Projeto de resolução n.º 414/XVI/1ª
Recomenda ao Governo o reconhecimento do Saara Ocidental como território soberano
do Reino de Marrocos
Exposição de motivos
Outrora território espanhol, o Saara Ocidental foi abandonado por Madrid em 1975. A
evacuação, ocorrida no contexto da Marcha Verde, protesto multitudinário de centenas de
milhares de civis marroquinos contra a constituição naquele território de um Estado
independente, culminou, numa primeira fase, na cedência do Saara ao Reino de Marrocos e
à República Islâmica da Mauritânia. Após a retirada mauritana, em 1979, a maior parte do
território foi deixada sob o controlo de Rabat. Persiste desde então a sua pre sença de facto
naquela região desértica, contestada, todavia, pelas reivindicações independentistas da
organização que reclama a representação do povo saharaui, a Frente Polisário. A Organização
das Nações Unidas considera o Saara um território não -autónomo cuja descolonização - por
Marrocos - se encontra ainda por realizar.
Pela sua parte, Portugal mantém uma posição ambígua sobre o diferendo, afirmando
simultaneamente subscrever a autodeterminação saharaui, o referendo popular reclamado
pela Frente Polis ário e negociações entre aquela e Rabat e, por outro lado, a proposta de
autonomia sob soberania marroquina apresentada pelo Reino em 2007. Até à data, Lisboa
não reconhece a legitimidade da soberania de Marrocos sobre o Saara ocidental e mantém,
pelo cont rário, contacto com as autoridades da ‘República Árabe Saharaui Democrática’
(RASD), o Estado autoproclamado pela Frente Polisário. Com efeito, a RASD possui desde há
décadas um representante formal em Lisboa.
A postura dúbia de Portugal perante a principal prioridade externa do Reino de Marrocos - a
normalização do estatuto do Saara - constitui um entrave injustificável ao aprofundamento
da amizade luso-marroquina. O desconforto de Rabat com a posição de Lisboa ficou patente
quando, em Setembro do ano pass ado, o apoio português às operações de salvamento e
apoio humanitário decorrentes do grave terramoto que então se fez sentir foi preterido por
países classificados como ‘amigos’. O significado diplomático daquela recusa foi, então, pouco
debatido em Portug al. Todavia, em França, ela foi entendida como protesto pela política
ambivalente prosseguida à data por Paris. 1 Em resposta a esse atrito, França tomou, em
Agosto de 2024, a decisão sensata de aceitar a marrocanidade do Saara e o plano de
autonomia proposto por Rabat como único caminho para a paz.
O movimento no sentido do reconhecimento do Saara marroquino tem vindo a ganhar força
nos últimos anos. Em 2019, a União das Comores tornou-se o primeiro Estado a inaugurar um
consulado em Laayoune, principal cidade das áreas controladas por Marrocos. Em Dezembro
de 2020, os Estados Unidos da América reconheceram também, formalmente, o território
como parte integral do Reino de Marrocos. Seguiu-se-lhe a abertura de um consulado norte-
americano na região - desta feita, na cidade de Dakhla (antiga Vila Cisneros). Em Março de
2022, a potência administrante formal, o Reino de Espanha, pôs fim à sua política tradicional
e passou, também, a entender o Saara como território marroquino. O Estado de Israel seguiu-
o em Julho de 2023.
A actual política portuguesa é, pois, de um anacronismo sem sentido. O processo de
normalização internacional do estatuto do Saara como parcela do Reino de Marrocos já teve
início e é irreversível. Ao recusar o pleno reconhecimento, Portugal afasta-se de um consenso
crescente, quer na Europa Ocidental, quer no Ocidente mais alargado. Pior, insere na relação
luso-marroquina uma instabilidade desnecessária e altamente atentatória do interesse
nacional. Mais que o nosso segundo vizinho - Lisboa dista pouco mais de Rabat que de Madrid
-, Marrocos é um amigo histórico e imprescindível. Manter com ele os melhores laços de
parceria e confiança só pode ser entendido como um objectivo estratégico permanente do
Estado e da nação portugueses.
Perante o expos to, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os
Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1 https://pt.euronews.com/2023/09/11/marrocos-exclui-franca-de-ajuda-internacional-apos-sismo
- Reconheça de imediato a soberania do Reino de Marrocos sobre o território do Saara
Ocidental e cesse toda a for ma de contacto com a autoproclamada ‘República Árabe
Saharaui Democrática’ (Frente Polisário), exortando-a a depor as armas e a participar
com Rabat num processo negocial puramente pacífico.
