Projeto de Resolução n.º 633/XV/1.ª
PELA INSTALAÇÃO DE CENTRAIS DE DESSALINIZAÇÃO NO ALENTEJO E NA ZONA
OESTE
Entre os vários desafios que Portugal terá de enfrentar nas próximas décadas, desde a erosão
costeira à subida de água do mar e a maior prevalência de fenómenos climáticos extremos,
um dos problemas mais prementes que já impactam a economia e população por tuguesas é
a seca e a consequente escassez hídrica. A seca, bem como a escassez hídrica, é um fenómeno
com o qual Portugal já tem de lidar há bastante tempo, facto decorrente daquele que já é o
seu clima.
No entanto, as alterações climáticas e o aumento d a temperatura global que estas implicam
não só irão, como já têm intensificado a decorrência destes fenómenos em Portugal. As séries
longas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), detalhando dados como a
temperatura média e a precipitação do t erritório nacional apontam, justamente, para um
aumento médio da temperatura nos últimos 40 anos.
Fonte: IPMA
As principais bacias hidrográficas que abastecem Portugal de água correspondem a rios que
têm a sua nascente em Espanha que, pelo seu lado, enfrenta um problema ainda mais gravoso
que o português, tendo muito do seu território afetado por secas extremas, numa tendência
que só se irá deteriorar à medida que o aquecimento global prossegue nos seus efeitos e
aumenta as temperaturas médias por todo o globo.
Portugal vive, portanto, numa circunstância em que o seu abastecimento de água, altamente
determinado pelas bacias do Douro, do Tejo, do Guadiana e do Minho, se encontra numa
situação de dependência externa em relação a Espanha. Tendo Espanha um dos maiores
problemas de seca na Europa, pode antever-se uma pressão social crescente em torno da da
utilização da água advinda destes quatro rios, pressão essa que se tem feito sentir, junto do
Governo espanhol, por parte dos agricultores.
A título de exemplo, o Expresso noticiava, a 24 de setembro de 2022, a exigência do corte
na libertação de água para Portugal por parte de três mil agricultores espanhóis, conduzindo
a um acordo pela redução temporária das descargas no Douro entre Espanha em Portugal,
ao abrigo da Convenção de Cooperação para a Proteção e o Aproveitamento Sustentável das
Águas das Bacias Hidrográficas Luso-Espanholas, também conhecida como a Convenção de
Albufeira. A Convenção, que sinaliza um marco de cooperação política e económica entre
Espanha em Portugal na integração das disposições da Diretiva Quadro da Água (Diretiva
2000/60/CE de 23 de outubro de 2000), constitui um instrumento importante de
coordenação política entre os dois países, assegurando, entre outros aspetos, uma gestão
conjunta das bacias hidrográficas, e procurando evitar a sedimentação de conflitos entre os
dois países, especialmente em situações de pressão sobre as mesmas.
No entanto, estima-se que situações como a noticiada pelo Expresso se repitam com mais
frequência. O ‘’Estudo de disponibilidades hídricas atuais e futuras’’, concebido a pedido da
Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e atualmente em consulta pública, confirma não só
que Portugal perdeu cerca de 20% da sua água disponível desde meados do século XX, como
se arrisca a perder entre 10% a 25% até ao final do século XXI, pelo que as decisões
fundamentais sobre a água terão de ser tomadas agora, atendendo a que a escassez de água
terá consequências importantes na economia e na vida dos portugueses.
O impacto mais imediato far-se-á sentir, para começar, na agricultura, que utiliza cerca 70%
da água em Portugal, segundo os Dados de 2015 da APA. A competitividade futura da
agricultura portuguesa depende do desenvolvimento do regadio, que por sua vez se integra
diretamente na rede de abastecimento de água, ao contrário de países como o Reino Unido
que, beneficiando de um clima propício ao sequeiro, encontram um peso de apenas 14% do
setor agrícola no consumo de água. O regadio, no entanto, pode produzir seis vezes mais
por hectare do que a cultura de sequeiro, sendo o seu desenvolvimento fundamental para a
competitividade da agricultura portuguesa. A elevada dependência da agricultura do
abastecimento de água é uma característica fundamentalmente do sul da Europa, onde o peso
da agricultura chega a ascender, em média, aos 80%. Segundo um inquérito organizado pela
Gulbenkian, no estudo ‘’O Uso da Água em Portugal’’, de 2020, 53% dos agricultores de
regadio já afirma claramente que existem problemas no abastecimento de água.
