Projeto de Resolução n.º 919/XIV/2.ª
Recomenda ao Governo que defina um quadro de ação para o Ártico
A região do Ártico tem vindo, nos últimos anos, a ganhar relevância geopolítica e
geoeconómica, atraindo a atenção de cada vez mais países, incluindo de países
geograficamente distantes do círculo polar ártico. O Ártico tem também sido objeto de
crescente preocupação devido aos impactos económicos, sociais e ambientais das
alterações climáticas que a região tem sofrido, e de um renovado interesse científico.
De facto, de acordo com o Relatório Especial sobre os Oceanos e Criosfera em
Mudança Climática (2019), do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas
das Nações Unidas, nas últimas décadas, o aquecimento global tem levado à
diminuição generalizada da criosfera, com perda de massa a partir de camadas de gelo
e glaciares, redução da cobertura de neve e da extensão e espessura do gelo marinho
do Ártico, aumentando a temperatura do pergelissolo. De acordo com este relatório,
estes fatores, entre muitos outros de carácter técnico-científico, contribuem para a
amplificação do fenómeno do aquecimento da região do Ártico, onde acredita-se com
elevado grau de confiança que a temperatura do ar na superfície aumentou mais do
que o dobro da média global nas últimas duas décadas, causando um acelerado degelo
do Oceano Ártico que terá consequências globais significativas. O nosso território está
na linha da frente dos impactos gerados por estas alterações, circunstância que releva
a necessidade de melhorar a monitorização, em tempo real, destas mudanças.
A maior navegabilidade do Ártico, por consequência do acelerar do degelo na região,
abre novas rotas marítimas que ligam o Pacífico ao Atlântico, facilitando e
intensificando os fluxos comerciais entre as grandes potências económicas da Ásia-
Pacífico, em particular a China e a União Europeia.
É relevante recordar que em 1996 foi estabelecido o Conselho do Ártico, com a
assinatura da Declaração de Otava, onde foram firmados compromissos para o
desenvolvimento sustentável da região do Ártico, para a sua proteção ambiental, dos
seus ecossistemas e da sua biodiversidade, assim como para a conservação e utilização
sustentável dos seus recursos. Este Conselho foi estabelecido com o fim de promover a
cooperação, coordenação e interação entre os Estados do Ártico, envolvendo também
a participação das comunidades indígenas e outros povos da região nas questões
supramencionadas. Não menos relevante é assinalar que em 2013 vários países
asiáticos, entre eles China, Japão e Singapura, adquiriram estatuto de observador no
Conselho do Ártico, o que demonstra bem o interesse estratégico da região.
A exploração dos inúmeros recursos naturais, desde minerais às pescas, passando
pelos recursos energéticos, e que são ainda insuficientemente explorados, significará
um aumento da concorrência geopolítica na região e um aumento da preocupação
internacional, e nacional, em garantir o cumprimento do direito internacional, em
particular da Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar, e em assegurar o
desenvolvimento sustentável.
Mas se a abertura das vias marítimas poderá trazer benefícios económicos, ela pode
também significar novos desafios na relação entre os Estados do Ártico, tendo em
conta os atuais conflitos decorrentes das reivindicações territoriais, e entre estes e
outros países com claros interesses na região, procurando garantir o acesso a esta e
aos seus recursos naturais.
O aumento da concorrência geopolítica na região tem também encontrado expressão
na vertente securitária, com a intensificação dos exercícios e atividades militares dos
países do Ártico.
A União Europeia, tal como a Espanha, a Itália, a França, entre outros Estados
europeus sem ligação geográfica à região, tem vindo a delinear estratégias e quadros
de ação para o Ártico, reconhecendo que não devemos permanecer alheios, seja às
potencialidades, seja à resposta aos desafios de escala global que surgem hoje naquela
região.
Portugal, enquanto país de vocação marítima e centralidade atlântica e cujos
interesses geopolíticos aí estão firmemente enraizados, tem vantagens em associar-se
às preocupações dos Estados do Ártico, seus parceiros seja na NATO seja na UE, e às
políticas que sobre a região têm desenvolvido. Portugal está localizado no Atlântico
Norte, ocupando os Açores uma posição geoestratégica privilegiada. Nesse sentido, é
do interesse nacional conter possíveis situações de instabilidade na região, garantindo
um Ártico seguro e desmilitarizado, tendo em conta que nos situamos na porta de
entrada atlântica do Oceano Ártico.
Além do mais, a abertura e exploração de novas rotas marítimas no Ártico,
constituindo-se como uma efetiva alternativa às tradicionais vias de ligação marítima
entre o Atlântico e o Pacífico, pelo canal do Panamá, e entre o Atlântico e o Índico,
pelo canal do Suez, terá certamente consequências na posição relativa dos portos
nacionais, implicando novos cálculos na gestão das infraestruturas portuária do país.
