Projeto de Resolução n.º 30/ XV/ 1.ª
POR UM MODELO DE DESENVOLVIMENTO FOCADO NO CRESCIMENTO
Portugal prepara-se para atravessar um período-chave na história do seu
desenvolvimento nesta primeira metade do século XXI.
Por um lado, já conta com duas décadas de estagnação em consequência de um
modelo estatista de desenvolvimento, agravadas por uma grave crise económica e financeira,
seguida de uma pandemia e agora do deflagrar de uma guerra na Europa. Por outro, dispõe
de um Governo recém-eleito, apoiado numa maioria absoluta, em fundos europeus e, por
enquanto, na boa vontade nos mercados financeiros. O Governo não esconde o seu
otimismo quanto ao futuro do país no Programa de Estabilidade que apresenta,
argumentando que a dívida pública chegará aos 100% do PIB em 2026, um crescimento do
produto estabilizado nos 2.5% ao ano no final do mesmo período, contas certas e juros
favoráveis em todo o período.
O Programa de Estabilidade apresentado por este Governo não explica, contudo, em
que se baseia esse crescimento: tendo sido autorizado pela Comissão Europeia, a título
excecional, a não incluir os efeitos do Programa do Governo no período que se avizinha, as
razões do crescimento económico são inteiramente remetidas para o PRR. Assim, tanto se
explica a total ausência de reformismo e de visão de longo prazo no Programa do Governo,
como se confirma a dependência portuguesa dos fundos europeus para manter um módico
de crescimento económico.
A análise permitida por este Programa de Estabilidade é curta e de utilidade duvidosa.
O pouco que sabemos sobre a base da evolução projetada pelo Governo, levou o próprio
Conselho de Finanças Públicas a entender que “não estão reunidas as condições’’ para avaliar
o cenário macroeconómico apresentado pelo Governo. Já a UTAO, na sua Apreciação do
PE 2022-2026, afirma que o documento não apresenta sequer os requisitos legais para ser
apresentado, ao não incluir o Quadro Plurianual das Despesas Públicas e por ter sido
submetido por um Governo que não o poderia sequer executar, não incluindo um Programa
do Governo correspondente. Para além da total ausência das prioridades programáticas deste
Governo, não temos qualquer estimativa dos custos das medidas one-off que o Governo irá
implementar nos próximos anos em situações como a TAP, que já custou cerca de 1,6 mil
milhões de euros em 2021 e que custará, certamente muitas centenas de milhões mais.
Mesmo olhando para os dois cenários macroeconómicos possíveis deste Programa
de Estabilidade, percebe-se que nem numa simulação tão abstrata e distante das reais
prioridades políticas do governo se foi capaz de produzir um documento fiável. Primeiro, o
Governo mostra ser sistematicamente mais otimista que as restantes entidades no que toca
às projeções para o crescimento económico. Segundo os dados do próprio Programa de
Estabilidade, as projeções do Ministério das Finanças estão, em média, 0.3% acima da média
da estimativa das restantes entidades, entre as quais a Comissão de Finanças Públicas, o FMI
ou o Banco de Portugal. Depois, o pior cenário considerado no Programa de Estabilidade
conta com uma inflação na ordem dos 4%, que já é neste momento a previsão de base do
Banco de Portugal. Na altura da elaboração do Programa de Estabilidade já havia motivos
bastantes para antecipar, no mínimo, um terceiro cenário mais adverso na ordem da inflação
e da evolução das taxas de juro, antecipando as opções que o Banco Central Europeu começa
a tomar no médio prazo. Por isso concluímos que as estimativas do Governo sobre a
evolução das contas públicas, da dívida e do crescimento económico não representam um
cenário no qual os portugueses possam confiar.
Estimativa de Crescimento em % do PIB 2022 2023 2024 2025 2026 Média
Ministério das Finanças 5 3.3 2.6 2.6 2.5 3.15
Média Outras Instituições 5.2 2.7 2.3 2.2 1.8 2.83
Diferença -0.2 0.5 0.3 0.3 0.7 0.32
Fonte: PEC 2022-2026, Quadro II.4, pg. 22
Ficam explicados os três grandes eixos da narrativa que nos é apresentada sobre o
futuro próximo do país neste Programa de Estabilidade: sobrestimar o crescimento
económico, subestimar os desafios macroeconómicos e não explicar o modelo de
desenvolvimento, remetendo-o para a execução dos fundos europeus, que, não estando
sequer garantida face às dificuldades que se aproximam, permanece a principal fonte do
pouco crescimento económico do país.
