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Projecto de Resolução n.º 31/XIV/1ª
Recomenda ao Governo a adopção de medidas que permitam reforçar os
direitos das mulheres na gravidez e no parto
Em 2017, morreram em Portugal nove mulheres durante a gravidez, parto ou pós-parto. A
taxa de mortalidade materna — de nove mulheres em 86.154 nascimentos, o que equivale a
10,4 óbitos por um valor referência de 100 mil nascimentos — não estava tão alta desde
1991, ano em que nasceram em Portugal 116 mil bebés e em que morreram 12 mulheres por
cada cem mil nascimentos. Em 2016, Portugal já era o quarto país da União Europeia com a
taxa mais elevada de mortalidade materna, apenas atrás da Estónia, Hungria e Letónia. A
mortalidade infantil está também a aumentar, tendo morrido mais de 60 crianças no primeiro
ano de vida em 2018. Estes dados são preocupantes e merecem a nossa reflexão.
É, também, essencial dar uma maior atenção à qualidade da assistência, só assim se
assegurando uma experiência de maternidade plena. Segundo a White Ribbon Alliance, a
noção de segurança perinatal deve ser estendida para além da prevenção de morbilidade ou
mortalidade, englobando o respeito pelos direitos humanos fundamentais das mulheres,
incluindo o respeito pela sua autonomia, dignidade, sentimentos, escolhas e preferências,
incluindo a escolha de um acompanhante 1. De igual forma, a Organização Mundial de Saúde
(OMS) tem defendido que apesar dos substanciais progressos alcançados, os países precisam
de consolidar e aumentar os seus avanços e de alargar os seus objectivos para além da
sobrevivência, com vista a maximizar a saúde e o potencial das suas populações.2
Em 2015, a Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto publicou os
resultados de um Inquérito online, que decorreu entre 1/1/2012 e 31/3/2015 e no qual
participaram 3833 mulheres, sobre as suas experiências de parto, que intitulou de
1 http://whiteribbonalliance.org/wp-content/uploads/2015/03/MBFBF-guidelines.pdf
2 Cfr. https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/250800/WHO-RHR-16.12-
por.pdf;jsessionid=AB4441092EC602CC98DD53F22722EC4B?sequence=2
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“Experiências de Parto em Portugal” 3 e que é elucidativo do caminho que ainda há a
percorrer neste âmbito.4
Atendendo a que 97,8% das mulheres declararam ter parido em contexto hospitalar, no que
diz respeito ao tipo de parto, 33,2% das mulheres responderam que teve parto por cesariana
nos hospitais públicos, o que vai também ao encontro da média nacional. 5 Segundo dados da
Entidade Reguladora da Saúde, avançados pelo jornal Público6, a taxa de cesarianas no sector
privado ascende aos 66%. Portugal é um dos países da União Europeia com maior taxa de
cesarianas, tendo inclusivamente sido criada a Comissão para a Redução de Taxa de
Cesariana, presidida pelo Professor Doutor Ayres de Campos. Em entrevista à revista Visão7, o
mesmo Professor, quando questionado sobre o que deve ser dito a um casal que está à
espera de um bebé em consulta sobre a cesariana, responde:
“Eu acho que deve ser dito que, se houver uma indicação qualquer de saúde para fazer uma
cesariana ninguém hesita. Mas não havendo, e sabemos que em noventa e tal por cento das
situações não há indicação nenhuma, porque a maior parte das grávidas são pessoas
saudáveis, a forma mais segura de se ter o bebé é através de um parto normal. Não é de um
parto que é provocado, porque isso também tem um risco maior para o bebé e também um
risco maior de acabar em cesariana, é de um parto que, chegando a altura certa, o bebé dará
sinais de quando é que quer nascer. E começará a ter um trabalho de parto de início
espontâneo. É assim que devem nascer a maioria dos bebés em todo o mundo porque é mais
seguro. As cesarianas devem ser reservadas para aquelas situações onde há indicação prévia,
ou para as situações em que, durante um trabalho de parto não há evolução ou há alguns
sinais do bebé que poderá não estar a ser adequadamente oxigenado. Nessas situações, pode
3http://www.associacaogravidezeparto.pt/wp-
content/uploads/2016/08/Experi%C3%AAncias_Parto_Portugal_2012-2015.pdf
4 A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto iniciou recentemente a 2.ª
edição do inquérito “Experiências de Parto em Portugal” que, lançado há quatro dias, conta já com
mais de 4500 participações.