Dada a enorme dependência da agricultura portuguesa da oferta de água e a tendência
crescente de seca, não só é possível antever como já existem problemas, ainda que atualmente
pontuais, no abastecimento doméstico de água. A existência de disputas em torno do
abastecimento de água no Algarve e no Alentejo é infelizmente cada vez mais comum, dado
que são as duas regiões, ainda que não as únicas, que tenderão a ser mais severamente afetadas
pela escassez de água. Para além do abastecimento doméstico e agrícola de água,
encontramos também o setor do turismo, do qual Portugal ainda depende muito para o seu
parco crescimento económico, que é exigente do ponto de vista do consumo de água.
Mas considerando a prevalência de 11% do consumo doméstico na procura de água em
Portugal - que tem vindo a crescer nas últimas décadas - nenhum dos cenários atualmente
projetados contempla a possibilidade de falta estrutural de água nas torneiras dos
portugueses, caso sejam feitos os investimentos nas infraestruturas e gestão necessários à
cobertura do abastecimento em todo o país.
No entanto, o decrescimento estrutural da oferta de água pode ser entendido não só como
um teto sobre o crescimento económico português, que fica limitado nos seus setores
agrícola e turístico, mas como um enorme desafio para a coesão territorial do país, dada a
longa tendência de depressão demográfica e económica de todo o seu interior, onde a
agricultura e o turismo podem fazer derradeiramente a diferença.
A dinamização do interior, senão mesmo a sua integração plena na economia portuguesa,
como um território de oportunidades, que garante qualidade de vida e rendimentos
equiparáveis aos que encontramos no litoral, passa, necessariamente, por uma estratégia de
dinamização económica que crie as condições infraestruturais que a permitam: passando por
uma maior abertura ao investimento, pelos transportes, pelo acesso à energia e pela oferta de
água, sem prejuízo de outras questões ainda por resolver, como a da gestão das florestas,
cujo potencial económico permanece por explorar.
Muitas das soluções que têm constado no debate público em torno da água terão um papel
fundamental na resolução do problema em Portugal. A diminuição do desperdício e
reutilização de águas residuais para diversos fins, a recarga de aquíferos, a reutilização de
águas cinzentas nas habitações e a melhoria da eficiência hídrica do setor agrícola, que, na
sua maioria, ainda não contabiliza os seus gastos de água, terão um papel importante na
resolução do problema, e a Iniciativa Liberal tem apoiado todas as propostas neste sentido.
No entanto, é necessário um salto qualitativo nas infraestruturas hídricas portuguesas, o que
passa por um aumento da oferta de água que assegure tanto o abastecimento das populações
como a competitividade económica.
Uma das principais vias através das quais é possível expandir consideravelmente a oferta de
água em Portugal é a do emprego de tecnologias de dessalinização. A dessalinização consiste
no processo de retirar sais e outros minerais da água salgada, comumente feita por uma de
duas vias: ou a da osmose inversa, a mais habitual, que consiste na passagem de água salgada
por membranas que filtram por vários níveis o sal da água, ou da dessalinização térmica, que
ferve, evapora e torna a condensar a água sem o sal. Da água que entra na central
sensivelmente metade, consoante a eficiência tecnológica, transforma-se em água
dessalinizada. O processo serve para gerar água potável e pode também gerar água salobra -
nível de salinidade intermédio entre a da água doce e a da água salgada - que pode ser
utilizada, por exemplo, na rega.
A dessalinização representa uma oportunidade de expansão da oferta de água em Portugal
enquanto se evita o esgotamento dos recursos hídricos existentes. A tecnologia tem-se
espalhado depressa, sobretudo no Médio Oriente e na Ásia. Um estudo elaborado pelos
investigadores do Instituto para a Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações
Unidas, em 2019, indicou que no mundo havia cerca de 16 mil unidades de dessalinização
em operação, distribuídas por 177 países.
