Grupo Parlamentar
PROJETO DE RESOLUÇÃO Nº 1188/XIII/3ª
RECOMENDA AO GOVERNO QUE TERMINE AS CONCESSÕES DE
HIDROCARBONETOS REMANESCENTES NO TERRITÓRIO E AVALIE
A QUALIDADE E MÉTODOS DE EXTRACÇÃO DO GÁS IMPORTADO
Em 2017, depois de três anos de relativa estagnação das emissões de gases com
efeito de estufa à escala global, houve um novo aumento da queima de
combustíveis fósseis, levando à retoma da tendência ascendente de emissões de
gases, afastando ainda mais o planeta da meta dos 1,5ºC para o aumento de
temperatura média global. A retirada dos Estados Unidos da América do Acordo de
Paris, anunciada este ano pelo presidente Donald Trump, é um sinal de alarme, já
que este país é o maior produtor mundial de petróleo e de gás e o maior emissor
per capita de gases com efeito de estufa. A ambição no combate às alterações
climáticas, nomeadamente para conseguir atingir a segurança climática do
aumento máximo de 2ºC, encontra-se cada vez mais ameaçada.
Na cimeira “One Planet”, em Paris, o Primeiro-Ministro António Costa reafirmou o
objectivo de que Portugal se torne um país neutro em carbono em 2050, apostando
na neutralidade do setor dos transportes. Além disso, voltou a anunciar a iniciativa
de abolir a produção de energia a partir de carvão até 2030, recuando em relação
ao Programa Nacional para as Alterações Climáticas de 2015, cujo cenário de
referência previa a desativação da central termoelétrica de Sines já em 2020.
Entretanto, em Portugal, mantêm-se em vigor 5 concessões para prospecção,
pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo e gás, três no mar (Lavagante,
Santola e Gamba), da concessionária ENI/GALP, e duas em terra (Batalha e
Pombal), da concessionária Australis Oil & Gas. A vigência destas concessões
contradiz toda a orientação para a redução de emissões a nível nacional.
Neste contexto, a petição n.º 136/XIII/1 coloca a esta Assembleia da República
uma preocupação legítima e recorrente, solicitando a “objeção à atribuição de uma
licença de TUPEM ao consórcio Galp/ENI para a atividade de perfuração de
pesquisa na área 233 designada por Santola na Bacia do Alentejo (Aljezur)”. Em
janeiro de 2017, este Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo (TUPEM)
autorizava a realização de sondagem no mar, ao largo de Aljezur e da Costa
Vicentina. Esta decisão do governo desrespeitou as mais de 42.000 objeções de
cidadãos e instituições que se opuseram à abertura de um furo no período de
consulta pública que teve lugar em 2016. Posteriormente, em setembro passado, a
Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis referiu que estavam
legalmente vedados todos os trabalhos de sondagem, prospecção e pesquisa de
petróleo, ficando os trabalhos condicionados a novas autorizações. Na legislação
vigente, na sequência de proposta do Bloco de Esquerda, qualquer sondagem para
a prospeção e pesquisa de hidrocarbonetos obriga a consulta prévia aos
municípios, embora a pronúncia destes não tenha caráter vinculativo, como
pretendia o Bloco.
De acordo com notícias vindas a público, entrou na ENMC um pedido do consórcio
ENI/Galp de prorrogação do contrato de pesquisa para as concessões Lavagante,
Santola e Gamba, localizadas a cerca de 46 quilómetros da costa, entre Vila do
Bispo e Sines, que termina no final do ano. A intenção do consórcio passa por abrir
um furo na próxima primavera, caso consiga a autorização necessária.
As reservas conhecidas de combustíveis fósseis estão em declínio, o que significa
que novas reservas, de petróleo e gás em particular, são reservas de mais difícil
acesso, já que as principais reservas de hidrocarbonetos a nível mundial estão em
queda, esgotadas ou em produção. Tal realidade acrescenta perigosidade aos
impactos do processo convencional de exploração de combustíveis fósseis, já que
será plausível que quaisquer reservas detectadas sejam apenas exploráveis por
métodos não convencionais, quer através da fratura hidráulica (fracking), quer
através da exploração submarina em grande profundidade (deep offshore), quer
ainda através da combinação das duas ou através da mineração submarina para a
obtenção de hidratos de metano.
