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INQUÉRITO PARLAMENTAR N.º 7/XVI/1.ª
COMISSÃO EVENTUAL DE INQUÉRITO PARLAMENTAR À GESTÃO
ESTRATÉGICA E FINANCEIRA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE
LISBOA
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem como fins “a realização da melhoria
do bem-estar das pessoas, prioritariamente dos mais desprotegidos, abrangendo as
prestações de ação social, saúde, educação e ensino, cultura e promoção da qualidade de
vida”. Pelos seus estatutos, tem como compromisso originário atuar em prol da
comunidade, promovendo, apoiando e realizando atividades que visem a inovação, a
qualidade e a segurança na prestação de serviços na área social e de saúde, na realização
de estudos e na promoção da informação, bem como o desenvolvimento de iniciativas no
âmbito da economia social e formas de ação cultural. No caso de Lisboa, a Santa Casa é
grande protagonista da ação social na cidade.
Ao abrigo do Decreto-Lei n.º 235/2008 de 3 de dezembro, a SCML encontra-se tutelada
pelo Governo, por via do membro que superintende a área da segurança social, tutela essa
que abrange, “além dos poderes especialmente previstos nestes estatutos, a definição das
orientações gerais de gestão, a fiscalização da atividade da Misericórdia de Lisboa e a sua
coordenação com os organismos do Estado ou dele dependentes”. A SCML assegura a
exploração dos jogos sociais do Estado, de acordo com o Decreto-Lei n.º 56/2006, de 15
de março, em regime de exclusividade para todo o território nacional, e a consequente
distribuição dos resultados líquidos, sendo essa a sua principal fonte de financiamento –
em 2022, estes correspondiam a 80% da sua receita.
No plano de atividades para 2024, é identificado um problema grave de tesouraria na
SCML. Este problema parece ter razões estruturais e outras mais conjunturais. Entre as
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estruturais está a diminuição das receitas do jogo, com a entrada em cena do jogo virtual,
no qual a SCML não detém qualquer monopólio. Entre as razões conjunturais contam-se
os efeitos da pandemia da Covid-19, a maior necessidade de prestar apoio, por parte da
SCML, o que teve consequências diretas no aumento de despesa.; o contexto de aumento
da inflação, com influência direta no aumento do custo de vida; e um conjunto de decisões
que tinham como objetivo a diversificação das fontes de financiamento. De entre as
decisões com maior impacto financeiro no desequilíbrio das contas da SCML, e que mais
debate público têm suscitado, estão o projeto de internacionalização do jogo, o
investimento em NFT, o investimento no projeto de apostas hípicas e a compra de 54%
do capital da sociedade gestora do Hospital da Cruz Vermelha.
O projeto de internacionalização, lançado em 2020, correspondeu a uma tentativa de
diversificação das fontes de financiamento, mas que contribuiu para deixar a balança
financeira da SCML mais deficitária. Para a concretização deste projeto foi criada a Santa
Casa Global (SCG), “entidade operadora de lotarias e jogos de apostas orientada para a
criação de parcerias internacionais para implementar e gerir operações fora do território
português, incluindo a prestação de serviços especializados de aconselhamento técnico e
apoio à gestão”. A empresa investiu no Peru, Brasil e Moçambique e tinha como
administradores Francisco Pessoa e Costa e Ricardo Gonçalves. No âmbito do
desenvolvimento deste projeto foram ainda criadas empresas subsidiárias e adquirida
uma participação, corresponde a 55%, da empresa MCE. Da compra desta participação
resulta uma dívida de financiamento ao Banco Santander Brasil que corresponde a 12
milhões de euros. A SCG tem ainda uma dívida contraída junto da lotaria do Estado do Rio
de Janeiro (Loterj), com quem a empresa MCE celebrou um contrato, e que se encontra
em incumprimento pelo não pagamento da venda dos bilhetes ao Estado, cujo montante
ultrapassará os cinco milhões de euros.
