleia da República pelo Grupo Parlamentar do PCP, com a decisão apensa, nem o facto de ter sido entregue no Ministério dos Negócios Estrangeiros cópia autenticada da sentença do STA pelos peticionantes demoveu o Sr. Secretário de Estado.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do PCP apresenta o seguinte projecto de resolução:
A Assembleia da República considera preenchidos os requisitos que conduzem à necessidade de convocação de uma reunião plenária, em Portugal, do Conselho das Comunidades Portuguesas e, nesse sentido, recomenda que, ao abrigo da alínea b) do n.º 1 do artigo 15.º, o Governo convoque com carácter de urgência uma reunião plenária do Conselho das Comunidades para eleição do seu Conselho Permanente, prevista no artigo 17.º do referido diploma.
Assembleia da República, 27 de Setembro de 2000. Os Deputados do PCP: Rodeia Machado - Vicente Merendas - Lino de Carvalho - Margarida Botelho - Natália Filipe - mais uma assinatura ilegível.
PROJECTO DE RESOLUÇÃO N.º 77/VIII
APROVA MEDIDAS DE COMBATE A FACTORES DE RISCO NA ADOLESCÊNCIA E NO JUVENTUDE
(A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera, na maioria dos documentos, "adolescência" e "juventude" como os períodos da vida que medeiam entre os 10 e os 19 anos e entre os 15 e os 24 anos, respectivamente)
"Sente-se uma tensão impressionante (...)" - Daniel Sampaio, Vozes e ruídos - Diálogos com adolescentes, Editorial Caminho, 1993)
A adolescência corresponde a uma fase da vida onde se buscam novas referências, sentido de pertença, onde se testam
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