Portugal corre o risco real de ser ultrapassado pela Roménia, e possivelmente pela
Letónia, durante esta legislatura, visto que estes países, tendo PIBs per capita em paridades
de poder de compra (PPC), semelhantes ao português, têm apresentado trajetórias de
crescimento bem acima da de Portugal nos últimos anos. Comparado ao conjunto da
Polónia, da Hungria, da Roménia e da Letónia no que toca ao PIB per capita (PPC) em
percentagem da média europeia (entre 70% e 74%), Portugal já foi ultrapassado pelos dois
primeiros. Dado que Portugal atravessa, em termos comparativos, a segunda pior
recuperação do período pandémico na OCDE (de acordo com o Economic Outlook de
dezembro de 2021, dedicado ao período 2019 – 2022), é duvidoso que aguente a sua posição
se mantiver as mesmas políticas de dependência e estagnação.
Este panorama, no qual Portugal se afastou da Europa ao longo de duas décadas e
enfrenta agora desafios duros derivados da alta instabilidade política e económica ao nível
internacional, exige uma estratégia de lançamento da economia clara que vá para além do
simples aproveitamento dos fundos europeus. É preciso lançar as bases para uma economia
muito mais dinâmica, com capacidade de inovar, de chegar à linha da frente dos seus pares
europeus e de mudar de vez o clima de resignação e complacência que nos tem vindo a ser
induzido nos últimos anos. É por isso que é essencial que se enfrente os próximos anos com
um novo modelo de desenvolvimento assente na liberdade e na economia de mercado: onde
nos distanciamos do estatismo das últimas décadas, sustentado num projeto de
desenvolvimento baseado em financiamento público, nacional ou europeu, que quis decidir
quais seriam os setores e as empresas que venceriam, que regulou para proteger os
incumbentes, que nos tornou num país mais pobre que desconfia da mudança, que não está
preparado para a incerteza e encara, todos os anos, o orçamento de estado como um guia
para saber como e para onde vamos – com cada vez menos transparência, menos informação
e mais proclamações. Um país que vive assim não vive com estabilidade, porque não vive
com regras claras, abstratas e previsíveis, e não conhece crescimento porque desconfia,
controla e ou ignora quem nos pode realmente fazer crescer: os portugueses, as suas
ambições e os seus projetos.
Assim, nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, os Deputados abaixo
assinados, do Grupo Parlamentar da Iniciativa Liberal, apresentam o seguinte Projeto de
Resolução:
RESOLUÇÃO
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Assembleia da República
delibera recomendar ao Governo que:
1. Assuma um choque competitivo na política fiscal, repondo o poder de compra das
pessoas e atraindo investimento direto do estrangeiro.
2. Adote um modelo de gestão de fundos europeus numa lógica de transparência
máxima, abrindo vias de fiscalização por parte da Assembleia da República e da
sociedade civil, e de parceria, complementando e regulando, mas não se substituindo
ao mercado e às empresas no desenvolvimento económico.
3. Assuma uma política clara de desburocratização da economia, indo para além da
mera digitalização dos processos já existentes, lançando um programa que agilize ou
elimine a necessidade de autorizações prévias para o investimento.
4. Reforce a eficiência na gestão dos serviços públicos e capacidade de escolha dos
portugueses, apoiando-os nas suas opções na saúde e na educação e garantindo-lhes
acesso a serviços de qualidade independentemente do prestador.
5. Aposte numa transição energética assente numa lógica de agilização da inovação, de
parceria com quem quer arriscar com as suas ideias e apostar no seu esforço, criando
condições para a emergência de uma economia verde que seja capaz de se financiar
e de reagir às transformações constantes do setor.