A decisão de internacionalização é uma das que carece de grande escrutínio. Além de
prejuízos globais cujo volume global está por apurar com rigor, mas que poderá ascender
às dezenas de milhões de euros, a empresa e os associados poderão estar envolvidos em
negócios geradores de responsabilidade civil e criminal. Importa notar que os
administradores da SCG, Francisco Pessoa e Ricardo Gonçalves, foram destituídos por
alegadas irregularidades que os envolviam na condução do processo de exploração do
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jogo no Brasil, tendo sido suspensas as transferências financeiras da SCML para a SCG, por
decisão da Mesa presidida pela ex-Provedora Ana Jorge.
Um segundo investimento de efeito duvidoso, preparado durante vários anos, consistia
no lançamento das apostas hípicas mútuas de base territorial em Portugal, previsto para
o ano de 2020. O projeto terá sido autorizado em 2015, envolvendo uma equipa dedicada
que investiu em estratégias de marketing digital e desenvolveu estudos sobre a
importância do cavalo na história de Portugal. Além disso, foram adquiridos cinco mil
jóqueis publicitários com o objetivo de serem colocados como mediadores quando o jogo
fosse lançado, mas este investimento está arrumado num armazém dos CTT, em Lisboa. A
Santa Casa da Misericórdia de Lisboa terá gastado mais de 8 milhões de euros a preparar
um novo jogo de apostas em corridas de cavalos. Mas até hoje sem qualquer resultado e
sem ver a luz do dia.
Outros investimentos parecem igualmente aventurosos. É o caso dos NFT, non-fungible
token, ou bens virtuais não fungíveis. Sendo um investimento de grande risco, foi tomada
a decisão, difícil de compreender, de investir neste negócio de venda de arte digital, sob a
forma de NFT. Para além de ser uma opção já de si questionável, a operação, que terá
implicado um prejuízo de pelo menos 500 mil euros, está rodeada de outros aspetos que
adensam as dúvidas relativamente a esta escolha, já que envolveu a contratação de uma
empresa, a Utrust, que seria, de acordo com o ex-provedor, “a única empresa com a
capacidade de “Exchange”, ou seja, de converter estas vendas concretizadas em
criptomoeda em moeda corrente”, o que, entretanto, foi desmentido pela imprensa. O
negócio envolve também o filho do ex-Provedor, que trabalhava nessa empresa.
A participação no capital social do Hospital da Cruz Vermelha está também rodeada de
polémica. Em 2020, a SCML comprou a participação (54%) que a Cruz Vermelha
Portuguesa detinha na sociedade gestora do Hospital da Cruz Vermelha. De acordo com o
Plano de Atividades para 2024, esta compra foi realizada sem uma avaliação clara e
sustentada e a ex-Provedora, Ana Jorge, prestou declarações públicas referentes à
necessidade de venda daquela participação, uma vez que foram já prestadas garantias
pela SCML, no valor de 13,8 milhões de euros.
Após a tomada de posse, a 2 de maio de 2023, da então Mesa da SCML, foi realizado um
diagnóstico financeiro preliminar que foi dado a conhecer à anterior Ministra do
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Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, que, em consequência,
determinou que a Mesa promovesse uma auditoria externa à Santa Casa Global e às suas
participadas e às contas da SCML de 2021, 2022 e 2023, ainda não homologadas.
No âmbito destes processos de auditoria interna, perante a gravidade das situações
identificadas, foi apresentada pela Mesa que se encontrava em funções à data uma queixa-
crime contra desconhecidos junto do Ministério Público e solicitado ao Tribunal de Contas
a abertura de um processo de auditoria.
A este contexto de dificuldades e polémicas somou-se a decisão, por parte do atual
governo, de exoneração da ex-Provedora e da Mesa da SCML, em abril de 2024, num
processo intempestivo e cujos argumentos trazidos para a praça pública pela tutela foram
contraditórios, com versões descoincidentes dos factos nos relatos dos diferentes
protagonistas e com motivações políticas que importa esclarecer de forma mais
minuciosa.
A gestão financeira mais recente da SCML foi alvo de escrutínio nas audições que se
realizaram na Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão no mês de maio de 2024.