Palácio de São Bento, 21 de Outubro de 2024
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
Pedro Pinto - Ricardo Dias Pinto - José Dias Fernandes - Manuel Magno - Diogo Pacheco de
Amorim
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Publicação — DAR II série A — 17-18 — 21/10/2024
21 DE OUTUBRO DE 2024
Os Deputados do CH: Pedro Pinto — Nuno Simões de Melo — Henrique Rocha de Freitas — Nuno Gabriel
— Miguel Arruda — Francisco Gomes.
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PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 414/XVI/1.ª
RECOMENDA AO GOVERNO O RECONHECIMENTO DO SAARA OCIDENTAL COMO TERRITÓRIO
SOBERANO DO REINO DE MARROCOS
Exposição de motivos
Outrora território espanhol, o Saara Ocidental foi abandonado por Madrid em 1975. A evacuação, ocorrida
no contexto da Marcha Verde, protesto multitudinário de centenas de milhares de civis marroquinos contra a
constituição naquele território de um Estado independente, culminou, numa primeira fase, na cedência do Saara
ao Reino de Marrocos e à República Islâmica da Mauritânia. Após a retirada mauritana, em 1979, a maior parte
do território foi deixada sob o controlo de Rabat. Persiste desde então a sua presença de factonaquela região
desértica, contestada, todavia, pelas reivindicações independentistas da organização que reclama a
representação do povo saharaui, a Frente Polisário. A Organização das Nações Unidas considera o Saara um
território não autónomo cuja descolonização – por Marrocos – se encontra ainda por realizar.
Pela sua parte, Portugal mantém uma posição ambígua sobre o diferendo, afirmando simultaneamente
subscrever a autodeterminação saharaui, o referendo popular reclamado pela Frente Polisário e negociações
entre aquela e Rabat e, por outro lado, a proposta de autonomia sob soberania marroquina apresentada pelo
reino em 2007. Até à data, Lisboa não reconhece a legitimidade da soberania de Marrocos sobre o Saara
Ocidental e mantém, pelo contrário, contacto com as autoridades da «República Árabe Saharaui Democrática»
(RASD), o Estado autoproclamado pela Frente Polisário. Com efeito, a RASD possui desde há décadas um
representante formal em Lisboa.
A postura dúbia de Portugal perante a principal prioridade externa do Reino de Marrocos – a normalização
do estatuto do Saara – constitui um entrave injustificável ao aprofundamento da amizade luso-marroquina. O
desconforto de Rabat com a posição de Lisboa ficou patente quando, em setembro do ano passado, o apoio
português às operações de salvamento e apoio humanitário decorrentes do grave terramoto que então se fez
sentir foi preterido por países classificados como «amigos». O significado diplomático daquela recusa foi, então,
pouco debatido em Portugal. Todavia, em França, ela foi entendida como protesto pela política ambivalente
prosseguida à data por Paris1. Em resposta a esse atrito, França tomou, em agosto de 2024, a decisão sensata
de aceitar a marrocanidadedo Saara e o plano de autonomia proposto por Rabat como único caminho para a
paz.
O movimento no sentido do reconhecimento do Saara marroquino tem vindo a ganhar força nos últimos anos.
Em 2019, a União das Comores tornou-se o primeiro Estado a inaugurar um consulado em Laayoune, principal
cidade das áreas controladas por Marrocos. Em dezembro de 2020, os Estados Unidos da América
reconheceram também, formalmente, o território como parte integral do Reino de Marrocos. Seguiu-se-lhe a
abertura de um consulado norte-americano na região – desta feita, na cidade de Dakhla (antiga Vila Cisneros).
Em março de 2022, a potência administrante formal, o Reino de Espanha, pôs fim à sua política tradicional e
passou, também, a entender o Saara como território marroquino. O Estado de Israel seguiu-o em julho de 2023.
A atual política portuguesa é, pois, de um anacronismo sem sentido. O processo de normalização
internacional do estatuto do Saara como parcela do Reino de Marrocos já teve início e é irreversível. Ao recusar
o pleno reconhecimento, Portugal afasta-se de um consenso crescente, quer na Europa Ocidental, quer no
Ocidente mais alargado. Pior, insere na relação luso-marroquina uma instabilidade desnecessária e altamente
atentatória do interesse nacional. Mais que o nosso segundo vizinho – Lisboa dista pouco mais de Rabat que
de Madrid –, Marrocos é um amigo histórico e imprescindível. Manter com ele os melhores laços de parceria e
1 https://pt.euronews.com/2023/09/11/marrocos-exclui-franca-de-ajuda-internacional-apos-sismo.