Portugal tem ferramentas de políticas públicas climáticas nacionais, como o
Programa Nacional para as Alterações Climáticas, a Estratégia Nacional para a
Adaptação às Alterações Climáticas e o Quadro Estratégico para a Política
Climática, que colocam a prioridade nacional tanto na mitigação de emissões como
na adaptação às alterações climáticas, focadas em cenários de redução de emissões
e no desacoplamento do crescimento económico e do consumo de combustíveis
fósseis. Estas ferramentas legais pretendem integrar os objetivos de mitigação e
adaptação nas políticas sectoriais, nomeadamente nas políticas de prospeção,
pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo, gás e carvão.
Neste contexto, a aposta na transformação do Porto de Sines num recetor
preferencial de gás proveniente dos Estados Unidos da América, conforme
declaração assinada pela ministra do Mar em Novembro passado, apresenta uma
importante incoerência política. Uma parte muito importante do gás produzido nos
Estados Unidos é obtido pelo método de fracturação hidráulica ( fracking), que faz
disparar as emissões de gases com efeito de estufa (dióxido de carbono e metano)
para níveis superiores às emissões provenientes da queima de carvão. Segundo
estudos da Universidade de Cornell, nos EUA, até 12% de todo o gás produzido é
perdido diretamente, o que é particularmente grave se considerarmos que o
metano tem um efeito de estufa superior ao dióxido de carbono.
Este elevadíssimo nível de emissões, associado aos graves impactos ambientais do
processo extrativo de fracturação hidráulica, já levou à proibição desta técnica na
Irlanda, Escócia, Bulgária e Alemanha, assim como a moratórias da mesma em
França, na Holanda e na Tunísia. Inclusivamente, em Portugal já ocorreu nesta
legislatura uma alteração legal diferenciadora, que torna obrigatória a Avaliação de
Impacto Ambiental logo na fase prévia ao licenciamento da operação (de
fracturação hidráulica), ao contrário do estabelecido para os métodos
convencionais de extração de hidrocarbonetos.
Nesse sentido, o estabelecimento de uma parceria com os Estados Unidos da
América para transformar o Porto de Sines num centro de abastecimento de Gás
Natural Liquefeito (LNG) proveniente dos Estados Unidos não deve contrariar as
opções feitas sobre a fraturação hidráulica nem contradizer os esforços para a
mitigação de emissões de gases com efeito de estufa, importando um
hidrocarboneto cujo método de produção é uma grave ameaça às metas de
emissões globais.
No sentido de contribuir definitivamente para o combate às alterações climáticas a
partir dos compromissos nacionais e internacionais, Portugal precisa, além de
reduzir as suas emissões, contribuir para impedir que as emissões globais subam.
Tal só será possível através do cancelamento das concessões petrolíferas
remanescentes em terra e no mar, e através da garantia de que, o nível de emissões
incorporadas no gás importado não ultrapassa o do gás produzido por métodos
convencionais. Para esclarecer esta questão, é importante uma avaliação à origem
e métodos extrativos do gás recebido no Porto de Sines proveniente dos Estados
Unidos da América.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, as deputadas e os
deputados do Bloco de Esquerda e do PAN, propõem que a Assembleia da República
recomende ao Governo que:
1. Não autorize a prorrogação do contrato do consórcio ENI/Galp para a
prospecção, desenvolvimento e exploração de hidrocarbonetos, impedindo a
realização de qualquer furo ao largo de Aljezur e da Costa Vicentina.
2. Termine definitivamente todas as concessões para prospecção, pesquisa,
desenvolvimento e produção de petróleo e gás remanescentes no território
nacional, sem direito a indemnizações.
3. Não autorize, até ao final do seu mandato, qualquer nova concessão de
petróleo, gás e carvão no território nacional.
4. Encomende um estudo detalhado acerca da composição e métodos extrativos
do gás a ser importado pelo Porto de Sines.
Assembleia da República, 14 de dezembro de 2017.