Foram ouvidos o ex-Provedor da SCML, Edmundo Martinho; a ex-Provedora da SCML, Ana
Jorge; a ex-Vice-Provedora, Ana Vitória Azevedo; os ex-Administradores da Santa Casa
Global (SCG), Francisco Pessoa e Costa e Ricardo Gonçalves; a ex-Ministra do Trabalho,
Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho; o ex-secretário de Estado da
Internacionalização, Eurico Brilhante Dias; e a atual Ministra do Trabalho, Solidariedade
e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho.
Estas audições apresentaram versões muito diferentes dos acontecimentos recentes na
SCML. Embora tenham permitido ouvir diferentes leituras sobre estes processos, e de ter
sido remetido ao Parlamento um conjunto de documentos relevantes para o
esclarecimento destes processos, ficaram muitos factos por apurar, mantêm-se grandes
contrastes na leitura das decisões destes últimos anos, não estão esclarecidas as
responsabilidades concretas de cada um dos agentes envolvidos e não se recuou o tempo
suficiente para se poder apurar a origem de alguns destes problemas.
Acrescem ainda duas preocupações que, somadas àquelas, justificam a realização de um
inquérito parlamentar. Uma é o apuramento exaustivo das condições estruturais de
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funcionamento e de sustentabilidade da SCML, rompendo a opacidade que, a vários
títulos, tem prevalecido, quer relativamente a investimentos, quer à gestão do património,
quer à política de gestão do pessoal, com particular incidência nas chefias, no
recrutamento e na organização dos diversos departamentos. A outra é o facto de os
aspetos de desequilíbrio conjuntural estarem a ser pretexto, por parte do atual governo,
para um processo de restruturação que parece querer impor na SCML uma visão
estritamente financeira da gestão e uma penalização dos trabalhadores por decisões e
desequilíbrios que não lhes podem ser imputados. É importante sublinhar que são os
trabalhadores da SCML quem garante a prossecução dos fins sociais e das
responsabilidades assistenciais da instituição, pelo que devem ser combatidas as
narrativas de acordo com as quais estes representariam um peso excessivo do ponto de
vista orçamental.
O apoio nas áreas da infância e juventude, da família e comunidade, da população idosa,
das pessoas com deficiência, assim como na saúde, educação e ensino, cultura e promoção
da qualidade de vida, depende da existência de trabalhadores e trabalhadoras que, em
grande parte dos casos, recebem o valor correspondente ao salário mínimo nacional. Na
audição convocada pela Comissão do Trabalho, Segurança Social e Inclusão, a ex-
Provedora Ana Jorge afirmou que, a propósito do plano de reestruturação da SCML, foi
questionada pela atual Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança, de forma direta,
sobre qual o número de trabalhadores que iriam ser despedidos. A resposta da ex-
provedora terá sido “nenhum”.
No que diz respeito a chefias, pelo contrário, tanto ex-Provedora, Ana Jorge, como a ex-
Vice-Provedora, Ana Vitória Azevedo, afirmaram que fizeram cessar 40 comissões de
serviço e cargos equiparados, o que correspondeu a uma redução de despesas no total de
1 milhão de euros. Com efeito, é importante distinguir a existência de excessivos níveis
hierárquicos e de chefias (nomeadamente as situações em que, para utilizar a expressão
da ex-Vice-Provedora, Ana Vitória Azevedo, as “pessoas que eram chefes de si mesmas”),
apontada no Plano de Atividades para 2024, do grosso das despesas com pessoal. De facto,
há que distinguir o escrutínio da política de recrutamento do pessoal e a avaliação do
quanto a estrutura da SCML e a sua organização interna e chefias têm sido vulneráveis a
recrutamentos espúrios ou a critérios políticos que não respondem à eficácia da operação,
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do argumento liberal de acordo com o qual é excessivo que 63% do orçamento da SCML
diga respeito a despesas com pessoal.