Palácio de São Bento, 15 de abril de 2022
Os Deputados da IL
Bernardo Blanco
Carla Castro
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
João Cotrim Figueiredo
Patrícia Gilvaz
Rodrigo Saraiva
Rui Rocha
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Publicação — DAR II série A — 6-8 — 18/04/2022
II SÉRIE-A — NÚMERO 13
na educação e formação ao longo da vida, em simultâneo com uma aposta concreta na investigação e na ciência
e na valorização da administração pública. Implica um Estado social forte que, em conjunto com o setor privado
e com o setor associativo e cooperativo, garanta a redução das desigualdades e uma mais justa repartição e
distribuição do rendimento, do tempo, do espaço e dos recursos entre os cidadãos.
Os indicadores de desenvolvimento nacional devem acompanhar estas prioridades, devendo Portugal
monitorizar e utilizar indicadores que incluam aspetos mais diretamente ligados ao ambiente, qualidade de vida,
felicidade, saúde e bem-estar, em vez se focar prioritariamente no produto interno bruto.
Urge, portanto, repensar a forma e a ambição com que abordamos o planeamento orçamental e
macroeconómico do país e incorporar essas mudanças em todos os eixos desse planeamento. A entrega dos
Programas de Estabilidade em Bruxelas não precisa de ser um mero ritual burocrático que mais não é do que o
carimbar do cumprimento das regras previstas no Pacto de Estabilidade e Crescimento. Este momento pode –
e deve – ser aproveitado como um momento de apresentação e início da concretização de uma estratégia de
longo prazo para o País, que nos permita caminhar para um novo modelo de desenvolvimento.
Nestes termos, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, o Deputado do Livre
propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo que:
1. Inicie um grande debate nacional para um novo modelo de desenvolvimento para o País, em particular
tirando partido das comemorações em torno dos 50 anos do 25 de Abril, que nos podem servir de baliza
cronológica para um exercício de reflexão e deliberação coletiva em busca das novas metas que, à aproximação
do segundo quartel do Século XXI, desempenhem o papel político e societal que os 3D de democratizar,
desenvolver e descolonizar desempenharam para o nosso país no último quartel do Século XX.
2. Foque os órgãos de governação na transição para um novo modelo de desenvolvimento a longo prazo,
criando um gabinete para a transição, com o propósito de estudar e promover as estratégias para a transição
de modelo de desenvolvimento, que garanta a fuga à lógica dos ciclos eleitorais e de curto prazo e a
solidariedade entre gerações;
3. Reforce os meios humanos e técnicos de apoio à avaliação de políticas de desenvolvimento;
4. Incorpore mais indicadores económicos de longo prazo em futuros programas de estabilidade, que
possam servir de base de análise e trabalho para a construção de uma estratégia económica para o País para
as próximas décadas;
5. Diversifique os indicadores de desenvolvimento nacional, apresentando-os nos futuros programas de
estabilidade, passando a incluir indicadores de desenvolvimento sustentável, como o PIB verde ou a poupança
genuína, dando prioridade aos aspetos mais diretamente ligados ao ambiente, qualidade de vida, felicidade,
saúde e bem-estar e reforçando o seu papel na informação do sistema estatístico nacional e na monitorização
das políticas e da ação governativa.
Assembleia da República, 14 de abril de 2022.
O Deputado do L, Rui Tavares.
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PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 30/XV/1.ª
POR UM MODELO DE DESENVOLVIMENTO FOCADO NO CRESCIMENTO
Portugal prepara-se para atravessar um período-chave na história do seu desenvolvimento nesta primeira
metade do Século XXI.
Por um lado, já conta com duas décadas de estagnação em consequência de um modelo estatista de
desenvolvimento, agravadas por uma grave crise económica e financeira, seguida de uma pandemia e agora do
deflagrar de uma guerra na Europa. Por outro, dispõe de um Governo recém-eleito, apoiado numa maioria
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Apreciação — DAR I série — 3-42 — 21/04/2022
21 DE ABRIL DE 2022
O Sr. Presidente (Adão Silva): — Boa tarde, Sr.as e Srs. Deputados, em nome da Mesa, cumprimento VV.
Ex.as, assim como os membros do Governo aqui presentes.
Está aberta a sessão.
Eram 15 horas e 7 minutos.
Solicito que sejam abertas as portas das galerias, para acesso dos cidadãos que nos queiram acompanhar.
Antes de mais, tem a palavra a Sr.ª Secretária Deputada Maria da Luz Rosinha para dar conta do expediente.