5 http://www.europeristat.com/images/Comunicado_imprensa_EUROPERISTAT.pdf
6 https://www.publico.pt/2007/05/11/sociedade/noticia/taxa-de-cesarianas-nas-unidades-privadas-e-
de-66-por-cento-o-dobro-do-sector-publico-1293644
7 http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/a-forma-mais-segura-de-nascer-e-de-parto-
normal=f821642
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e deve ser feita uma cesariana para que ocorra o nascimento de um bebé normal que é o que
todos nós queremos”.
Ainda em resposta à mesma questão do inquérito, 47,6% das mulheres tiveram um parto
com alguma intervenção, sendo que apenas 19,2% das mulheres revelaram ter tido parto
vaginal natural, o que constitui claramente uma minoria.
Estas respostas são ilustrativas do nível de intervenção médica que existe neste âmbito,
tornando o parto cada vez mais instrumentalizado e menos humanizado, quando deveria
acontecer exatamente o contrário.
Quando questionadas sobre se tiveram o parto que queriam, 43,5% das mulheres
responderam que não. Nesta questão, as mulheres podiam justificar a sua resposta
escrevendo um comentário. A título de exemplo, foi respondido que “Não porque tive tudo o
que não queria: episiotomia, rebentamento das águas artificialmente, posição de parto
deitada” e “não queria que me fizessem a episiotomia, mas nem sequer me deram a
escolher”. Face aos comentários, a autora do relatório do Inquérito conclui que “Estes
testemunhos são reveladores de situações e práticas de coerção, de desrespeito pelo direito
à recusa e ao consentimento informado, de abuso e de violência obstétrica que persistem nos
serviços de saúde materna portugueses”.8
Relativamente à informação sobre as opções de parto, fundamental para escolhas
esclarecidas, 43,3% das mulheres inquiridas revelaram que não lhes foi dada qualquer
informação sobre as suas possíveis opções, ou seja, indução, cesariana, parto domiciliar, etc.
Cerca de 23% das inquiridas também revelaram desconforto com a posição adoptada para o
parto, tendo a obrigação de permanecer numa posição que não era a pretendida afectando a
sua experiência.
A questão “Perguntaram-me se concordava com cada intervenção ou exame antes de este
acontecer?” ganha especial relevância por estarem em causa direitos humanos, tal como foi
8 Op. Cit., página 15
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reconhecido pela OMS9, mas também porque 43,8% das mulheres referiram que não lhes foi
solicitado consentimento para as intervenções, o que indicia alguma vulgaridade na prática
de actos não consentidos e esclarecidos. Não podemos ignorar o disposto no Código Penal
que, sobre o dever de esclarecimento em Intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos, no
seu artigo 157.º refere que “(…) o consentimento só é eficaz quando o paciente tiver sido
devidamente esclarecido sobre o diagnóstico e a índole, alcance, envergadura e possíveis
consequências da intervenção ou do tratamento (…)”, excepcionando a referida norma
apenas, naturalmente, as situações de emergência, que representam a minoria das situações.
Sobre este aspecto, no referido Inquérito, se é verdade que houve mulheres que disseram
“Logo quando fui admitida, entreguei o meu plano de parto e mostrei-me aberta ao diálogo.
As enfermeiras foram maravilhosas – leram o plano, discutiram algumas dúvidas (sem nunca
pressionar em nenhum sentido) e ao longo do parto, respeitaram EM ABSOLUTO esse mesmo
plano”, outras afirmaram que “Uma episiotomia não consentida é uma violação. Manifestar
intenção de não ser anestesiada foi, no meu caso, uma luta pela qual nenhuma mulher
grávida deverá passar… sobretudo num momento como o trabalho de parto” ou “Não fui
informada acerca de nenhuma intervenção”.