A ex-Provedora, Ana Jorge, realçou que os trabalhadores e trabalhadoras da SCML não
eram aumentados desde 2017 e que, no caso dos técnicos superiores, para além dos 52€,
determinados pelo Governo, muitos trabalhadores e trabalhadoras apenas tiveram um
aumento de 1€ no seu salário. Ou seja, o equilíbrio da SCML pode exigir aumentar as
despesas com pessoal e recrutar mais trabalhadores, combatendo simultaneamente
desperdícios e disfunções organizacionais, e não despedir pessoas, como parece ter sido
sugerido pela atual Ministra.
Um outro ponto, que é também estrutural, prende-se com o património imobiliário e
mobiliário pertencente à SCML. É essencial que seja apresentado um levantamento
exaustivo destes bens, do seu valor, dos encargos que recaem sobre os mesmos, dos ónus
registados e também das receitas que são extraídas. Na realidade, a SCML é uma das
grandes proprietárias de imobiliário na cidade de Lisboa, património esse que deve ter
um fim eminentemente social. A gestão desse património é fator chave que merece
escrutínio, também para impedir que se concretize agora, à boleia da necessidade de
restruturação e obedecendo a uma visão financeira da gestão, uma alienação em barda
desse património, com negócios rentáveis para operadores privados, que permitiriam um
encaixe financeiro imediato para a SCML, mas que podem significar um recuo na missão
social da instituição ou um contributo, na sequência desses negócios imobiliários, para
processos geradores de desigualdade e de segregação territorial, como os que se associam
ao fenómeno da gentrificação da cidade de Lisboa.
Por tudo o que ficou exposto, impõe-se a realização de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito à gestão estratégica e financeira da SCML, capaz de permitir o escrutínio das
razões conjunturais e estruturais do seu desequilíbrio financeiro. As várias audições
realizadas na Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão acabaram por expor um
processo de gestão que foi pouco rigoroso e pouco transparente, com inúmeras decisões
erradas e duvidosas do ponto de vista financeiro, negócios que colocaram em causa a
liquidez da SCML, milhões de euros em investimentos que não tiveram qualquer retorno.
As audições realizadas sobre a gestão estratégica e financeira da SCML demonstraram a
necessidade de aprofundar o escrutínio que deve ser realizado a esta instituição, para
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intimar os responsáveis políticos e os administradores que compuseram e que compõe a
SCML e as suas associadas e subsidiárias a explicar as suas decisões, a facultar o acesso a
documentos necessários, a clarificar os termos dos vários negócios, para escrutinar o
cumprimento da lei e o respeito pelo interesse público que obriga quem geriu a SCML nos
vários momentos, mas também quem a tutelou.
Assim, as Deputadas e os Deputados abaixo-assinados requerem, ao abrigo do disposto
na alínea a) do n.º 1 do artigo 2.º da Lei n.º 5/93, de 1 de março, republicada pela Lei n.º
15/2007, de 3 de abril, a constituição imediata e obrigatória de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito à gestão estratégica e financeira da Santa Casa da Misericórdia
de Lisboa que permita cumprir os seus objetivos, não ultrapassando os 90 dias, com o
seguinte objeto:
1- Inquirir as decisões de gestão estratégica e financeira efetuadas por parte da SCML,
associadas ou subsidiárias, desde 2011, que possam ter contribuído para o desequilíbrio
financeiro da SCML;
2- Avaliar a definição das orientações gerais de gestão e de fiscalização da atividade de
gestão da SCML por parte da tutela governativa no mesmo período (2011-2024);
3- Avaliar e esclarecer as decisões efetuadas pelas Mesas da SCML em funções e respetivos
Provedores quanto à diversificação das fontes de financiamento, avaliação do risco, apoio
jurídico e financeiro aos negócios efetuados nesse contexto, nomeadamente relacionados
com a internacionalização, novas áreas de negócio no âmbito do jogo ou compra de novos
equipamentos;
4- Apurar a estratégia definida para os ativos líquidos da SCML, imobiliários ou
mobiliários, designadamente através do conhecimento exaustivo do património da SCML,
dos negócios em curso ou já concluídos neste domínio e documentos de suporte aos
mesmos;
5- Escrutinar o processo de recrutamento de pessoal e de organização dos níveis
superiores e intermédios, avaliando os termos da política de contratação pessoal nos
últimos três mandatos da SCML;
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6- Avaliar e clarificar a estratégia definida e as decisões tomadas relativas ao quadro de
pessoal da SCML, do ponto de vista de carreiras e aumentos salariais, despedimentos e
rescisões e ainda perspetiva futura para manutenção dos postos de trabalho.