As Deputadas e os Deputados,
---
Publicação — DAR II série A — 42-44 — 16/12/2017
II SÉRIE-A — NÚMERO 42
1.3 – Proceda à feitura de um Livro Branco para a consolidação, atualização e simplificação da legislação da
área da Economia, hoje largamente dispersa e desatualizada, por ramo de atividade;
1.4 – Crie uma Comissão Permanente para a Desburocratização da Economia, onde as entidades mais
representativas do Setor Empresariais e do Setor Social tenham obrigatoriamente assento, incumbindo-a, entre
outras, da função de acompanhamento da produção legislativa e da sua implementação, mediante a emissão
de relatórios semestrais onde identifique os problemas existentes e propostas de resolução;
1.5 – Proceda à simplificação dos atos sujeitos a registo mediante a partilha imediata da informação entre os
vários serviços da Administração Pública e, bem assim, de todos os editais e outras informações, até agora, de
afixação obrigatória nos estabelecimentos da Restauração, Bebidas e Similares e de outros estabelecimentos
comerciais;
Assembleia da República, 15 de dezembro de 2017.
Os Deputados do Partido Social Democrata: Luís Leite Ramos — António Costa da Silva — Joel Sá — Paulo
Rios de Oliveira — Cristóvão Norte — Fernando Virgílio Macedo — Emídio Guerreiro — Fátima Ramos — Luís
Campos Ferreira — Carlos Silva — Paulo Neves — António Topa — Carla Barros — Luís Vales.
———
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 1188/XIII (3.ª)
RECOMENDA AO GOVERNO QUE TERMINE AS CONCESSÕES DE HIDROCARBONETOS
REMANESCENTES NO TERRITÓRIO E AVALIE A QUALIDADE E MÉTODOS DE EXTRAÇÃO DO GÁS
IMPORTADO
Em 2017, depois de três anos de relativa estagnação das emissões de gases com efeito de estufa à escala
global, houve um novo aumento da queima de combustíveis fósseis, levando à retoma da tendência ascendente
de emissões de gases, afastando ainda mais o planeta da meta dos 1,5ºC para o aumento de temperatura média
global. A retirada dos Estados Unidos da América do Acordo de Paris, anunciada este ano pelo presidente
Donald Trump, é um sinal de alarme, já que este país é o maior produtor mundial de petróleo e de gás e o maior
emissor per capita de gases com efeito de estufa. A ambição no combate às alterações climáticas,
nomeadamente para conseguir atingir a segurança climática do aumento máximo de 2ºC, encontra-se cada vez
mais ameaçada.
Na cimeira “One Planet”, em Paris, o Primeiro-Ministro António Costa reafirmou o objetivo de que Portugal
se torne um país neutro em carbono em 2050, apostando na neutralidade do setor dos transportes. Além disso,
voltou a anunciar a iniciativa de abolir a produção de energia a partir de carvão até 2030, recuando em relação
ao Programa Nacional para as Alterações Climáticas de 2015, cujo cenário de referência previa a desativação
da central termoelétrica de Sines já em 2020.
Entretanto, em Portugal, mantêm-se em vigor 5 concessões para prospeção, pesquisa, desenvolvimento e
produção de petróleo e gás, três no mar (Lavagante, Santola e Gamba), da concessionária ENI/GALP, e duas
em terra (Batalha e Pombal), da concessionária Australis Oil & Gas. A vigência destas concessões contradiz
toda a orientação para a redução de emissões a nível nacional.
Neste contexto, a petição n.º 136/XIII/1 coloca a esta Assembleia da República uma preocupação legítima e
recorrente, solicitando a “objeção à atribuição de uma licença de TUPEM ao consórcio Galp/ENI para a atividade
de perfuração de pesquisa na área 233 designada por Santola na Bacia do Alentejo (Aljezur)”. Em janeiro de
2017, este Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo (TUPEM) autorizava a realização de sondagem no
mar, ao largo de Aljezur e da Costa Vicentina. Esta decisão do governo desrespeitou as mais de 42.000 objeções
de cidadãos e instituições que se opuseram à abertura de um furo no período de consulta pública que teve lugar
Abrir texto oficial