Importa, ainda, salientar a percentagem de mulheres que revelaram ter sido sujeitas a
episiotomia, intervenção médica que implica uma incisão efetuada na região do períneo (área
muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto, que foi de 72,2%., valor este
que vai ao encontro da média de episiotomias nacional. Estes dados têm especial importância
por mostrarem como o nosso país está longe de respeitar as recomendações da Organização
Mundial de Saúde (OMS) quanto a esta prática. A OMS recomenda que a taxa de ocorrência
desta intervenção não ultrapasse os 10% 10, mas Portugal tem uma taxa de ocorrência de
episiotomia de 73%, sendo o segundo país da Europa com a taxa mais alta.11
9 Cfr. Declaração da Organização Mundial de Saúde, “Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e
maus-tratos durante o parto em instituições de saúde”, disponível online em
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/134588/3/WHO_RHR_14.23_por.pdf
10 World Health Organization. Classification of practices in normal birth. In: Care in normal birth: a
practical guide. Geneva; 1996. p. 34-7. (WHO Technical Report Series FRH/MSM/96.24)
11 http://www.europeristat.com/images/Comunicado_imprensa_EUROPERISTAT.pdf
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Por último, depois do relatório especial sobre maus-tratos e violência contra as mulheres nos
serviços de saúde reprodutiva, apresentado este ano na Assembleia Geral das Nações
Unidas,12 a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa pronunciou-se sobre este tema.
Na Resolução 2306 de 2019 13, a “Violência obstétrica e ginecológica” é considerada “uma
forma de violência que tem sido ocultada e demasiadas vezes ignorada. Na privacidade de
uma consulta médica ou do parto, as mulheres são vítimas de práticas que são violentas ou
percecionadas enquanto tal. Estas incluem atos inapropriados ou não consensuais, tais como
episiotomias e exames vaginais efetuados sem consentimento, pressão fúndica uterina ou
intervenções dolorosas sem anestesia. Também foi reportado comportamento sexista na
decorrência de consultas médicas.”
De modo a promover cuidados “humanos, respeitosos e dignos”, o Conselho da Europa
recomenda aos estados-membros a disseminação das boas práticas identificadas pela
Organização Mundial de Saúde, a promoção de educação e estratégias de sensibilização
acerca de todos os tipos de discriminação e violência de género, na qual a violência obstétrica
se insere, a implementação de mecanismos legais para o seu combate e a provisão de
assistência às vítimas, entre outras recomendações. A formação dos profissionais de saúde é
considerado um factor-chave para a erradicação deste tipo de violência, sendo recomendada
uma “particular importância à relação entre provedores de cuidados e pacientes, o conceito
de consentimento informado, igualdade entre mulheres e homens, a recepção de pessoas
LGBTI, pessoas com incapacidades e pessoas vulneráveis, comunicação, a prevenção de
sexismo e violência e a promoção de uma abordagem humana aos cuidados”.
Todos estes dados são fundamentais e permitem uma reflexão aprofundada do estado da
qualidade do serviço de saúde materna e obstetrícia público e qual deve ser o caminho para
que este melhore. Fundamentalmente, é da máxima importância que as mulheres conheçam
os seus direitos, tomem decisões esclarecidas e que se verifique um esforço por parte dos
profissionais de saúde não só no sentido de prestar esse esclarecimento como de respeitar as
12 Cfr. https://digitallibrary.un.org/record/3823698?ln=en
13 Cfr. http://assembly.coe.int/nw/xml/XRef/Xref-XML2HTML-
EN.asp?fileid=28236&lang=en&fbclid=IwAR1Fs_3dBoi-
tKCM7djPEsTgGik2ZWjLbuBM4yDJfDPvo2FX5imvAE6xSow
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escolhas das mulheres. Cuidados de boa qualidade exigem a eliminação de abusos e maus-
tratos durante a gravidez, parto e pós-parto, devendo toda a intervenção ser baseada no
respeito pela dignidade humana, sem qualquer tipo de discriminação. Em suma, é necessário
criar outros indicadores de qualidade que não se cinjam à mortalidade ou aos
reinternamentos. As mulheres devem ser incluídas no processo de parto e deixar de ser
entendidas como meras testemunhas do mesmo, mas para isso é necessário mudar o
paradigma actual de parto para um mais centrado na mulher e na sua experiência. Deverá
fomentar-se o parto fisiológico, com possibilidade de apoio continuado, por forma a que
aumente o número de partos naturais e que estes sejam vistos e sentidos como experiências
felizes e empoderadoras pelas mulheres e pelos profissionais de saúde.
Para todo este processo, é essencial a participação das mulheres, da comunidade, dos
profissionais de saúde, dos organismos de educação e certificação e das associações
profissionais. A partilha de experiências certamente resultará na melhoria das condições de
trabalho dos profissionais e dos partos para as famílias.