Mas também é do interesse nacional que se adotem modelos de exploração do
potencial da região que sejam consentâneos com as normas internacionais em matéria
de desenvolvimento sustentável, de respeito pelos direitos humanos, pelos povos
indígenas e populações locais, assim como pelo meio ambiente. A região oferece
ainda novas oportunidades de investigação marinha, estudo dos oceanos, mas
também de infraestruturas espaciais, que interessa certamente a Portugal apoiar,
desenvolver e explorar. Neste sentido, será particularmente importante o
desenvolvimento da Agenda de Investigação e Inovação para a Ciência e Tecnologia
Polares, na medida em que demonstra o compromisso de Portugal em desenvolver
capacidades de investigação científica nas regiões polares de forma sustentada.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, os
Deputados abaixo-assinados apresentam o seguinte projeto de resolução:
Nos termos da alínea b) do artigo 156º da Constituição da República Portuguesa, a
Assembleia da República resolve recomendar ao Governo que:
1. Desenvolva um quadro de ação nacional para o Ártico, em linha com os
princípios do desenvolvimento sustentável, no qual se articulem as várias
dimensões críticas em questão – ambiental, económica e social – em áreas que
vão desde as orientações para a frota de bandeira portuguesa, o combate às
alterações climáticas e a proteção ambiental às oportunidades de investigação
científica e de infraestruturas estratégicas, incluindo a segurança do círculo
polar ártico, entre outras.
2. Contribua para a implementação da atual e da futura política integrada da UE
para o Árti co e para o desenvolvimento desta numa estratégia conjunta da
União relativamente ao Ártico.
3. Considere uma candidatura ao Conselho do Ártico, como Estado observador.
Palácio de São Bento, 29 de janeiro de 2021
As Deputadas e os Deputados,
(Lara Martinho)
(Paulo Pisco)
(Diogo Leão)
(José Luís Carneiro)
(Ascenso Simões)
(Edite Estrela)
(Paulo Porto)
(João Paulo Pedrosa)
(Olavo Câmara)
(José Manuel Carpinteira)
(Carla Sousa)
(Susana Correia)
(Carlos Brás)
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Publicação — DAR II série A — 79-80 — 04/02/2021
4 DE FEVEREIRO DE 2021
Anabela Rodrigues — Rita Borges Madeira — João Miguel Nicolau — Olavo Câmara — Romualda Fernandes
— Fernando Paulo Ferreira.
———
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 919/XIV/2.ª
RECOMENDA AO GOVERNO QUE DEFINA UM QUADRO DE AÇÃO PARA O ÁRTICO
A região do Ártico tem vindo, nos últimos anos, a ganhar relevância geopolítica e geoeconómica, atraindo a
atenção de cada vez mais países, incluindo de países geograficamente distantes do círculo polar ártico. O Ártico
tem também sido objeto de crescente preocupação devido aos impactos económicos, sociais e ambientais das
alterações climáticas que a região tem sofrido, e de um renovado interesse científico.
De facto, de acordo com o Relatório Especial sobre os Oceanos e Criosfera em Mudança Climática (2019),
do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas, nas últimas décadas, o
aquecimento global tem levado à diminuição generalizada da criosfera, com perda de massa a partir de camadas
de gelo e glaciares, redução da cobertura de neve e da extensão e espessura do gelo marinho do Ártico,
aumentando a temperatura do pergelissolo. De acordo com este relatório, estes fatores, entre muitos outros de
carácter técnico-científico, contribuem para a amplificação do fenómeno do aquecimento da região do Ártico,
onde acredita-se com elevado grau de confiança que a temperatura do ar na superfície aumentou mais do que
o dobro da média global nas últimas duas décadas, causando um acelerado degelo do Oceano Ártico que terá
consequências globais significativas. O nosso território está na linha da frente dos impactos gerados por estas
alterações, circunstância que releva a necessidade de melhorar a monitorização, em tempo real, destas
mudanças.
A maior navegabilidade do Ártico, por consequência do acelerar do degelo na região, abre novas rotas
marítimas que ligam o Pacífico ao Atlântico, facilitando e intensificando os fluxos comerciais entre as grandes
potências económicas da Ásia-Pacífico, em particular a China e a União Europeia.
É relevante recordar que em 1996 foi estabelecido o Conselho do Ártico, com a assinatura da Declaração de
Otava, onde foram firmados compromissos para o desenvolvimento sustentável da região do Ártico, para a sua
proteção ambiental, dos seus ecossistemas e da sua biodiversidade, assim como para a conservação e
utilização sustentável dos seus recursos. Este Conselho foi estabelecido com o fim de promover a cooperação,
coordenação e interação entre os Estados do Ártico, envolvendo também a participação das comunidades
indígenas e outros povos da região nas questões supramencionadas. Não menos relevante é assinalar que em
2013 vários países asiáticos, entre eles China, Japão e Singapura, adquiriram estatuto de observador no
Conselho do Ártico, o que demonstra bem o interesse estratégico da região.
A exploração dos inúmeros recursos naturais, desde minerais às pescas, passando pelos recursos
energéticos, e que são ainda insuficientemente explorados, significará um aumento da concorrência geopolítica
na região e um aumento da preocupação internacional, e nacional, em garantir o cumprimento do direito
internacional, em particular da Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar, e em assegurar o
desenvolvimento sustentável.
Mas se a abertura das vias marítimas poderá trazer benefícios económicos, ela pode também significar novos
desafios na relação entre os Estados do Ártico, tendo em conta os atuais conflitos decorrentes das reivindicações
territoriais, e entre estes e outros países com claros interesses na região, procurando garantir o acesso a esta
e aos seus recursos naturais.
O aumento da concorrência geopolítica na região tem também encontrado expressão na vertente securitária,
com a intensificação dos exercícios e atividades militares dos países do Ártico.
A União Europeia, tal como a Espanha, a Itália, a França, entre outros Estados europeus sem ligação
geográfica à região, tem vindo a delinear estratégias e quadros de ação para o Ártico, reconhecendo que não