Assembleia da República, 22 de maio de 2024.
As Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda,
José Moura Soeiro; Mariana Mortágua; Fabian Figueiredo;
Marisa Matias; Joana Mortágua
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Publicação — DAR II série B — 11-14 — 07/06/2024
7 DE JUNHO DE 2024
diversos atos de gestão da SCML e das suas subsidiárias.
Palácio de São Bento, 16 de maio de 2024.
Os Deputados da IL: Mariana Leitão — Bernardo Blanco — Carlos Guimarães Pinto — Joana Cordeiro —
Mário Amorim Lopes — Patrícia Gilvaz — Rodrigo Saraiva — Rui Rocha.
———
INQUÉRITO PARLAMENTAR N.º 7/XVI/1.ª
COMISSÃO EVENTUAL DE INQUÉRITO PARLAMENTAR À GESTÃO ESTRATÉGICA E FINANCEIRA
DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE LISBOA
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem como fins «a realização da melhoria do bem-estar das
pessoas, prioritariamente dos mais desprotegidos, abrangendo as prestações de ação social, saúde, educação
e ensino, cultura e promoção da qualidade de vida». Pelos seus estatutos, tem como compromisso originário
atuar em prol da comunidade, promovendo, apoiando e realizando atividades que visem a inovação, a
qualidade e a segurança na prestação de serviços na área social e de saúde, na realização de estudos e na
promoção da informação, bem como o desenvolvimento de iniciativas no âmbito da economia social e formas
de ação cultural. No caso de Lisboa, a Santa Casa é grande protagonista da ação social na cidade.
Ao abrigo do Decreto-Lei n.º 235/2008 de 3 de dezembro, a SCML encontra-se tutelada pelo Governo, por
via do membro que superintende a área da segurança social, tutela essa que abrange, «além dos poderes
especialmente previstos nestes estatutos, a definição das orientações gerais de gestão, a fiscalização da
atividade da Misericórdia de Lisboa e a sua coordenação com os organismos do Estado ou dele
dependentes». A SCML assegura a exploração dos jogos sociais do Estado, de acordo com o Decreto-Lei
n.º 56/2006, de 15 de março, em regime de exclusividade para todo o território nacional, e a consequente
distribuição dos resultados líquidos, sendo essa a sua principal fonte de financiamento – em 2022, estes
correspondiam a 80 % da sua receita.
No Plano de Atividades para 2024 é identificado um problema grave de tesouraria na SCML. Este problema
parece ter razões estruturais e outras mais conjunturais. Entre as estruturais está a diminuição das receitas do
jogo, com a entrada em cena do jogo virtual, no qual a SCML não detém qualquer monopólio. Entre as razões
conjunturais contam-se os efeitos da pandemia da COVID-19, a maior necessidade de prestar apoio, por parte
da SCML, o que teve consequências diretas no aumento de despesa; o contexto de aumento da inflação, com
influência direta no aumento do custo de vida; e um conjunto de decisões que tinham como objetivo a
diversificação das fontes de financiamento. De entre as decisões com maior impacto financeiro no
desequilíbrio das contas da SCML, e que mais debate público têm suscitado, estão o projeto de
internacionalização do jogo, o investimento em NFT, o investimento no projeto de apostas hípicas e a compra
de 54 % do capital da sociedade gestora do Hospital da Cruz Vermelha.