Nestes termos, a Assembleia da República, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição,
por intermédio do presente Projecto de Resolução, recomenda ao Governo que:
1. Desenvolva uma campanha nacional de promoção de educação e sensibilização sobre
todos os tipos de discriminação e violência de género, na qual a violência obstétrica
se insere, junto do público em geral e, em particular, dos profissionais dos serviços de
saúde materna e obstetrícia, conforme recomenda o Conselho da Europa;
2. Crie um questionário de satisfação às mulheres e aos profissionais nos serviços de
saúde materna e obstetrícia;
3. Dê cumprimento às recomendações da Organização Mundial de Saúde,
nomeadamente:
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a. Comece, apoie e mantenha programas desenhados para melhorar a
qualidade dos cuidados de saúde materna, com forte enfoque no cuidado
respeitoso como componente da qualidade da assistência;
b. Enfatize os direitos das mulheres a uma assistência digna e respeitosa
durante a gravidez e o parto junto dos profissionais de saúde materna e
obstetrícia e das mulheres;
c. Envolva todos os interessados, incluindo obviamente as mulheres, nos
esforços para melhorar a qualidade da assistência e eliminar o desrespeito e
as práticas abusivas.
4. Promova a realização e divulgação de um estudo sobre situações de abuso,
desrespeito e utilização de práticas não consentidas durante a gravidez o parto em
instituições de saúde;
5. Crie um Grupo de Trabalho que integre nomeadamente associações dos profissionais
de saúde e organizações da sociedade civil para promoção do parto e processo de
parto humanizado e, adoptando as boas práticas promovidas pela Organização
Mundial de Saúde, elabore recomendações;
6. Promova o reforço da formação dos profissionais de saúde, que aborde
nomeadamente a relação entre provedores de cuidados e pacientes, o conceito de
consentimento informado, a igualdade de género, o atendimento de pessoas LGBTI+,
pessoas com incapacidades e pessoas vulneráveis, comunicação e a promoção de
uma abordagem humana aos cuidados de saúde;
7. Crie mecanismos de denúncia de situações de abuso, desrespeito e utilização de
práticas não consentidas durante o parto em instituições de saúde;
8. Adopte medidas de redução da taxa de episiotomia, respeitando as recomendações
da Organização Mundial de Saúde sobre esta prática, nomeadamente através da
promoção do parto fisiológico e respeitado e de cuidados prestados em parceira com
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a mulher, que implicam informação, a oferta de diferentes opções e o respeito pelas
suas escolhas.
Palácio de São Bento, 7 de Novembro de 2019
As deputadas e o deputado,
André Silva
Bebiana Cunha
Cristina Rodrigues
Inês de Sousa Real
---
Publicação — DAR II série A — 37-40 — 07/11/2019
7 DE NOVEMBRO DE 2019
perderam a sua importância, continuando a ser um fator de promoção da coesão territorial e de combate às
desigualdades.
Facilmente se conclui que o serviço postal, a continuar nas mãos de privados e seguindo este rumo, tem o
seu futuro comprometido, sob pena de ser destruído de forma irreversível, e que a privatização dos CTT se
apresenta como lesiva para o Estado, as populações e os trabalhadores.
Ora, perante tudo isto, importa que os CTT prestem um serviço de qualidade a toda a população, cumprindo
o seu papel no desenvolvimento do país a nível local, regional e nacional, sendo para isso fundamental que o
Governo defenda este serviço estratégico e os interesses e necessidades dos cidadãos e do país, o que só é
objetivamente possível quando os CTT voltarem a integrar a esfera do Estado, passando este a deter o controlo
e a gestão do serviço postal.
Na verdade, cinco anos após a privatização dos CTT e face ao que assistimos, Os Verdes não têm dúvidas
de que o enfoque para a recuperação dos CTT não reside propriamente no contrato de concessão, mas sim na
própria natureza da propriedade dos CTT, que deve regressar ao Estado, o quanto antes. A sua privatização
nunca se justificou e mantém-se hoje sem se justificar.
E, de facto, face ao exposto, exige-se que o Governo intervenha rapidamente, assumindo um papel de defesa
de um serviço postal de qualidade, público e universal e invertendo este caminho de degradação que, como já
era expectável, se veio revelar trágico para o País, recuperando os CTT e o serviço postal universal através da
reversão da sua privatização e do regresso da sua gestão à esfera do Estado.