A Sr.ª Secretária (Maria da Luz Rosinha): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, deram entrada na Mesa,
e foram admitidas pelo Sr. Presidente, várias iniciativas legislativas: Proposta de Lei n.º 3/XV/1.ª (GOV), que
baixa à 1.ª Comissão; Projetos de Resolução n.os 22/XV/1.ª (L), que baixa à 4.ª Comissão, 23/XV/1.ª (PAN), que
baixa à 5.ª Comissão, 24/XV/1.ª (PCP), 25/XV/1.ª (BE), 26/XV/1.ª (PSD), 27 e 28/XV/1.ª (CH), 29/XV/1.ª (L) e
30/XV/1.ª (IL); e Projetos de Lei n.os 40/XV/1.ª (PSD), que baixa à 1.ª Comissão, 42/XV/1.ª (PSD), que baixa à
1.ª Comissão, 45/XV/1.ª (CH), que baixa à 14.ª Comissão, e 49/XV/1.ª (IL).
Terminei, Sr. Presidente.
O Sr. Presidente (Adão Silva): — Sr.as e Srs. Deputados, como sabem, hoje iremos debater o Programa de
Estabilidade (PE), juntamente com os Projetos de Resolução n.os 24/XV/1.ª (PCP) — Desenvolver o País,
valorizar o trabalho e os trabalhadores, promover a produção nacional, romper com a dependência externa,
25/XV/1.ª (BE) — Política orçamental de crescimento da despesa e investimento público, 26/XV/1.ª (PSD) —
Recomenda ao Governo a apresentação de um verdadeiro Programa de Estabilidade, incluindo uma estratégia
de regresso de Portugal à convergência com os países europeus, 27/XV/1.ª (CH) — Pela rejeição do Programa
de Estabilidade 2022-2026, 28/XV/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo que complemente o Programa de
Estabilidade com um programa de investimentos na defesa nacional, 29/XV/1.ª (L) — Uma economia dinâmica
para uma sociedade da dignidade: o programa estratégico de desenvolvimento para a sustentabilidade de
Portugal. Recomenda ao Governo que utilize os Programas de Estabilidade para focar os órgãos de governação
na transição para um novo modelo de desenvolvimento, incorporando mais indicadores económicos de longo
prazo, incluindo indicadores de desenvolvimento sustentável, dando prioridade aos aspetos mais diretamente
ligados ao ambiente, qualidade de vida, felicidade, saúde e bem-estar e 30/XV/1.ª (IL) — Por um modelo de
desenvolvimento focado no crescimento.
Para iniciar o debate, tem a palavra o Sr. Ministro das Finanças, Fernando Medina, que apresentará o
Programa de Estabilidade, dispondo de 6 minutos.
O Sr. Ministro das Finanças (Fernando Medina): — Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr.as e Srs.
Deputados: Nesta minha primeira intervenção na Assembleia da República (AR) enquanto Ministro das
Finanças, começo por endereçar uma palavra da saudação muito especial a todas as Sr.as Deputadas e a todos
os Srs. Deputados, desejando-lhes as maiores felicidades políticas e pessoais no desempenho de tão elevada
responsabilidade neste contexto de exigência para com a nossa democracia.
Reafirmo o compromisso da mais estreita cooperação institucional, que é não só obrigação legal do Governo
como o espírito de todos os democratas junto da Casa da nossa democracia.
Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O Programa de Estabilidade 2022-2026 foi desenvolvido num contexto
de elevada incerteza. O mundo, que ainda não recuperou de mais de dois anos de pandemia, enfrenta agora
uma nova crise, provocada pela invasão da Ucrânia.
Mas, se o contexto é de incerteza, o Programa de Estabilidade define uma estratégia clara: recuperação
económica e social, convergência com a União Europeia (UE), redução da dívida pública. Fazemo-lo porque só
um crescimento sólido, duradouro e sustentável é pilar de elevados níveis de emprego e da melhoria dos
rendimentos e garante do financiamento de um Estado social forte, moderno e eficaz. Fazemo-lo porque a
redução da dívida é o caminho que nos permite manter a credibilidade externa do País, pilar da estabilidade
financeira do Estado, das empresas e das famílias.
Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Este ano, ultrapassaremos os níveis de Produto registados em 2019
— pré-pandemia — e registaremos o maior peso do investimento no Produto desde 2010. Em 2026, teremos
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