O projeto de internacionalização, lançado em 2020, correspondeu a uma tentativa de diversificação das
fontes de financiamento, mas que contribuiu para deixar a balança financeira da SCML mais deficitária. Para a
concretização deste projeto foi criada a Santa Casa Global (SCG), «entidade operadora de lotarias e jogos de
apostas orientada para a criação de parcerias internacionais para implementar e gerir operações fora do
território português, incluindo a prestação de serviços especializados de aconselhamento técnico e apoio à
gestão». A empresa investiu no Peru, Brasil e Moçambique e tinha como administradores Francisco Pessoa e
Costa e Ricardo Gonçalves. No âmbito do desenvolvimento deste projeto foram ainda criadas empresas
subsidiárias e adquirida uma participação, corresponde a 55 %, da empresa MCE. Da compra desta
participação resulta uma dívida de financiamento ao Banco Santander Brasil que corresponde a 12 milhões de
euros. A SCG tem ainda uma dívida contraída junto da lotaria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), com quem
a empresa MCE celebrou um contrato, e que se encontra em incumprimento pelo não pagamento da venda
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Apreciação — DAR I série — 4-19 — 21/06/2024
I SÉRIE — NÚMERO 27
(L) e António Pedro de Carvalho Morais Soares (CDS-PP), e, como suplentes, os candidatos Francisco Maria
Gonçalves Lopes Figueira (PSD), Filipe Arrais Lima Bacelar (PS) e Natércia das Neves Rodrigues Lopes (L).
Relativamente à eleição para o Conselho Superior do Ministério Público, num universo de 221 Deputados
votantes, a Lista A obteve 177 votos a favor, tendo-se registado 38 votos brancos e 6 votos nulos. Nestes termos,
e face ao resultado obtido, declaram-se eleitos, como efetivos, os candidatos Sofia Galvão (PSD), Orlando
Massarico (PSD), Vânia Gonçalves Álvares (PS), Paulo Rui da Costa Valério (PS) e José Carlos Lourinho Soares
Machado (CH), e, como suplente, o candidato Pedro Miguel Ramos Almeida (PS).
Relativamente à eleição para Presidente do Conselho Económico e Social, num universo de 223 Deputados
votantes, o candidato obteve 148 votos, tendo-se registado 70 votos brancos e 5 votos nulos. Nestes termos, e
face ao resultado obtido, declara-se não eleito o candidato Luís Miguel Pais Antunes (PSD).
Relativamente à eleição para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários, num universo de
223 Deputados votantes, a lista A obteve 164 votos, tendo-se registado 55 votos brancos e 4 votos nulos. Nestes
termos, e face ao resultado obtido, declaram-se eleitos, como efetivos, os candidatos Fernando Licínio Lopes
Martins (PSD) e Rui Manuel Tavares Lanceiro (PS), e, como suplentes, os candidatos Pedro Miguel Neves de
Sousa (PSD) e Raquel Helena Veiga Saraiva Franco Moniz (PS).
Por fim, relativamente à eleição para o Conselho Pedagógico do Centro de Estudos Judiciários, num universo
de 223 Deputados votantes, a candidata obteve 152 votos, tendo-se registado 65 votos brancos e 6 votos nulos.
Nestes termos, e face ao resultado obtido, declara-se eleita a candidata Susana Antas Videira (PSD).
É tudo, Sr. Presidente.
O Sr. Presidente: — Vamos então dar início aos nossos trabalhos, entrando no primeiro ponto da ordem do
dia, que consiste na apreciação conjunta dos Inquéritos Parlamentares n.os 5/XVI/1.ª (CH) — Comissão
parlamentar de inquérito para averiguação da gestão, transparência de funções e conduta dos anteriores
responsáveis envolvidos nos desequilíbrios de contas e funcionamento da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, 6/XVI/1.ª (IL) — Comissão parlamentar de inquérito à gestão financeira e à tutela política da Santa Casa
da Misericórdia de Lisboa (SCML) e 7/XVI/1.ª (BE) — Comissão eventual de inquérito parlamentar à gestão
estratégica e financeira da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Pedia aos Srs. Deputados para serem, o mais possível, rigorosos na gestão do tempo, sabendo que há
15 segundos de tolerância, que podem ser sempre aproveitados para terminar aquilo que têm para dizer.
Vou dar a palavra ao Sr. Deputado André Ventura, do Grupo Parlamentar do Chega, para uma intervenção.