Assim, nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, os deputados do Partido Ecologista «Os Verdes»,
apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República recomenda ao Governo que inicie o processo de reversão da privatização dos
CTT – Correios de Portugal, por forma a que a sua gestão regresse à esfera do Estado.
Palácio de São Bento, 7 de novembro de 2019.
Os Deputados do PEV: José Luís Ferreira — Mariana Silva.
———
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 31/XIV/1.ª
RECOMENDA AO GOVERNO A ADOÇÃO DE MEDIDAS QUE PERMITAM REFORÇAR OS DIREITOS
DAS MULHERES NA GRAVIDEZ E NO PARTO
Em 2017, morreram em Portugal nove mulheres durante a gravidez, parto ou pós-parto. A taxa de mortalidade
materna — de nove mulheres em 86 154 nascimentos, o que equivale a 10,4 óbitos por um valor referência de
100 mil nascimentos — não estava tão alta desde 1991, ano em que nasceram em Portugal 116 mil bebés e em
que morreram 12 mulheres por cada cem mil nascimentos. Em 2016, Portugal já era o quarto país da União
Europeia com a taxa mais elevada de mortalidade materna, apenas atrás da Estónia, Hungria e Letónia. A
mortalidade infantil está também a aumentar, tendo morrido mais de 60 crianças no primeiro ano de vida em
2018. Estes dados são preocupantes e merecem a nossa reflexão.
É, também, essencial dar uma maior atenção à qualidade da assistência, só assim se assegurando uma
experiência de maternidade plena. Segundo a White Ribbon Alliance, a noção de segurança perinatal deve ser
estendida para além da prevenção de morbilidade ou mortalidade, englobando o respeito pelos direitos humanos
fundamentais das mulheres, incluindo o respeito pela sua autonomia, dignidade, sentimentos, escolhas e
preferências, incluindo a escolha de um acompanhante1. De igual forma, a Organização Mundial de Saúde
(OMS) tem defendido que apesar dos substanciais progressos alcançados, os países precisam de consolidar e
aumentar os seus avanços e de alargar os seus objetivos para além da sobrevivência, com vista a maximizar a
1 http://whiteribbonalliance.org/wp-content/uploads/2015/03/MBFBF-guidelines.pdf.
---
Apreciação — DAR I série — 4-9 — 15/11/2019
I SÉRIE — NÚMERO 6
Vamos dar início à discussão de seis petições, realçando que a petição é um dos instrumentos parlamentares
mais interessantes que temos e ao qual devemos dar a devida importância, uma vez que é aquele em que o
povo português nos diz o que quer que nós discutamos nesta Casa.
Vamos, então, começar pela discussão da Petição n.º 507/XIII/3.ª (Laura Ramos e outros) — Pelo fim da
violência obstétrica nos blocos de parto dos hospitais portugueses.
Dou a palavra ao Sr. Deputado Moisés Ferreira, do Bloco de Esquerda.
O Sr. Moisés Ferreira (BE): — Sr. Presidente, se me permite, uma vez que há dois projetos de resolução
que acompanham esta petição, creio que os grupos parlamentares que os apresentaram têm prioridade na
apresentação dos mesmos.
O Sr. Presidente (Fernando Negrão): — Muito bem, Sr. Deputado.
Temos, então, a acompanhar a Petição n.º 507/XIII/3.ª (Laura Ramos e outros) — Pelo fim da violência
obstétrica nos blocos de parto dos hospitais portugueses, os Projetos de Resolução n.os 31/XIV/1.ª (PAN) —
Recomenda ao Governo a adoção de medidas que permitam reforçar os direitos das mulheres na gravidez e no
parto e 40/XIV/1.ª (PEV) — Reforço dos cuidados de assistência na gravidez e no parto.
Tem a palavra a Sr.ª Deputada Bebiana Cunha, do PAN.
A Sr.ª Bebiana Cunha (PAN): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Congratulamos os mais de 5000
peticionários que assinaram a Petição n.º 507/XIII/3.ª por terem trazido este importante tema a debate.
O PAN tem trazido, com frequência, este assunto a discussão. Durante a Legislatura passada, apresentámos
diversas iniciativas que visavam reforçar os direitos das mulheres na gravidez e no parto, no seguimento
daquelas que são as melhores recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Destacamos, assim,
a aprovação da Lei n.º 110/2019, que garante às mulheres grávidas ou casais o direito a um plano de
nascimento. Esta lei contou, claramente, com o contributo do PAN.