Aqui ao lado, Espanha é um dos países no mundo que mais cedo começou a investir na
dessalinização. Hoje, é um dos líderes mundiais na exportação de know-how de dessalinização,
concentrando em si mais de metade das centrais da Europa, cujo número ascende às 765 no
seu território, produzindo mais de 4,5 milhões de metros cúbicos de água por dia. Portugal
encontra-se na situação oposta: altamente dependente de rios com a sua nascente em
Espanha, sem capacidade própria de aumento da oferta que não pelo aumento da
circularidade, acabando por navegar ao sabor da situação hídrica espanhola e das suas
consequências económicas no país, que depressa pode repercutir-se negativamente sobre a
portuguesa.
Um dos casos mais paradigmáticos e bem-documentados é o de Israel, cujos sucessos estão
descritos no Relatório de 2017 do Banco Mundial, ‘’Water Management in Israel’’, onde uma
combinação de fortes investimentos na circularidade do abastecimento e de dessalinização
de água do mediterrâneo permitiram inverter a situação de um país que, sofrendo outrora
com uma das mais graves situações de escassez hídrica do mundo, não só beneficia agora de
um setor agrícola pujante, como é um exportador de água - pelo que entretanto toda a região
do Médio Oriente emprega abundantemente a tecnologia.
A dessalinização não vem sem desvantagens, como é o caso de qualquer tecnologia. Trata-
se de um processo de alta intensidade energética que tradicionalmente beneficiou do uso de
combustíveis fósseis, produzindo também resíduos como a salmoura que podem trazer
dificuldades à preservação da biodiversidade. A salmoura é um resíduo que consiste numa
solução de água saturada de sal, resultante do processo de dessalinização, e pode conter
químicos, alguns potencialmente tóxicos, utilizados no pré-tratamento da água ou na
preservação das membranas.
Do ponto de vista energético, a desvantagem dos combustíveis fósseis é facilmente
ultrapassável com o emprego de energias renováveis. Mais ainda num país como Portugal,
onde as condições climatéricas são muito favoráveis ao emprego destas energias, pelo que
esta possibilidade deve ser encarada no estudo e desenvolvimento das centrais portuguesas,
admitindo que poderá mesmo ser um fator determinante na sua viabilização. Pode-se admitir
também uma fase intermédia em que o gás natural desempenha um papel complementar em
relação às fontes renováveis, que são, por si só, uma fonte altamente competitiva de
eletricidade cujo problema seria, por agora, a sua incapacidade de conferir estabilidade no
abastecimento elétrico das centrais, embora este fator possa vir a mudar num futuro próximo.
Quanto à salmoura, o resíduo é diluído e depois disperso pelo mar, de modo a minimizar o
seu impacto ambiental. O tratamento das salmouras precisará de uma avaliação ambiental
cuidadosa que permita a mitigação dos seus potenciais efeitos negativos e proteja, tanto
quanto possível, o mar português. Para isso, pode tomar-se em conta quatro fatores:
primeiro, o oceano Atlântico, tendo uma temperatura e teor de sal menores que o mar
Mediterrâneo, levará a uma produção menor de salmouras em relação a muitas das outras
experiências conhecidas; segundo, o oceano Atlântico, com a sua profundidade e correntes
fortes, facilita a dispersão das salmouras na devolução ao mar, devendo ser assegurado que
não se concentram de tal modo a que possam vir a prejudicar a biodiversidade, como tem
ocorrido no caso de sucesso da central de Porto Santo; terceiro, há ainda a possibilidade, na
eventualidade de se construírem unidades mais pequenas, de se integrar as descargas de
salmoura no próprio circuito de gestão de águas residuais; quarto, há já vários usos da
salmoura para fins industriais e projetos em curso, uns mais maduros que outros, que
pretendem aproveitar os metais presentes no próprio sal, como o magnésio, o potássio ou o
lítio, introduzindo mais circularidade no circuito da dessalinização, ou mesmo em aplicações
de agricultura, aquicultura e até energia; e quinto, há cada vez melhor tecnologia, como
combinações entre eletrodiálise e tecnologia de ultrassons que mantém as membranas limpas
de uma forma muito mais eficiente.
O tema da dessalinização não é, contudo, novo em Portugal. A ilha de Porto Santo construiu
a primeira e única central de dessalinização do país, a primeira da Europa, inaugurada ainda
em 1980, da qual hoje depende inteiramente para assegurar o seu abastecimento de água.