O Sr. André Ventura (CH): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: O que nos traz aqui hoje é o caos em que a
Santa Casa tem sido gerida nos últimos anos em Portugal. A Santa Casa da Misericórdia é o exemplo de tudo
o que está errado em Portugal: excesso de dinheiro público, gestão partidária, caos e promiscuidade nas
nomeações, um enorme polvo de nomeações, de perdas de dinheiro, de prejuízo, que só prejudica uma
entidade, a mesma prejudicada há 50 anos, o povo português — a mesma prejudicada há 50 anos, o povo
português.
Aplausos do CH.
O negócio da internacionalização da Santa Casa fez soar os alarmes pelo País inteiro. Nesta
internacionalização, dirigentes, mormente ligados ao Partido Socialista, apostaram numa gestão da Santa Casa
a colocar milhões de euros em Moçambique, no Peru e no Brasil. Este investimento, não obstante todo o dinheiro
recebido pela entidade em nome de nós, os portugueses, teve zero retorno até ao dia de hoje. Ou seja, é uma
Santa Casa de misericórdia não para quem precisa de misericórdia, não para quem precisa de apoio, mas para
os mesmos de sempre continuarem a encher os bolsos à custa do dinheiro dos contribuintes portugueses.
Aplausos do CH.
O caso do Brasil é paradigmático: mais de 20 milhões de euros investidos através de um investimento que
seria fortíssimo, que teria um retorno elevadíssimo, e que até hoje trouxe zero de receita. Quando olhamos para
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Votação Deliberação — DAR I série — 81-81 — 22/06/2024
22 DE JUNHO DE 2024
A Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Srs. Deputados, vamos votar a parte deliberativa deste projeto de voto.
Submetida à votação, foi aprovada por unanimidade.
Passamos à votação do Projeto de Resolução n.º 158/XVI/1.ª (PAR) — Deslocação do Presidente da
República à Alemanha.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.
Votamos agora o Inquérito Parlamentar n.º 5/XVI/1.ª (CH) — Comissão parlamentar de inquérito para
averiguação da gestão, transparência de funções e conduta dos anteriores responsáveis envolvidos nos
desequilíbrios de contas e funcionamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Submetido à votação, foi aprovado, com os votos a favor do PSD, do CH, da IL, do BE, do CDS-PP e do PAN,
os votos contra do PS e as abstenções do PCP e do L.
O Sr. Hugo Soares (PSD): — É impressão minha ou o Partido Socialista chumbou a tua, ó Pedro?
A Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Passamos à votação do Inquérito Parlamentar n.º 6/XVI/1.ª (IL) —
Comissão parlamentar de inquérito à gestão financeira e à tutela política da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa (SCML).
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.
Segue-se a votação do Inquérito Parlamentar n.º 7/XVI/1.ª (BE) — Comissão eventual de inquérito
parlamentar à gestão estratégica e financeira da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.
Votamos agora o Projeto de Resolução n.º 68/XVI/1.ª (PSD) — Constituição de uma comissão eventual de
acompanhamento da execução do PRR e do PT2030.
Submetido à votação, foi aprovado, com os votos a favor do PSD, do CH, da IL, do CDS-PP e do PAN e os
votos contra do PS, do BE, do PCP e do L.
Sr.ª Deputada Isabel Mendes Lopes, faça favor.
A Sr.ª Isabel Mendes Lopes (L): — Sr.ª Presidente, é para anunciar a apresentação de uma declaração de
voto escrita relativamente a esta votação.
A Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Obrigada, Sr.ª Deputada.
Passamos à votação, na generalidade, do Projeto de Resolução n.º 65/XVI/1.ª (PSD) — Criação de grupo de
trabalho para revisão do subsídio social de mobilidade garantindo a manutenção dos direitos consagrados dos
residentes nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Submetido à votação, foi aprovado, com os votos a favor do PSD, do PS, da IL, do BE, do L, do CDS-PP e
do PAN e as abstenções do CH e do PCP.
O Sr. Hugo Soares (PSD): — O Chega é contra o subsídio social de mobilidade? Como é que os senhores
não votam a favor? Eu não percebo!
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