Queremos dizer que acompanhamos as pretensões das pessoas que trouxeram esta petição à Assembleia
da República. Para o PAN é fundamental uma maior e melhor atenção à qualidade de assistência às mulheres
durante a gravidez e o parto, assegurando o respeito total pelas mulheres e uma experiência de maternidade
plena.
Em 2015, a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto publicou os resultados de
um inquérito online, no qual participaram 4000 mulheres, sobre as suas experiências de parto e que é bastante
elucidativo do caminho que ainda há a percorrer. De facto, mais de 40% das mulheres inquiridas revelaram
situações de abuso, de desrespeito ou de utilização de práticas não consentidas.
Não podemos ignorar, por exemplo, que Portugal tem uma taxa de ocorrência de episiotomia — uma
intervenção médica que implica uma incisão para ampliar o canal de parto — de 73%, sendo o segundo país da
Europa com a taxa mais alta, muito longe, bem longe, das recomendações da Organização Mundial da Saúde
que recomendam que a taxa desta intervenção não ultrapasse os 10%.
Recentemente, o Conselho da Europa aprovou uma resolução, com recomendações que acolhemos neste
projeto, para a promoção de cuidados humanos, respeitosos e dignos.
Assim, defendemos que esta Assembleia possa recomendar ao Governo que acolha as boas práticas
identificadas pela Organização Mundial da Saúde, que visam a promoção de educação e estratégias de
sensibilização acerca de todos os tipos de discriminação e violência de género, na qual a violência obstétrica se
insere, assim como a implementação de mecanismos legais para o combate a estas práticas.
Vemos ainda como essencial o reforço da formação dos profissionais de saúde que aborde, nomeadamente,
as questões de igualdade de género, o conceito de consentimento informado e a promoção de uma abordagem
o mais humanizada possível nos cuidados prestados.
O Sr. Presidente (Fernando Negrão): — Sr.ª Deputada, chamo a sua atenção para o tempo.
A Sr.ª Bebiana Cunha (PAN): — Sim, Sr. Presidente. Vou concluir.
Por último, consideramos que deve ser feito um estudo sobre as situações de abuso, de desrespeito e da
utilização de práticas não consentidas durante a gravidez e o parto em instituições de saúde e que seja criado
---
Votação na generalidade — DAR I série — 23/11/2019
Sábado, 23 de novembro de 2019 I Série — Número 10
XIV LEGISLATURA 1.ª SESSÃO LEGISLATIVA (2019-2020)
REUNIÃOPLENÁRIADE22DENOVEMBRODE 2019
Presidente: Ex.mo Sr. Eduardo Luís Barreto Ferro Rodrigues
Secretários: Ex.mos Srs. Maria da Luz Gameiro Beja Ferreira Rosinha Duarte Rogério Matos Ventura Pacheco Nelson Ricardo Esteves Peralta Ana Sofia Ferreira Araújo
S U M Á R I O
O Presidente declarou aberta a sessão às 10 horas e 6 minutos.
De seguida, o Presidente anunciou a realização de eleições, durante a sessão, para o Conselho de Estado, o Conselho Superior de Defesa Nacional e o Conselho Superior de Segurança Interna.
Ao abrigo do artigo 73.º do Regimento, procedeu-se a um debate temático, requerido pelo BE, sobre o Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP). Após o Deputado José Moura Soeiro (BE) ter proferido uma intervenção na fase de abertura, usaram da palavra, a diverso título, além da Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (Ana Mendes
Godinho) e do Secretário de Estado Adjunto, do Trabalho e da Formação Profissional (Miguel Cabrita), os Deputados Jorge Paulo Oliveira (PSD), Alexandra Tavares de Moura (PS), Isabel Pires (BE), Diana Ferreira (PCP), José Luís Ferreira (PEV), Ana Mesquita (PCP), Carla Barros (PSD), Fernando José (PS), Vera Braz (PS), José Cancela Moura (PSD), Inês de Sousa Real (PAN), Joana Mortágua (BE), Cecília Meireles (CDS-PP), Luís Monteiro (BE) e Tiago Estevão Martins (PS). No encerramento do debate, intervieram, além da Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, os Deputados José Luís Ferreira (PEV), Bebiana Cunha (PAN), Diana Ferreira (PCP), José Moura Soeiro (BE), Isaura Morais (PSD) e António Gameiro (PS).
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