Aquele que foi um enorme caso de sucesso em Portugal não foi encarado, no entanto, como
algo a replicar no território continental até recentemente. Os primeiros sinais de inversão
desta estagnação nas políticas públicas da água em Portugal - apesar do conhecimento bem
sedimentado sobre os desafios que o abastecimento de água enfrenta - estão presentes no
recente Plano Regional de Eficiência Hídrica do Algarve, criado ao abrigo do Despacho n.º
443/2020, de 14 de janeiro, que já previa, na alínea d) do nº1 do mesmo, a ‘’Identificação de
soluções estruturais e novas origens de água que complementem o previsível decréscimo do
recurso por via das alterações climáticas’ ’. O próprio Plano adota, ainda assim, uma
linguagem incerta acerca da necessidade de uma central dessalinizadora, remetendo a decisão
para um ‘’Estudo prévio para avaliação da viabilidade ambiental e de sustentabilidade hídrica
de aumento da capacidade de armazenamento de água’’, como detalha a Medida Inf_01_Alg,
no âmbito da qual estão destinados 200 milhões do PRR, ao abrigo da medida RE-C09-i0.
No entanto, este investimento de apenas uma central dessalinizadora no Algarve será
manifestamente insuficiente para sustentar um salto qualitativo na disponibilidade de água
nas regiões mais afetadas do país. De facto, no mesmo dia em que foi publicado o Despacho
n.º 443/2020, foi também publicado um outro, o Despacho n.º 444/2020, prevendo um
plano equivalente para a região do Alentejo. O qual, ao contrário do plano do Algarve, não
chegou ainda a ser publicado, não só atrasando toda a base de discussão sobre as opções a
tomar para a região, como inviabilizando a possibilidade de vir a beneficiar de verbas do
PRR.
É, por isso, urgente que este plano seja rapidamente delineado, aprovado e publicado. Deste
modo, poderá avançar-se definitivamente com a possibilidade da construção de uma, se não
mais, centrais dessalinizadoras no litoral alentejano, possivelmente por via da abertura de um
concurso público internacional, atraindo grandes investidores para o setor hídrico português,
pelo que o emprego de parcerias público-privadas na construção e na gestão das centrais
deve ser uma hipótese, conforme tem sido prática no setor.
As soluções de dessalinização já têm vindo tarde, estando retidas num emaranhado
burocrático que contribui para o adiamento do desenvolvimento deste tipo de soluções em
Portugal, cuja necessidade de implementação já seria previsível há décadas. As hesitações
numa aposta estratégica no aumento da oferta de água não são compreensíveis face às
necessidades urgentes da economia portuguesa, que poderia ser mais competitiva nos setores
agrícola e turístico, não prejudicando o abastecimento das populações para esse efeito.
Finalmente, o Alentejo e o Algarve não são as duas únicas regiões que sofrem de escassez
hídrica em Portugal: há ainda a zona Oeste, entre Lisboa e Leiria, que tem vindo a passar por
situações de seca, ainda que tendencialmente menos severa, sendo também uma importante
região agrícola. Para isso, serão necessários investimentos no sentido da expansão da oferta
hídrica na região, pelo que o desenvolvimento de um outro Plano de Eficiência Hídrica para
a Zona Oeste, que também contemple projetos de dessalinização, já tarda no impulso de
resolução dos problemas das populações, dos agricultores e empresários da região.
Assim, tendo em consideração o acima exposto, ao abrigo da alínea b) do número 1 do artigo
4.º do Regimento da Assembleia da República, o Grupo Parlamentar da Iniciativa Liberal
apresenta o seguinte Projeto de Resolução:
Resolução
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Assembleia da República
delibera recomendar ao Governo que:
1. No âmbito do Plano Regional de Eficiência Hídrica do Alentejo, previsto pelo
Despacho n.º 444/2020, de 14 de janeiro, seja assegurado o aumento da oferta hídrica
na região através da construção de pelo menos uma central de dessalinização.
2. Através do Ministério do Ambiente, na sequência do Despacho n.º 444/2020, de 14
de janeiro, adote as diligências necessárias com vista à rápida conclusão e publicação
do Plano Regional de Eficiência Hídrica do Alentejo.
3. No prazo de 60 dias após a aprovação da presente Resolução, publique um Despacho
a determinar as bases do Plano Regional de Eficiência Hídrica da Zona Oeste.
4. Preveja, no Despacho enunciado no número anterior, o planeamento de medidas no
sentido do aumento da oferta hídrica na região através da construção de pelo menos
uma central de dessalinização.
5. Considere que o abastecimento energético destas centrais seja realizado
preferencialmente através de fontes renováveis de produção de energia.
Palácio de São Bento, 20 de abril de 2023
Os Deputados da Iniciativa Liberal:
Bernardo Blanco
Rui Rocha
Carlos Guimarães Pinto
Carla Castro
Rodrigo Saraiva
Joana Cordeiro
João Cotrim Figueiredo
Patrícia Gilvaz
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Publicação — DAR II série A — 62-66 — 20/04/2023
II SÉRIE-A — NÚMERO 209
Governo que o desenvolvimento das iniciativas necessárias a:
a) Avaliação do acervo documental do Centro de Documentação/Arquivo do Jornal de Notícias existente, à
data, nas instalações da empresa;
b) Desenvolvimento de medidas de recuperação de partes ou peças do acervo eventualmente subtraídas ao
arquivo;
c) Classificação do Arquivo do JN;
d) Garantia da respetiva integridade e salvaguarda do Arquivo JN, em instalações próprias adstritas à
Redação do Jornal de Notícias, acessível aos jornalistas, a investigadores e ao público.
Assembleia da República, 20 de abril de 2023.
Os Deputados do PCP: Manuel Loff — Paula Santos — Alma Rivera — Bruno Dias — Duarte Alves — João
Dias.
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PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 633/XV/1.ª
PELA INSTALAÇÃO DE CENTRAIS DE DESSALINIZAÇÃO NO ALENTEJO E NA ZONA OESTE
Entre os vários desafios que Portugal terá de enfrentar nas próximas décadas, desde a erosão costeira à
subida de água do mar e a maior prevalência de fenómenos climáticos extremos, um dos problemas mais
prementes que já impactam a economia e população portuguesas é a seca e a consequente escassez hídrica.
A seca, bem como a escassez hídrica, é um fenómeno com o qual Portugal já tem de lidar há bastante tempo,
facto decorrente daquele que já é o seu clima.
No entanto, as alterações climáticas e o aumento da temperatura global que estas implicam não só irão,
como já têm intensificado a decorrência destes fenómenos em Portugal. As séries longas do Instituto Português
do Mar e da Atmosfera (IPMA), detalhando dados como a temperatura média e a precipitação do território
nacional apontam, justamente, para um aumento médio da temperatura nos últimos 40 anos.
Fonte: IPMA.
As principais bacias hidrográficas que abastecem Portugal de água correspondem a rios que têm a sua
nascente em Espanha que, pelo seu lado, enfrenta um problema ainda mais gravoso que o português, tendo
muito do seu território afetado por secas extremas, numa tendência que só se irá deteriorar à medida que o
aquecimento global prossegue nos seus efeitos e aumenta as temperaturas médias por todo o globo.
Portugal vive, portanto, numa circunstância em que o seu abastecimento de água, altamente determinado
pelas bacias do Douro, do Tejo, do Guadiana e do Minho, se encontra numa situação de dependência externa
em relação a Espanha. Tendo Espanha um dos maiores problemas de seca na Europa, pode antever-se uma
pressão social crescente em torno da utilização da água advinda destes quatro rios, pressão essa que se tem
feito sentir, junto do Governo espanhol, por parte dos agricultores.
A título de exemplo, o Expresso noticiava, a 24 de setembro de 2022, a exigência do corte na libertação de
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Votação Deliberação — DAR I série — 88-91 — 08/07/2023
I SÉRIE — NÚMERO 152
votaram contra o Projeto de Resolução n.º 633/XV/1.ª, apresentado pela Iniciativa Liberal sob a epígrafe «Pela
instalação de centrais de dessalinização no Alentejo e na zona Oeste», o que fizeram com os seguintes
fundamentos:
As centrais dessalinizadoras desempenham um papel importante no fornecimento de água potável em áreas
onde os recursos hídricos são escassos, utilizam tecnologias avançadas para remover o sal e outras impurezas
da água do mar ou de fontes salobras, tornando-a adequada para consumo humano e uso agrícola, industrial e
turístico. A vantagem das centrais dessalinizadoras é que elas podem diversificar as fontes de água e fornecer
uma solução alternativa em regiões com baixa disponibilidade de água doce, com especial relevo em áreas
costeiras, onde a água do mar é uma fonte abundante, mas imprópria para consumo direto, e em que o processo
de dessalinização pode reduzir a dependência de aquíferos subterrâneos, de rios e barragens, ajudando a
preservar esses recursos naturais.
A região litoral do Alentejo, que abrange áreas como Sines, Grândola, Alcácer do Sal, Santiago do Cacém e
Odemira, tem um acesso relativamente melhor à água devido à proximidade do oceano. No entanto, ainda
enfrenta pressões relacionadas ao consumo humano, agricultura e turismo. A disponibilidade de água doce pode
ser afetada durante períodos de seca prolongada e a gestão dos recursos hídricos continua a ser uma
preocupação com especial incidência na barragem de Santa Clara a sul do litoral alentejano.
O Alentejo interior, que inclui os distritos de Évora, Beja e Portalegre, é caracterizado por condições climáticas
mais secas e uma menor disponibilidade de água. A região para além da disponibilidade de Alqueva depende
principalmente de aquíferos subterrâneos, rios e algumas barragens existentes e da projetada barragem do
Pisão para o abastecimento de água, o que a torna muito vulnerável à escassez hídrica. Durante períodos de
seca, os níveis dos aquíferos podem diminuir significativamente, afetando a disponibilidade de água potável e
para o setor agrícola que carateriza fortemente a região a par do setor do turismo e alguma indústria. A
disponibilidade de água doce na região é limitada e depende principalmente de aquíferos subterrâneos e de
alguns rios, como o Guadiana, Mira e Sado.
No entanto, essas fontes enfrentam pressões consideráveis devido à exploração excessiva e à diminuição
das chuvas. Como resultado das alterações climáticas, a região do Alentejo tem sofrido com a escassez de água
e a redução dos níveis dos aquíferos e, para lidar com essa situação, têm sido adotadas medidas para melhorar
a gestão da água e garantir um uso mais sustentável dos recursos hídricos. Algumas dessas medidas incluem:
• Melhoria na eficiência do uso da água: Promove-se o uso eficiente da água na agricultura, por exemplo,
por meio da implementação de sistemas de irrigação mais modernos e eficientes, sendo também incentivadas
práticas de conservação de água nas áreas urbanas e industriais.
• Reutilização de água: A reutilização de água tratada para fins não potáveis, como irrigação de áreas
verdes, campos de golfe e espaços verdes urbanos, ou no uso industrial, atividade mineira, tem sido cada vez
mais adotada como uma forma de conservar os recursos hídricos disponíveis.
• Promoção da dessalinização: A dessalinização da água do mar está assumida para as regiões do Algarve
e Alentejo Litoral, como uma opção para aumentar a disponibilidade de água potável nestas regiões.
• Ações de sensibilização e educação: Iniciativas de sensibilização e educação sobre a importância da
conservação da água são realizadas para incentivar a população a adotar práticas mais responsáveis em relação
ao uso da água.
• Em ambas as regiões, têm sido adotadas medidas para enfrentar os desafios da escassez de água, como
mencionado anteriormente.
No entanto, a situação do Alentejo, na grande parte do seu território, é geralmente muito desafiante devido
às suas características climáticas e geográficas. A dessalinização da água do mar é considerada como uma
opção para aumentar a disponibilidade de água potável no Alentejo litoral, aproveitando a proximidade do
oceano. Essa abordagem pode ajudar a diversificar as fontes de água e reduzir a pressão sobre os aquíferos
subterrâneos, rios e algumas barragens, como os exemplos de Campilhas, Rocha e Santa Clara. Tanto o
Alentejo litoral como o Alentejo interior enfrentam desafios relacionados com a disponibilidade de água, mas
com algumas diferenças devido às condições climáticas e geográficas específicas de cada sub-região, sendo
que a gestão sustentável e consciente dos recursos hídricos é essencial para garantir o suprimento de água
adequado para as necessidades da população, agricultura, indústria e preservação do meio ambiente.
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